Se a leitura do clássico “Grande Sertão: Veredas” já se revela um desafio no idioma original, traduzi-lo para o inglês constitui uma saga à altura da história vivida por Riobaldo. Não é por acaso que o prazo para a conclusão da tarefa deva exigir cinco anos da tradutora australiana Alison Entrekin. Muito tempo e, ainda assim, só metade dos dez anos que Guimarães Rosa demorou para escrever a obra-prima.

O processo de tradução começou em 2017 e deve terminar em 2021, quando o livro será publicado pelas editoras Jonathan Cape, no Reino Unido, e Alfred A. Knopf, nos EUA. A editora norte-americana, inclusive, também foi responsável pela primeira tradução do livro para o inglês, em 1963, voltada para a história, de forma convencional, sem a riqueza linguística e a preocupação em transmitir o regionalismo como ambientação para a trama.

GUIMARÃES ROSA

Único romance de Guimarães Rosa, "Grande Sertão: Veredas" ganha nova tradução em inglês que deve demorar cinco anos para ser concluída

A própria tradutora havia tentado ler a obra de Guimarães Rosa no início dos anos 2000, pouco após se mudar para o Brasil, e patinou diante da complexidade da estrutura. Pendência que só foi se resolver em 2014. “É preciso passar o período de rebentação, que para cada um ocorre em um momento diferente do livro, mas flui quando relaxamos as expectativas de que tudo vai fazer sentido e pomos para escutar na cabeça. Quando lemos em voz alta, conseguimos pegar coisas que não estão chapadas na página”. 

Em função disso, além de ir atrás de estudiosos de Guimarães Rosa, Alison também recorreu a pessoas mais velhas, familiarizadas com a forma de falar da época. “Fazer consulta com pessoas em Minas Gerais tem sido muito importante também. Deparei-me com muitas palavras que poderiam ser consideradas neologismos, mas são regionais”.

Projeto Conexões

A tradução de “Grande Sertão: Veredas” é a primeira dentro do projeto Conexões, do Itaú Cultural, que promove um mapeamento inédito da presença da literatura brasileira no mundo. Uma das etapas envolve oficinas de Alison Entrekin com tradutores e escritores, onde abordam trechos já traduzidos e traduzem coletivamente outras partes do livro. Essas oficinas já ocorreram no Rio de Janeiro, e em outubro vieram para BH. São Paulo receberá em dezembro.

Complexidade técnica

A dificuldade da incumbência começa já na primeira das cerca de 190 mil palavras do livro de Guimarães Rosa. “Nonada já era uma palavra dicionarizada na época, que significava algo sem importância, mas que pedia o acompanhamento da preposição ‘de’, algo que ele tira”, conta Alison Entrekin, que recorreu a uma composição da negativa “no” com o já em desuso termo “nought”, gerando “nonought”. 

“É um trabalho de recriação, reconstrução da obra de outra língua. Ele faz muitas brincadeiras com a linguagem e eu tenho que me desdobrar para acompanhar em inglês, mas nenhum par de línguas se comporta de forma igual”, diz Alison, que revela tentar compensar o efeito de uma frase na seguinte.

ALISON ENTREKIN

"Não vai ficando fácil com o tempo, você não vai pegando ritmo como em outras obras. É novidade sempre, do começo ao fim", relata Alison Entrekin 

Com adaptações de livros de Chico Buarque, Clarice Lispector, Paulo Lins e Cristovão Tezza no currículo, Alison explica que, diferentemente dos trabalhos anteriores, a transformação do universo de Guimarães Rosa para o inglês não progride naturalmente. “Não vai ficando fácil com o tempo, você não vai pegando ritmo como em outras obras. É novidade sempre, do começo ao fim”. Os famosos neologismos não são o maior desafio, no entendimento da tradutora australiana.

“De fato é difícil criar neologismos em inglês que atendam a todos os requisitos do original, porque às vezes ele (Guimarães Rosa) cria palavras que terão ecos mais pra frente, que vão aparecer de modo diferente, desmembradas em outras, aliterações, repetição de sílabas. Mas o mais difícil é lidar com a sintaxe dele, que é totalmente fora do padrão. As palavras vêm em uma ordem inusitada na frase, fora do contexto comum”.

Referências em inglês

Ao ser perguntada sobre um paralelo existente à criação de Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas” no idioma nativo, Alison Entrekin lembrou alguns nomes da literatura em língua inglesa que também podem oferecer dor de cabeça para a tradução. Entre as referências, o escritor irlandês James Joyce, conhecido principalmente por “Ulisses”, é o mais comumente associado ao autor mineiro, pela capacidade de criar e estabelecer ligações dentro da língua. Alison cita Shakespeare por ter criado inúmeras palavras, mas numa época em que a língua não era tão fixa e permitia maior incorporação de novos termos. 

Lewis Carroll também é lembrado por neologismos e por dar novos significados a palavras existentes, mas, de acordo com a tradutora, o mais próximo das técnicas de Guimarães Rosa, pela maneira como brinca com a linguagem e aglutina palavras, é o galês Dylan Thomas, em uma peça escrita originalmente para o rádio, “Under Milk Wood”.