Diretor Dellani Lima é a cara do cinema "fora do eixo"

Paulo Henrique Silva - Hoje em Dia
Publicado em 20/02/2013 às 10:05.Atualizado em 21/11/2021 às 01:10.
 (Samuel Costa)
(Samuel Costa)

Dellani Lima está na contramão. Esteticamente, o diretor paraibano, radicado em Belo Horizonte há 15 anos, sempre caminhou em sentido contrário – pelo menos em relação aos filmes clássicos, entrosando-se com a turma mineira da videoarte.
 
Aos 38 anos, um dos expoentes do "cinema de garagem", título do livro que escreveu em 2011 ao lado de Marcelo Ikeda, se diz cada vez mais atraído pelo desejo de estar à frente das câmeras.

O que começou com um trabalho performático em vídeos para sua banda (a Madame Rrose Sélavy) pode fazer de Dellani o rosto preferido do grupo mais independente do cinema brasileiro – aquilo que a Mostra de Tiradentes definiu, no mês passado, de "fora do eixo".

Muitos convites

Não por acaso, foi no festival mineiro que o agora ator consolidou-se na nova atividade: sua atuação no longa-metragem "Linz – Quando Todos os Acidentes Acontecem" foi muito elogiada por crítica e público.

E o mais importante: aplausos também dos diretores presentes na Mostra. "Recebi mais de dez convites para atuar em longas e curtas. Estou estudando as propostas", avisa.

Dellani não precisou sair da cidade histórica para começar um novo trabalho. Filmou por três dias, sob direção do paraibano Taciano Valério ("Ferrolho"), juntamente com Jean-Claude Bernardet, um dos mais importantes teóricos de cinema do país.

"É sobre uma trupe de atores que fará jornada pelo sertão. Eu faço um ator, o único a saber do que o roteiro se trata, e os demais imaginam que sou um produtor infiltrado. É um filme sobre o cinema independente contemporâneo", adianta.

Corpo

A primeira investida de Dellani como ator de cinema foi em "Os Residentes", longa do mineiro Tiago Mata Machado lançado em 2011, ganhador do prêmio de melhor direção do Festival de Brasília daquele ano.

Ele interpreta Dimas, um artista que, ao lado de outros hóspedes, ocupa uma casa abandonada e evidencia um estilo de vida particular que se alastrará por toda cidade. "Era um personagem grande, que narrava o filme, mas, no final acabou virando outra coisa", afirma.

Dellani não desgosta do resultado. Muito pelo contrário. Segundo ele, o personagem ficou mais silencioso, aproximando do estilo quase minimalista de "Linz", dirigido por Alexandre Veras.

"Prefiro os que exigem mais do trabalho do corpo. No cinema, muitas vezes a força do gesto vale mais do que a palavra", registra. Veras criou o papel do caminhoneiro que tenta entregar móveis num endereço que não existe mais especialmente para Dellani. "Tem muito da minha pessoa no personagem. Ao mesmo tempo que carrega uma agressividade, tem um lado poético, suave".

Diretor quer seguir trabalhando com cinema autoral

Dellani Lima espera continuar recebendo propostas que busquem uma chave semelhante ao trabalho feito em "Linz". Para ele, é uma forma de não sair de uma seara que ele conhece muito bem: o cinema autoral.

Até o momento, os personagens seguem esse desejo. No ano passado, ele participou do longa "Faroeste", de Abelardo de Carvalho, filmado em Pains. "Faço o Juca, que narra a história de seu parceiro, Luis Garcia, temível assassino da região", destaca.

"Ele também comete os crimes, mas é um pouco mais justo e menos agressivo. É sua admiração por Luis Garcia que torna a situação de certa forma mais poética e sensível", revela. O filme tem previsão de estreia para o segundo semestre.

Autoconhecimento

Com o trabalho à frente das câmeras, Dellani salienta que está se descobrindo como ser humano. "É que tenho feito exercícios ligados às culturas indianas, desde meditação à ioga. Também faço bioenergética. Assim você trabalha simultaneamente o corpo e o autoconhecimento".

Além dos longas, ele engrossou o elenco de três curtas: "Rede de Vagos", de Simone Cortezão, "Sandra Espera", de Leonardo Amaral, e uma mistura de animação com atores assinada por Leonardo Cata Preta.

Dellani não abandonou a direção e está rodando seu sétimo longa, "Rock de Subúrbio", sobre garota de periferia que tenta montar banda de rock para se apresentar em festival. "Reflete um pouco da minha trajetória como músico e faz parte de uma trilogia sobre o capitalismo. Achamos que se restringe ao mundo financeiro, mas resume também a falta de solidariedade e o distanciamento".

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