OURO PRETO – Um dos principais cursos d’água do Brasil e da América do Sul, símbolo da integração nacional ao perpassar por seis estados, o rio São Francisco será tema de um dos próximos filmes do diretor paraibano Vladimir Carvalho, referência entre grandes documentaristas no país.

“Vou traçar um perfil do rio, que poderia ter ajudado a acabar com as grandes tragédias do Nordeste, que são a seca e a fome. Hoje é um rio inutilizado, devido às barragens e às defecações”, registra o cineasta, um dos convidados da recém-encerrada 14ª Mostra de Cinema de Ouro Preto. 

Para Carvalho, que passou pela cidade mineira para falar sobre o tema “Territórios Regionais, Inquietações Históricas”, o rio que nasce em Minas Gerais, mais precisamente na Serra da Canastra, transformou-se numa vala comum de dejetos, incapaz até de atender a população.

“A ideia de transposição do rio acabou ficando no meio do caminho, pois as próprias autoridades admitem que a água está contaminada. E o projeto foi feito como meia-sola, de qualquer jeito. Hoje os canais estão se arrebentando em vários pontos”, lamenta o premiado diretor de 84 anos. 

Partidão

O filme deverá ser realizado após o lançamento de outro documentário, sobre o militante comunista Giocondo Dias, ex-secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB). “Eu me apaixonei por este cara que viveu dois terços da vida na clandestinidade, contra a luta armada e a favor do diálogo”.

O longa-metragem está em fase de finalização, aguardando recursos para a compra de direitos autorais de três músicas que Carvalho considera serem essenciais à narrativa. O lançamento deverá coincidir com “Marighella”, filme de Wagner Moura sobre outro ícone de esquerda, Carlos Marighella.

“Ambos eram amigos fraternos, baianos e nascidos na mesma época. Eles pertenceram ao movimento quando chamavam o PCB de Partido Comunista Baiano pela quantidade de baianos ligados ao Partidão”, registra o diretor de filmes importantes como “Barra 68” e “Conterrâneos Velhos de Guerra”.

Cineasta paraibano também prepara documentário sobre o militante de esquerda Giocondo Dias, ex-secretário geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que foi contra a luta armada

Carvalho assinala que Giocondo chegou a se reunir por dez horas seguidas com Marighella para demover o amigo de continuar a luta armada. “Ao final, ele saiu da sala dizendo ‘desisto!’. Dois meses depois (em 4 de novembro de 1969), Marighella foi assassinado numa emboscada”, destaca.

(*) O repórter viajou a convite da organização da CineOP