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Resistentes ao tempo, profissionais lutam pelo livro em um mundo de telas

César Augusto Alves - Hoje em Dia
Publicado em 20/01/2016 às 07:11.Atualizado em 16/11/2021 às 01:05.

Imagine a seguinte situação: ao procurar por um exemplar da obra “Caderno de Poesias” (Ed. UFMG, 2015) em uma grande rede de livrarias, um vendedor dispara a desconcertante pergunta: “É nacional?”. O livro em questão foi lançado recentemente por uma das principais cantoras do país: Maria Bethânia - que tem, como marca registrada, o hábito de intercalar poesia e música em suas apresentações. Casos como esse expõem uma frágil estrutura do mercado editorial, hoje dominado pela internet e grandes lojas, e mostram o incerto futuro do ofício do livreiro profissional.

Enfrentando esse movimento, Belo Horizonte se estabelece hoje em primeiro lugar, no Brasil, no ranking de número de livrarias por habitante: são 13.848 belo-horizontinos por estabelecimento. A média recomendada pela Unesco é de uma livraria a cada dez mil habitantes. Resistente ao tempo, a Livraria Van Damme, no centro da capital, está no mercado há cinco décadas com um personagem já famoso no comando: Johan Van Damme, um senhor belga que chegou por aqui há 51 anos.

Van Damme é conhecido pelo número impressionante – já leu mais de 4.000 livros – e pela estante que ostenta na livraria com 90 indicações, um dos pontos de atração que cativa os mais de 12 mil clientes. “Leio em média cem páginas por dia, dois livros por semana. Para ser livreiro, tem que gostar de ler”, afirma.

A paixão surgiu da primeira profissão, pouco tempo depois de chegar ao Brasil: vendia assinaturas de revistas estrangeiras. “No início não gostava de ler, a demanda me fez ser livreiro”, diz Van Damme, que acredita não existir um ponto final para a profissão. “Não creio que o livreiro esteja em extinção. É apenas uma fase de transição. Se a pessoa gosta de ler e tem uma clientela atenta ao que você lê, mantemos um trânsito muito bom como livreiro”.

Aos novos profissionais, garante, a paixão é fundamental. “Sugiro que a pessoa seja balconista de livraria por um ano. Ver se é gratificante ou maçante. Só aí deve decidir”. Com seu jeito tímido e acolhedor, aos poucos nos leva ao seu universo e desperta ainda mais o desejo de “devorar” novos títulos. “Isso aqui me dá vida. As pessoas se aposentam pra fazer o que gostam. Eu já faço o que gosto”.

 

Leitor voraz, o livreiro Van Damme embarca em cada história

O livreiro Van Damme e sua estante de sugestões (Foto: Lucas Prates/Hoje em Dia)

 

Lei do Preço Fixo afasta crise

O livro eletrônico, apontado por muitos como o grande vilão das livrarias, passa longe de ser o pesadelo dos livreiros. Pelo contrário, veio para não ficar. “Nunca me preocupei com eles. As pessoas acham impessoal”, diz Álvaro Gentil, da livraria Asa de Papel, localizada no Santa Efigênia. O discurso dele é uníssono ao de outros profissionais do ramo ouvidos pelo Hoje em Dia. Para eles, não passou de uma fase já superada pelo mercado consumidor.

A maior dificuldade encontrada – além da concorrência com as grandes redes de livrarias – é a venda de livros pela internet. “Isso é algo que ainda me tira o sono”, relata Alencar Perdigão, proprietário da livraria Quixote, na Savassi. “As editoras vendem diretamente para o cliente, com preço melhor do que para o livreiro. A prática tem que acabar”, desabafa.

Uma das soluções seria a aprovação da Lei do Preço Fixo – que já existe em países como a França. Com a aprovação da lei, o mercado trabalharia com valores uniformes. Alencar, que também assume a vice-presidência da Câmara Mineira do Livro, luta pela aprovação.

Quanto ao fim da profissão, se Van Damme acredita que não chegará a este ponto, Perdigão acha possível. “Hoje, para sobreviver, uma livraria tem que ser também um café, algo além. A profissão do livreiro mudou”. Já Álvaro, que atua no ramo há 21 anos, acredita que, ainda que tenha um público pequeno, ele vai sempre existir. “É possível que beire a extinção. Vai minguar, mas o público se renova. Minha esperança é essa”, afirma.

 

Álvaro, proprietário da

Álvaro Gentil da livraria Asa de Papel (Foto: Lucas Prates/Hoje em Dia)

 

Número de leitores cresce continuamente

Os bons números de Belo Horizonte são sentidos pelos profissionais, que apontam existir um grande público leitor na capital. “É a cidade que mais lê”, garante Van Damme. Para Perdigão, o livreiro é, ainda, um grande incentivador da leitura. “A opinião do livreiro vende muito, atrai os belo-horizontinos”, diz.

De acordo com os entrevistados, a quantidade de leitores na capital é expressiva, e continua a crescer. Motivações à parte, o que importa, de fato, é o interesse pelo livro. “O interesse cresceu, mas massificou”, conta Álvaro. “Temos hoje uma literatura muito comercial, instantânea. Ela gera o objeto livro, gera interesse em livro. Com um pouquinho de otimismo, a gente espera que esses leitores possam um dia evoluir para uma literatura mais classificada”, destaca Alencar.

 

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