Após 20 anos proibido  de ter qualquer tipo de exibição devido a embargos judiciais solicitados pela apresentadora Xuxa, o filme “Amor Estranho Amor” poderá finalmente ser visto pelo público na televisão, ao entrar na grade de programação do Canal Brasil (TV paga).

Lançado em 1982, o filme ficou menos conhecido por suas qualidades artísticas do que pelas cenas de nu de Xuxa – na época ainda uma modelo de 18 anos, sugerida para fazer parte do longa-metragem de Walter Hugo Khouri pelo então namorado dela, o ex-jogador Pelé.

Ninguém deu bola para as sequências em que a prostituta vivida pela gaúcha é oferecida a um garoto para tirar a sua virgindade. Só quando o filme começou a circular em VHS, no auge das vendas deste formato, e Xuxa já comandava programas infantis que o caso foi para os tribunais.

“É a peça que faltava para trazer de volta a memória do Khouri e acabar com este estigma  de filme pornográfico da Xuxa. Ele tem uma obra imensa, com 25 títulos, e, quando se falava dele, era sempre ligado ‘ao diretor do filme proibido da Xuxa’”, registra o crítico de cinema Donny Correia.

Especialista na trajetória de Khouri e autor de um livro sobre o cineasta paulista que será lançado em breve, Correia analisa que a proibição só serviu para aumentar o folclore em torno  de que o realizador teria feito uma pornochancada e que o ator mirim foi indevidamente exposto.

“Como  ficou muito tempo sem circular, criou-se todo tipo de história. Trazê-lo de volta é uma questão de respeito com os que estiveram envolvidos com o filme, que é uma obra de arte como qualquer outra, carregado com um erotismo a la Khouri, sem ser utilitário”, salienta.

Na época, a apresentadora alegou que houve uma exploração do sucesso dela pelo produtor Anibal Massaini Neto. Apesar de viver um personagem secundário, Xuxa passou a estampar as capas dos VHS. “O escritório da Xuxa viu que não ficaria bem lançar uma fita com ela na capa com status que tinha”.

Os representantes da apresentadora alegavam que não havia autorização de exibição em outras mídias. “A celeuma foi toda criada por uma série de questões imponderáveis. A principal delas é que Xuxa jamais imaginaria  que se tornaria a rainha dos baixinhos, um ícone das crianças. Por outro lado, quando ela assinou contrato, não havia expectativa de que outras mídias surgissem ao longo dos anos”, avalia.

Correia reproduz uma opinião do ator Marcelo Ribeiro, que interpretou o garoto que faz amor com Xuxa, ao afirmar que atriz e produtor estão igualmente certos e errados. “Como produtor, era lógico que o Anibal iria querer lucrar com aquilo que investiu. Não sei se isso soa como uma atitude  errada”.

Em 2017, o Supremo Tribunal Federal não acolheu as alegações de Xuxa e, no ano seguinte, o filme foi liberado. A importância deste fato está no papel de “Amor Estranho Amor” na carreira de Khouri. “Junto com ‘Eros, o Deus do Amor’, representa o ápice da trajetória dele”.

Ele observa que os longas de Khouri feitos nos anos 70 eram bastante herméticos e experimentais, sem diálogo com o público. No ‘Amor, Estranho Amor’, ele traz temas relevantes para a história do país envelopados com os personagens arquetípicos dele”.