Marcado por polêmicas e cancelamentos (de patrocinadores e artistas), “Woodstock 50” deve acontecer, se mais nada der errado, de 16 a 18 de agosto, prometendo resgatar o ideal de “paz, amor e música” que fez do evento original, realizado em 1969 na cidade de Bethel, nos Estados Unidos, a mãe de todos os festivais.

O Woodstock original foi um divisor de águas no mundo da música. “O fato é que grande parte do que estava ali deu o tom do que viria depois. O impacto foi tão grande que todos olharam para Woodstock e disseram que o caminho era aquele. Dali sairia a inspiração para a música que seria feita”, avalia o crítico musical Rodrigo James.

Ele salienta que organizadores e artistas não tinham dimensão do que Woodstock seria. “Eles tinham noção que seria algo grande, mas não que se transformaria em algo icônico, como um grande momento da década de 60. Foi o auge da contracultura, do paz e amor, numa época que não existia essa cultura dos festivais”.

Contracultura

O mundo fervilhava por conta da Guerra Fria, da intromissão americana no Vietnã e da luta pelos direitos humanos, representados por mais de 400 mil hippies que aportaram na pequena Bethel, oriundos de vários lugares dos Estados Unidos e também de outros países. No lineup, estavam pesos pesados como Jimi Hendrix, The Who, Janes Joplin e Joe Cocker.

“As pessoas nem ouviam música. O importante era estar lá, em meio a todas aquelas ‘viagens’. E olha que não foi nenhuma maravilha. Teve muito problema: engarrafamento, falta de comida e bebida e de iluminação em alguns shows. Acho que Woodstock ensinou, a partir dos erros, como fazer um grande show nos Estados Unidos”, pontua James.

Para o crítico, a edição comemorativa não conseguirá repetir o mesmo espírito do original. “Um festival que cultua a paz e o amor fazia sentido em 1969. Hoje, as pessoas vão para tirar selfie e fazer vídeo do palco. Festivais se tornaram o shopping-center do entretenimento, onde também tem um show”, lamenta.

barato

Woodstock teve a sua versão brasileiro com o Festival de Águas Claras, realizado em 1975

Enquanto isso...

O Brasil também teve o próprio Woodstock, realizado seis anos depois do evento americano. O Festival de Águas Claras carregou os mesmos princípios: ambientado numa fazenda do interior de São Paulo, em Iacanga, e a geração do “flower power” como principal público.

“O festival não nasceu com essa intenção (de ser uma versão nacional de Woodstock), sendo mais uma construção midiática. O público não passou de 15 mil. Mas, com certeza, foi o maior evento musical isolado, em área livre, do Brasil”, assinala o cineasta Thiago Mattar.

O diretor apresentou, durante a Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), encerrada na última segunda-feira, o documentário “O Barato de Iacanga”, que trata dos bastidores do festival de Águas Claras, percorrendo desde a primeira edição até a última, realizada em 1984.

Embora busque retratar mais o processo de organização, o filme também tem um pé no lado comportamental, mostrando, a partir de material de arquivo feito em Super 8, “cabeludos” peladões tomando banho sem qualquer pudor, repetindo o bordão do “paz e amor”.

“A contracultura chega atrasada ao Brasil, por causa da ditadura. O rock que era feito parecia ser o mesmo de Woodstock de 1969, com músicas psicodélicas. O que já havia morrido por lá, acabou nascendo aqui, de outra forma, como protesto”, destaca Mattar.

A certa altura do filme, o escritor Luiz Carlos Maciel fala que, aos jovens que não apoiavam o regime, só havia duas alternativas: pegar em armas ou aderir a movimentos alternativos. “O festival acabou sendo um ato em favor da liberdade”, afirma o cineasta.

“Doidões”

Águas Claras também foi envolvido em várias lendas, como a participação dos Mutantes. “O baterista Dinho Leme foi o curador e envolveu vários membros dos Mutantes, mas a banda jamais tocou. Outros headliners, como Jorge Mautner, estavam muito doidões ou não conseguiram chegar”.

O desejo de Thiago Mattar é lançar uma coleção em CD com o material, especialmente pela curiosidade de várias bandas que subiram ao palco não terem lançado um disco sequer. Capote e Rock da Mortalha (“espécie de Black Sabbath brasileiro”) são alguns exemplos.

Mattar sublinha que o festival também foi importante para formar uma geração de técnicos de som e produtores culturais. Em 1981, Águas Claras ganhou uma segunda edição, mas desta vez os organizadores se preocuparam em dar um rótulo de Música Popular Brasileira.

“Era uma forma de aliviar para os censores, pois a música já estava institucionalizada. Só que o clima era o mesmo de 1975, de muita liberdade. Já em 1984 o que pautou foi o business, de como ganhar dinheiro, apontando para o Rock’n’Rio, que aconteceria no ano seguinte”.