De BH para o mundo: casal celebra 10 anos da Casa Nômade e compartilha aprendizado do pé na estrada
Mais de 80 países visitados, uma casa de 10 m² sobre rodas e muitas histórias de descobertas, desapego e reinvenção

Dez anos, mais de 80 países e uma casa de apenas 10 m² sobre rodas. A Casa Nômade, projeto dos jornalistas mineiros Glória Tupinambás e Renato Weil, celebra uma década de pé na estrada em 2025. Entre descobertas, desapego e reinvenção, o casal transformou a vida sem residência fixa em uma forma de trabalho e identidade, acumulando histórias que vão de paisagens deslumbrantes no Círculo Polar Ártico a situações de risco em regiões de conflito na América Central. Agora, a meta é desacelerar: curtir mais e postar menos.
Criada em 2015, a Casa Nômade nasceu da vontade de Glória e Renato de transformar viagens em um estilo de vida. De lá pra cá, o motorhome se tornou residência e escritório, onde produzem reportagens, mostrando fotos e vídeos do mundo.
A semente veio antes, num período sabático em 2012, quando testaram um veículo alugado na Austrália. Renato olhou e cravou: “Isso aqui é a fórmula, a gente não paga hotel, não precisa de carro alugado, leva a casa com cozinha e banheiro”. Voltaram ao Brasil com a ideia, escreveram o livro “O Mundo em Minas” e, ao lançá-lo, decidiram seguir o plano.
Descoberta e desapego
Ao olhar para trás, a jornalista resume a trajetória em uma palavra que guia cada parada da Casa Nômade: descoberta. “Todo dia é uma descoberta de paisagem, de pessoas, de lugares”, conta Glória. A ausência de rotina também é escolha. Atualmente, estão na Bósnia e Herzegovina, amanhecem em uma cidade, passam o dia em outra e seguem rumo à próxima. Sem saber onde vão estacionar ou fazer o mercado, eles mostram que até o cotidiano é uma aventura.
Além de viver em movimento, o casal aprendeu a carregar apenas o essencial. A cada novo destino, roupas e equipamentos foram sendo reavaliados. “A gente teve que desapegar da casa, do guarda-roupa, do trabalho e da família para poder viver no motorhome”, diz Glória. O veículo conta com banho com água quente, fogão com forno, mesa para duas pessoas, tanque de 500L e painel solar. "É autossustentável”, reforçam.
Desde 2015 é a mesma casa. Na traseira do motorhome estão as bandeiras dos países que já passaram e o maior chamariz: a do Brasil. “Vocês vieram do Brasil? Venham comer no meu restaurante”, contam. O saldo? “A gente conhece muita gente bacana na estrada… Porta aberta porque ser brasileiro abre muita porta: futebol, música, afeto”.
Reinventar-se na estrada
A vida nômade mudou também o trabalho. “Eu sempre fui do texto… Não imaginei que hoje meu trabalho ia ser falar numa rádio e alimentar uma rede social”, conta Glória. Fotógrafo, Renato intensificou o olhar documental. A casa virou estúdio, refúgio quando bate saudade da cozinha mineira e abrigo para noites de sono surpreendentemente silenciosas - o motorhome possui isolamento térmico e acústico.
Em 2025, escolheram uma palavra-guia: desacelerar. No início, havia ansiedade de ver tudo; hoje, ficam mais tempo em cada lugar. A diferença não é o número, é a cadência: “Nosso olhar hoje é muito mais contemplativo… Deixar o celular de lado e viver a paisagem”, analisa Renato.
Histórias que marcam
Nem tudo é cartão-postal. Em 2018, a Nicarágua entrou em guerra quando eles subiam a América Central. O país fechou todas as estradas e “chegou a ter mais de 400 mortos”. Eles ficaram 50 dias na Costa Rica até decidirem seguir em “comboio” com franceses e argentinos - apesar de o consulado brasileiro não ter recomendado.
No caminho, barricadas com pneus em chamas, armas apontadas para a cabeça em três momentos e um plano de contingência improvável: costurar dinheiro e cartão de crédito por dentro da calça. “Não fomos sequestrados, não levamos tiro, mas você nunca mais esquece”, relata Glória.
Na Escócia, o vento “arrancou” a porta traseira do motorhome e os mandou para fora. Resultado: joelho torcido, viagem parada e algumas das noites mais bonitas sob um céu super estrelado. O errado dá certo.
Olhando para frente
Depois de uma década na estrada, o casal planeja novos capítulos. O roteiro imediato inclui os Bálcãs - Bósnia, Montenegro, Albânia, Croácia, Macedônia do Norte - e o retorno ao Brasil em outubro, antes de voltar para a Europa após o Carnaval. “Nosso plano é desacelerar um pouco em 2025. A gente quer continuar viajando, mas de uma forma mais calma, aproveitando melhor cada lugar”, adianta Glória.
Bate-pronto com Glória e Renato, da Casa Nômade
Três destinos que todo mundo deveria conhecer?
"Alasca, Noruega e Brasil".
Um perrengue que virou aprendizado?
"A pandemia ensinou que a gente não tem controle de nada: foram 2 anos e meio no Brasil e o motorhome preso nos EUA; livro e exposição atrasaram".
Agência de viagens ou tudo por conta própria?
"Tudo por conta própria. E com método: planejar e alinhar expectativas… Vá para lugares que conversam com você. Por exemplo: se é cultura, Europa; se é natureza bruta, África do Sul e Namíbia; se é compras e restaurantes, EUA".
O que não pode faltar na mala do viajante nômade?
"Bota de caminhada e roupa em camadas (‘efeito cebola’). Mala de mão (até 10 kg). E se for despachar, que seja uma mala que você consiga carregar".
Maior vantagem de viver na estrada?
"Conhecer pessoas e a falta de rotina".
Maior desafio?
"Saudade da família e dos amigos” - no caso de Glória, a saudade da sobrinha de 9 anos
Uma dica prática para quem sonha em começar?
"Planeje: poupança, prioridades, roteiros. Teste o estilo de vida e, depois, execute".
Próximo destino dos sonhos?
"Japão e os ‘istões’: Cazaquistão, Turcomenistão, etc... É plano, não sonho inatingível"
*Estagiária, sob supervisão do editor Renato Fonseca
VEJA FOTOS