Sesc Copacabana, dia 2 de abril. Primeiro show de lançamento do quarto álbum de Wilson das Neves, "Se Me Chamar, ô Sorte". Antes de apresentar cada música, o sambista faz questão de saudar os parceiros. Quem estivesse presente ganhava um elogio ("grande compositor esse daí"). Os que não estivessem, levavam um puxão de orelha brincalhão ("não veio me prestigiar, não vou ao lançamento dele").

Com um tom de brincadeira e generosidade, Wilson das Neves coloca o criador em primeiro plano a todo momento. "Muitas vezes as pessoas cantam as músicas, mas não sabem de quem é. Acreditam que a autoria é do canário, de quem empresta a voz", afirma o artista, por telefone. "Procedo bem, porque não fiz sozinho. Só faço as melodias, são os parceiros que terminam as músicas. É a minha obrigação saudá-los".

Feras

Wilson é muito bem servido de parceiros. Somente em seu novo trabalho, lançado pela MP,B Discos (com distribuição da Universal), ele compartilha a autoria com grandes letristas, como Paulo César Pinheiro, Nelson Sargento, Toninho Geraes, Chico Buarque e o falecido Luís Carlos da Vila.

Os arranjos também são de primeira linha. Feitos pelo companheiro de estrada Cláudio Jorge e por Vittor Santos, Jorge Helder, Luis Claudio Ramos, entre outros. "São todos meus amigos. Não preciso falar nada. Basta mostrar a música e logo me pedem para fazer o arranjo".

No palco, Wilson das Neves faz questão de dizer que suas piadinhas são para descontrair – não só o público, mas a si mesmo. Embora tenha começado a cantar e compor nos anos 70, o friozinho na barriga permanece. "A gente fica nervoso, pois não sabe o que vai encontrar. Mas acontece com todo mundo. Perguntei uma vez ao Paulinho da Viola se era assim com ele e soube que todos ficam nervosos", diz o músico.

Bateria

Lugar onde realmente se sente à vontade é ao fundo, sentado na bateria. Foi com esse instrumento que se tornou um dos músicos mais prestigiados do país. Seu currículo é invejável. Além do amigo Chico Buarque, com quem toca até hoje, Wilson acompanhou Elis Regina, Egberto Gismonti, Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Elizeth Cardoso, Roberto Carlos, Clara Nunes, Tom Jobim e Francis Hime. No exterior, tocou com Sarah Vaughan.

"Na bateria, as atenções não estão sobre você, todos os olhares estão para outra pessoa. Se falar meu nome, bem, se não falar, não tem problema", diz o artista de 76 anos que ainda não tem previsão de voltar a tocar em Belo Horizonte. "Não é tranquilo, mas a responsabilidade é menor.

Produção dividida com Berna Ceppas e Paulo César Pinheiro

A produção do álbum de 14 faixas foi feita em conjunto pelo próprio Wilson das Neves, seu principal parceiro, o compositor Paulo César Pinheiro (com quem já dividiu 70 criações), e Berna Ceppas.

Este último é companheiro de Orquestra Imperial, banda que reúne nomes destacados da cena musical contemporânea do Rio de Janeiro (como Rodrigo Amarante, Kassin e Nina Becker). Neste projeto, Wilson tem contato direto com jovens na casa dos 30 e 40 anos.

"Só aprendo com todos eles. Quando era jovem, eu aprendia com os vários bateristas que conheci. Agora tem sempre um jovem trazendo alguma coisa nova", diz o músico. "Hoje vivemos em uma época de tecnologia. Meu bisneto tem 4 anos e mexe no computador. Ou seja, todo mundo tem a ensinar".

Por sinal, o bisnetinho, um rapazinho de cabelos encaracolados e sorriso sapeca, tem sido a principal companhia do sambista. João tem sido tão importante para o bisavô que ganhou uma canção. "Samba para João" ganhou letra de Chico Buarque (veja ao lado) e fecha o álbum. "Este é o homem da minha vida", brincou Wilson, durante o lançamento no Rio.

Vaquinha

"Se Me Chamar, ô Sorte" foi viabilizado graças a uma vaquinha coletiva do site Embolacha (crowdfunding). Foram captados R$ 60 mil com apenas 82 investidores. "Não sei muito sobre o processo. Apenas que o pessoal que apoiou o projeto veio participar de um churrasco aqui em casa", conta o músico, que mora na Ilha do Governador.