“Como ler Clarice Lispector?”. A pergunta batiza o workshop que se inicia neste sábado, dia 3 de outubro, seguindo até 24 do mesmo mês, no Idea Espaço Cultural, no Funcionários. A responsável por dar a régua e o compasso para elucidar a instigante questão será a mestre, doutora, professora e pesquisadora de literatura de Língua Portuguesa da USP, Nádia Gotlib. E com que propriedade? Bem, além de autora de vários artigos sobre Clarice, ela assina o livro “Clarice Fotobiografia”.

Não é a primeira vez que Nádia se aventura a perscrutar o universo da autora. “Já dei vários workshops. Em São Paulo, no espaço Cult, por exemplo. E também em outras cidades, do Brasil e do exterior”, diz ela, acrescentando que não detecta um perfil específico de público. “É diversificado. Como não se exige nenhum pré-requisito, as pessoas se inscrevem para conhecer melhor Clarice, ou para simplesmente entrar em contato, por vezes pela primeira vez, com a vida e obra dela”.

Interessa renovado

O que não se configura um problema. “Não importa que não tenham lido nada sobre Clarice. Importa o que vamos ‘ver’, juntos, ou seja, as várias Clarices que conheceremos através das fotos. Importa o que vamos ‘ler’, juntos, no decorrer desses encontros”, diz Nádia, que, sim, assente quanto ao fato de que há um interesse pela obra de Clarice que sempre se renova, a cada nova geração. E a razão, para ela, é simples. “A obra de Clarice é diversificada – escreveu crônicas, contos, romances, páginas femininas, cartas, além de matéria jornalística, em vários jornais e revistas cariocas. Entrevistou inclusive intelectuais, artistas e demais personalidades de destaque para a ‘Manchete’ e ‘Fatos e Fotos’, nos anos 1970”. Além disso, acrescenta, Clarice escreveu para pessoas de diversas idades – crianças, adolescentes, adultos, idosos. “E o mais importante é que seus textos têm excelente nível de qualidade. Trata-se de uma escritora ótima, uma das melhores que temos, não só em relação às escritoras mulheres mas também em relação aos homens escritores”, advoga.

Homenagem no Leme

O culto – digamos assim – por Clarice Lispector deve ganhar outro capítulo em breve. Aos moldes do que acontece com Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, a escritora será homenageada com uma escultura no Leme, Rio de Janeiro, feita pelo artista Edgar Duvivier. A novidade, foi anunciada no Instagram do filho do escultor, o ator Gregório Duvivier, que postou a maquete da obra. Clarice será representada ao lado de seu cachorro de estimação Ulisses.

Nascida na Ucrânia (em 1920), a escritora morou no bairro carioca de 1965 até sua morte, em 1977, na rua Gustavo Sampaio. Em várias crônicas, cita o local. Ano passado, um grupo de artistas, encabeçado pela biógrafa Teresa Montero e as atrizes Beth Goulart e Zezé Mota, promoveu um abaixo-assinado para que a estátua da autora de “A Hora da Estrela” fosse erguida no bairro.

 

Inspiração para obras de arte, t-shirts, bonecas...

Thais Vandanezi / Divulgação

Workshop em BH atesta fascínio que Lispector segue suscitando nos dias atuais

CAMISETA DA CHICO REI – O modelo acima é a segunda homenagem da grife à autora

Não é raro encontrar mulheres que foram batizadas com o nome “Clarice” por conta da escritora. Caso da irmã do artista juiz-forano (radicado em BH desde 2005) Alessandro Lima. “Minha mãe era – e ainda é – muito fã das obras dela”. A paixão, aliás, contaminou o filho, que, em sua mais recente mostra, “Gravuras”, no Espaço Cultural Vallourec, submeteu ao olhar do público uma gravura representando Lispector. “Fiz em homenagem a tudo isso: à minha mãe, à minha irmã e à escritora”. A gravura foi feita em buril, técnica utilizada para finos trabalhos em metal.

Mas, vale lembrar, é possível também “vestir” Clarice. A Chico Rei, grife de Juiz de Fora, comercializa camisetas, acessórios e pôsteres com temas como música, literatura ou cartoon, dentre outros. “Na seção literatura, já estamos na segunda estampa sobre Lispector, agora com a frase ‘Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome’. Em 2012, tínhamos uma (t-shirt) que trazia o rosto dela. A frase está em domínio público, e consideramos uma das melhores expressões sobre liberdade. Se colocarmos 200 peças à venda, acaba tudo no mesmo dia”, garante Tiago Vieira, 30 anos, assessor de marketing da grife.

Tendo feito doutorado em Letras, a bonequeira Cássia Macieira foi outra a homenagear Lispector. “Não tem como não ler a obra dela, mesmo antes, no ensino médio”. Mas o que mais intrigava Cássia sempre foi a forma dos olhos da escritora, “o rosto espichado, a maçã geométrica... Neste caso, fui mais pela forma, e não pela alma”, brinca ela, referindo-se à boneca Clarice Lispector. “Todo mundo gosta, ela é muito, muito amada, e quem bate o olho, reconhece”, complementa.

A) Há muitas frases de Lispector circulando pelas redes sociais... Isso é bom, ou ruim?

Entendo que não há, nesta prática, um aprofundamento, uma imersão, na obra dela, mas, ao mesmo tempo, o nome de Lispector circula, o que pode remeter os mais curiosos aos livros propriamente ditos...

Grande parte das frases que aparecem frequentemente na internet como sendo de Clarice não foram escritas por ela. Essa proliferação de aparições tem um lado bom: afinal, o nome Clarice Lispector aparece por ali. Mas é uma Clarice "falsa", que não existe. Por essa razão é preciso, a todo momento, tentar "resgatar" a verdadeira Clarice. E qual seria a verdadeira Clarice? A que está na sua obra, nos livros que escreveu e foram publicados. Espero que os leitores de falsas Clarices tenham algum dia o desejo de ler os livros que ela escreveu, que são muitos: mais de vinte.


B) Em linhas gerais, o que o workshop abarca?

A proposta é a de levar o público a entrar em contato com o universo da vida e obra de Clarice. Vamos ver algumas fotos selecionadas do meu livro "Clarice Fotobiografia", em que há 800 imagens. E vamos ler textos de vários gêneros narrativos escritos por Clarice, desde os mais simples a outros, mais sofisticados do ponto de vista da construção narrativa. O repertório inclui crônicas, cartas, contos, páginas femininas, romances. Dessa forma poderemos ter uma visão abrangente e, ao mesmo tempo, mais pontual das várias fases de vida e de produção literária e jornalística de Clarice.

C) Sob seu ponto de vista, quais as qualidades que mais se sobressaem na obra de Lispector?

O seu modo de narrar fluente e, por vezes, muito simples. Sob esse aspecto, não me parece que seja hermética… Observo também que a voz que narra tem um ritmo quase coloquial, que, em alguns textos, se assemelha à voz de alguém com quem estamos a conversar. Há que considerar também a qualidade das figurações, isto é, das imagens que ela usa para traduzir, com sutileza, a intimidade sobretudo das mulheres, mediante sensações, emoções, paixões. Enfim, a autora tem uma rara capacidade de traduzir grandes virtudes e vícios da nossa condição humana.

D) Você, particularmente, apontaria um livro como seu, dela, preferido? Que motivos a levaram a optar por este?

Gosto muito dos contos. Seria difícil destacar um ou outro. Mas poderia dizer que "Laços de Família" ocupa um lugar de destaque no campo das minhas preferências. E foi esse o primeiro livro que li de Clarice, na minha juventude. Gosto muito também do romance "A Paixão Segundo GH", que me parece o mais denso, o mais intenso, o mais difícil de ler e o mais sedutor. E há o volumoso "A Descoberta do Mundo", com centenas de crônicas para todos os gostos, em que trata de assuntos vários da nossa vida de cada dia.

E) Que livro de Lispector indicaria para uma pessoa que está se iniciando na literatura dela?

Indicaria "A Descoberta do Mundo", com textos que ela escreveu para o Jornal do Brasil de 1967 a 1973, aos sábados. Na grande maioria, são crônicas, mas há, aí, também contos e mesmo fragmentos, por vezes de apenas quatro linhas… É um livro que pode ser aberto em qualquer página para lá encontrar textos que podem ser lidos, na íntegra, em minutos…

“Como ler Clarice Lispector? Literatura e gênero narrativo” - De 3 a 24 de outubro, no Auditório Nélida Piñon - IDEA Espaço Cultural (Rua Bernardo Guimarães, 1200 – Funcionários).