Violeiros modernizam raiz sertaneja por meio da reverência ao legado do mineiro Tião Carreiro

Elemara Duarte - Hoje em Dia
21/07/2014 às 08:53.
Atualizado em 18/11/2021 às 03:27
 (Hoje em Dia)

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SÃO PAULO - O som da viola de Tião Carreiro ainda soa na casa da viúva e da filha dele, num bairro da Zona Leste da capital paulista. Mas os dedos que a tocam não são do músico e compositor de Monte Azul, Norte de Minas, que morreu vítima das complicações da diabetes, há 20 anos. Se ainda estivesse no comando das cordas na cintura do popular instrumento, Tião completaria 80 anos em dezembro próximo.

O suave som vem do dedilhar da filha dele, a assistente social Alex Marli Dias. Ela não sabe tocar, mas guarda com cuidado as centenas de itens do acervo do pai, para a instalação de um museu. Vivendo a memória de Tião, a família recebe homenagens a ele, o “Rei do Pagode Sertanejo”.

Jovens violeiros, duplas famosas e empresários também batem na porta delas, com pedidos para autorizar regravações ou licenciar produtos “de grife” para novos fãs que ostentam com orgulho a marca de Tião Carreiro nas fivelas personalizadas dos cintos e até em tatuagens.

Tatuagens? Sim! A moda de viola aprendeu a falar a língua da nova geração e também da elite. Hoje já existe moda com jazz – a “jazzpira”. E tem também jovens tocando o instrumento, como é o caso da bela e, como se define, “bruta”, Bruna Viola. Ela lembra Tião Carreiro numa tattoo no braço, e também o parceiro dele, o músico Pardinho (1932-2001), nos shows.

“Quem sabe tocar, a faz chorar”, comenta Alex Nair, brincando com as cordas da viola. “...Mas o Tião fazia falar!”, emenda rapidamente a viúva do artista, Nair Avanço Dias, hoje, aos 79 anos.

 

ACERVO - Chapéu de Tião Carreiro entre as relíquias guardadas pela filha do violeiro. Crédito: Elemara Duarte/Hoje em Dia

 

Violeiro ainda lança CDs e conquista novos fãs

“Antigamente, rádio FM não tocava música sertaneja. Não deixavam sequer as duplas entrarem. Isso, quando eu namorava com ele”, lembra a viúva Nair Avanço Dias, que conheceu Tião Carreiro no interior de São Paulo onde vivia com a família, e onde o violeiro deu os primeiros passos da carreira. Mas hoje, a história mudou. E pelo visto, não apenas para o chamado “sertanejo universitário”. O “sertanejo raiz” também conquista espaço.

Filha de Tião Carreiro, Alex Marli Dias acredita que o pai seja um dos poucos músicos brasileiros que, mesmo após vinte anos da morte dele, ainda continua a lançar discos.

“As distribuidoras nos procuram demais. Após a morte dele, a fama continuou crescendo”, avalia. Pelos cálculos do site do artista, também mantido pela família, depois da morte de Tião foram lançados 51 CDs.

“Infelizmente, houve uma época em que a música de raiz realmente foi muito discriminada. Mas, graças a Deus, estou conseguindo romper esta barreira. Além da agenda de shows nas festas de peão, e nobres casas de shows, também tenho feito muitos shows corporativos elitizados”, lembra a cantora mato-grossense Bruna Viola, ao Hoje em Dia.

Ela exemplifica que já se apresentou inclusive em Belo Horizonte, em um evento no “cinco estrelas” Ouro Minas Hotel. A próxima apresentação na capital mineira será na casa de shows Wood’s, dia 27 de agosto. Onde fica? Na Alameda da Serra, 154, no Vale do Sereno, área nobre de Nova Lima.

Bruna, aos 21 anos, não conheceu Tião Carreiro pessoalmente. Já pela música, a intimidade está no próprio braço – e não da viola apenas. Ela nasceu no ano em que o ídolo morreu e para homenageá-lo, tatuou o rosto dele no braço esquerdo.

“Não há quem não se renda ao som de uma viola bem tocada e das músicas com as melodias e letras com conteúdo que trazem histórias da vida no campo, histórias de amores e até mesmo histórias trágicas como Chico Mineiro”, justifica ela, que conheceu a música de Tião Carreiro e Pardinho na fazenda do bisavô.

 

NOVO TALENTO - Bruna Viola honra memória de Carreiro na tatuagem. Crédito: Kátia Cerezer/Divulgação

Moda com jazz

“Sertanejo, hoje, é visto como Zezé di Camargo, Luan Santana... A nossa música é caipira regional com jazz, improvisação”, diz o criador do Projeto Jazz Pira, de São Paulo, o baterista Douglas Las Casas. Com a mistura improvável, ele diz que há cerca de um ano agrada em festivais de jazz e em casas dedicadas ao sofisticado ritmo norte-americano.

O repertório de “música caipira” traz 20 músicas. Três de Tião Carreiro ou que foram interpretadas por ele. As canções são interpretadas pela violeira Adriana Farias com o pianista Bruno Alves, o baixista Ximba Uchyama e o próprio Las Casas. Ela, da banda Barra da Saia. Eles, do “jazzeiro” Três de Paus. Numa canja da vocalista em um show, criou-se a mescla rítmica.

“A influência de Tião Carreiro, se a gente for analisar, não tem. Mas o que é o jazz? É uma música improvisada. Pode ser que não tenha vertente jazzística na melodia e na harmonia dos pagodes dele, mas na atitude de improvisação sim. Ele não é um músico teórico, tudo que ele toca é improvisado”, afirma.

Nair Avanço chora todas as vezes que ouve uma das canções que Tião Carreiro fez para ela. “Quando ele gravou o disco com a música ‘Velho Amor’, ele botou lá para tocar e correu aqui para a sala, rindo”. Nair ouvia e pensava: “Mas essa música é a minha vida...”

Como boa descendente de italianos que é, perguntou em bom som ao marido: “Quem foi que fez essa música?” Tião falou: “Eu e o Donizete (compositor)”. E eu disse: “Pois o dia que eu vir esse Donizete vou perguntar como ele sabe da minha vida. Foi você que contou!”, lembra.

Não era bem visto o namoro entre Nair, filha caçula de uma família bem de vida em Araçatuba (SP), com um violeiro forasteiro do Norte de Minas, que usava ternos doados e esfarrapados. “Eles viviam numa rua perto do cemitério, chamada Rua da Saudade. Meu avô preferia vê-la descer a Saudade morta, do que vê-la casada com ele”, diz a filha.

Mas para o amor não existem poréns. Casados, o pai emprestou uma casa para morarem. “E o Tião só atrás dessa viola...”, lembra Nair, sobre o “antes da fama” do violeiro. Na casa onde vivem atualmente, nas madrugadas na sala tocando viola é que o “pagode” foi improvisado e criado.

“Uma das coisas mais marcantes da carreira de Tião Carreiro foi o crédito por ter inventado o ritmo ‘pagode de viola’. Meu trabalho tem enfoque nas outras tantas presenças da viola na nossa música, porém, é uma homenagem de gente como eu, que nasci na cidade, à maravilhosa cultura caipira”, endossa a adoção contemporânea do ritmo criado por Carreiro e do instrumento que usava, o músico, produtor e gestor cultural em Minas João Araújo. Ele é criador do portal www.violurbana.com.

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