Conhecer a obra de grandes pensadores sobre a essência da alma humana e a natureza compiladas em clássicos como “Ecce Homo” (Nietzche) e “A República” (Platão) é o caminho, digamos, tradicional. Mas é possível visitar também as ideias de Sócrates, Aristóteles e outros filósofos em plataformas digitais.
 
Há várias páginas no Facebook e canais no YouTube dedicados ao tema. Oportunidade para entender melhor por que a proposta inicial do MEC de extinguir essa disciplina do ensino médio causou tanta revolta entre especialistas e outros apaixonados. Sociologia foi outra disciplina colocada em xeque. “Sabemos que Filosofia e Sociologia são disciplinas que ajudam a pensar. Que país esperamos construir sem essa capacidade garantida a nossos jovens?”. O questionamento feito pela filósofa Marcia Tiburi confronta a proposta apresentada pelo Governo Temer, que, após a ampla repercussão negativa, voltou atrás na exclusão dessas disciplinas da grade curricular. 

Num contraponto, Tiburi indica a expansão da área. “Hoje em dia temos uma quantidade imensa de pensadores em diversos países. Uma novidade é o interesse por pensadores latino-americanos e brasileiros”, comenta ela, que vem a BH em 4 de outubro lançar o romance “Uma Fuga Perfeita é Sem Volta”.

Pela Rede
Dentre as opções para aprender a filosofar na web estão as páginas “Horizonte Ampliado”, “Recalculando Rotas”, “Casa do Saber” e “Café Filosófico”, que reúnem debates com pensadores como Mário Sérgio Cortella, Viviane Mosé, Monja Coen, Zigmunt Bauman e a própria Tiburi. “A internet tem muitos limites. Muitas vezes as pessoas reproduzem a ignorância como se fosse sabedoria porque não sabem distinguir”, adverte Tiburi.

A difusão das ideias é um ponto importante trazido pelas redes sociais. “Hoje alguns pensadores chegam com mais facilidade aos jovens. Mas vemos uma simplificação de tudo, pois Filosofia exige tempo de reflexão e estamos em uma sociedade onde tudo é rápido e volátil”, pontua o professor universitário Iran Filho. 

Frente a este cenário, o papel do professor de Filosofia tem como principal objetivo auxiliar o aluno a separar as informações relevantes. “É preciso adaptar para a linguagem dos jovens. O dever de cada professor é esclarecer os alunos criticamente em relação às informações das mídias”, finaliza. 

 

Belo Horizonte abriga vários projetos que convidam ao pensar

 

Adauto Novaes

Adauto Novaes – “Conhecer não é pensar. Para isso é preciso reflexão”, diz filósofo e idealizador do “Mutações”


Quem se interessa por filosofia e outras formas de pensamento encontra bons projetos na capital. Comemorando 30 anos, o ciclo de conferências “Mutações – Entre Dois Mundos” segue até 5 de outubro com palestrantes de peso como José Miguel Wisnik, Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl. 

As conferências ocorrem sempre às segundas, terças e quartas, às 19h, no auditório do BDMG Cultural (rua Bernardo Guimarães, 1.600), por R$ 20 e R$ 10 (meia). O poeta e filósofo Francisco Bosco é o palestrante desta segunda-feira (26). “O roteiro desse ciclo é uma retomada do pensamento. Estamos passando pelos temas que atravessaram as edições anteriores. A trilogia paixão, olhar e desejo, mas na perspectiva das mutações”, elucida o filósofo e idealizador do projeto, Adauto Novaes. Para ele, a mutação é uma mudança radical no estado das coisas. “É repensar aquilo que já foi pensado”.

Nas três décadas do projeto, foram publicados mais de 800 ensaios e 35 livros. O mais recente é “Mutações – O Novo Espírito Utópico”. “Planejo transformar esse material em uma plataforma digital gratuita. Uma contribuição que as novas redes permitem”, pontua.

Francisco Bosco

Francisco Bosco – Filósofo participa hoje do “Mutações” com o tema “Homem Máquina – O Amor na Era Digital”

 

Filosofia, Arte, cinema
Outra opção é o “Convite ao Pensar”, realizado no Crea Cultural (av. Álvares Cabral, 1.600), sempre na primeira quarta-feira de cada mês, às 19h30, com entrada franca. 

O projeto consiste em palestras com temas variados e propõe um debate ao final. A próxima edição será em 5 de outubro, com o tema “Ser e Não Ser: Ensaio de uma Leitura Filosófica de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa”, com a professora Márcia Marques de Morais.

Para os amantes da sétima arte, há o “Filosofia e Cinema”, também no Crea Cultural. São sessões de cinema comentadas pela professora de Filosofia Maria de Lourdes Gouveia. A próxima sessão será no dia 22, com o filme “A Pedra da Paciência”. Entrada: R$ 20. “Em 2017 completaremos 15 anos de projeto. Sempre com casa cheia”, comemora a coordenadora, Rosângela Alves de Oliveira.

 

Livros apontam trajetos a serem percorridos por quem se interessa pelo tema
Há muitos caminhos que levam à Filosofia, e o que não faltam são lançamentos de livros para apontar trajetos. Recentemente, chegou às livrarias o box “Grandes Obras de Nietzsche”, que reúne três livros do autor: “Assim Falava Zaratustra”, “O Anticristo” e “Ecce Homo”. O livro “Estética e Ontologia”, do filosofo húngaro Georg Lukács, é outra publicação que recebeu nova edição. 

“Há quem goste de estudar os pensadores mais difíceis. Há quem prefira começar com textos mais fáceis”, comenta Marcia Tiburi. A filósofa pontua que para além da leitura, a Filosofia é uma experiência de pensamento “que se dá na conversa e na leitura e não apenas como história das ideias ou como tradição”. “A Filosofia é, sobretudo, um método: o diálogo”.

Marcia Tiburi

Marcia Tiburi – “Neste momento é importante que as pessoas não confundam o desejo de serem elas mesmas com o individualismo, que é muito ilusório”

 

Romance e Filosofia
Convidada do “Sempre um Papo” que acontece em 4 de outubro na sala Juvenal Dias do Palácio das Artes, às 19h30, Marcia Tiburi conversará sobre “Uma Fuga Perfeita É Sem Volta”. A entrada é franca. 

O quinto romance da filósofa reflete sobre a comunicação na era da incomunicabilidade, as relações de amizade e a fé na era da mercadoria. “Esse livro nasceu de um sonho. A primeira cena descrita pelo narrador é um sonho que se repetiu por anos”, conta.

No livro, Marcia Tiburi nos apresenta Klaus, um brasileiro que vive há décadas em Berlim e trabalha em uma chapelaria. Entre uma ligação e outra para a irmã Agnes, ele recebe a notícia da morte do pai. “Essa notícia lhe tira o chão. Faz com que ele procure uma saída para os próprios conflitos”, diz.

Fascinada pelos longos períodos de tempo, “aqueles que levam uma vida”, como diz a autora, ela coloca no olhar de Klaus a perspectiva de que a vida é apenas um intervalo entre o nascer e o morrer. Isso, claro, após muita reflexão.

“Klaus se pergunta, medita, questiona, faz a gente pensar. Ao mesmo tempo, a vida dele é muito parecida com a de todo mundo. Uma vida simples que ele próprio considera banal. Mas nos mostra que o esforço da interioridade é importante em uma época em que todos buscam a singularidade”, considera.