
Médicos de pelo menos 60 países tratam pacientes com ceratocone – doença ocular progressiva – com o Anel de Ferrara, um implante de segmentos de acrílico (PMMA). A inovadora técnica foi criada pelo oftalmologista Paulo Ferrara de Almeida Cunha, nascido em Belo Horizonte e formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O procedimento evitou que milhares de pessoas ao redor do mundo precisassem se submeter a transplantes de córnea.
Neste ano, Paulo Ferrara está à frente de um departamento especializado em ceratocone no Hospital de Olhos Hilton Rocha, na capital. A nova seção terá como foco o tratamento de casos graves e de pacientes com resultados insatisfatórios após procedimentos anteriores.
Em entrevista ao Hoje em Dia, Ferrara relembrou a trajetória profissional e a criação do anel intracorneano, além de avaliar a fila de espera para o transplante de córnea e criticar a baixa qualidade da formação médica atual no Brasil.
Como surgiu a concepção do Anel de Ferrara?
Fiz residência no Hospital São Geraldo, no serviço do professor Hilton Rocha, em 1974 e 1975. Permaneci no hospital como assistente do professor Emir Soares, que era o chefe do departamento de lente de contato. Foi ele quem me possibilitou dar asas à imaginação, porque sempre foi um pesquisador. Encontrei nele um mentor e um exemplo de dedicação e profissionalismo. Gosto muito de pesquisa e de investigação científica. Fiz minha tese de doutorado, e a tese foi justamente sobre lente de contato em ceratocone. Portanto, ceratocone é minha praia desde então. A lente de contato é um bom recurso para atender pacientes portadores dessa deformidade, mas, infelizmente, não atende a todos, devido ao aumento da sensibilidade, intolerância e pelas comorbidades que acompanham a doença. Então, desde cedo, me dediquei à pesquisa de correções refrativas na córnea. As primeiras cirurgias eram de ceratotomia radial, que tinham por objetivo corrigir a miopia. Eu abracei essa técnica desde o primeiro momento, lá em 1983, mas observei que dela advinham complicações, e que era uma técnica limitada. Daí, comecei a desenvolver algumas ideias, que consistiam em implantes de lentículos (finas lentes de tecido corneano) dentro da córnea. Eu via essa como uma alternativa muito viável. Havia um autor inglês, Peter Joyce, que desenvolveu lentes de polissulfona (um termoplástico) para corrigir altas miopias. Eu me entusiasmei por esse procedimento, mas logo vi que tinha limitações, porque a córnea é avascular (sem vasos). Mas eu continuei com a ideia de fazer furinhos na lente, e fiz tantos furinhos que eles confluíram e virou, então, um anelzinho.
Quando o Anel de Ferrara ganhou espaço na medicina?
Em 2003, foi quando os Anéis de Ferrara começaram a ganhar espaço. Em 2005, recebemos a aprovação do Conselho Federal de Medicina (CFM). Desde então, tem sido aplicado para a correção do ceratocone. O ceratocone é uma doença do jovem, uma doença progressiva que pode levar à cegueira, e para a qual o recurso até então eram os transplantes. O anel veio como uma ajuda fundamental e transcendental para que esses pacientes pudessem voltar às suas atividades. É uma técnica muito fácil de fazer - fácil, entre aspas. É uma técnica simples, mas que requer expertise e treinamento. Ela consegue reabilitar pacientes intolerantes às lentes ou com cones muito avançados que, de outra forma, não poderiam realizar suas atividades. A partir de 2005 em diante, os anéis foram ganhando muita força e grande aceitação. Tive a oportunidade de viajar o mundo inteiro divulgando e ensinando a técnica. Fiz uma parceria com um laboratório na Espanha e eles me facilitaram a fazer essa divulgação internacional.
Antes da criação do Anel, o único tratamento para ceratocone era o transplante de córnea. O senhor teve alguma dificuldade para que a comunidade científica aceitasse o então inédito procedimento?
Com certeza, isso aí foi uma quebra de paradigma. Quando a gente quebra um paradigma, passamos por três etapas. Primeiro, a de ridicularização. As pessoas o chamam de ‘doido’, riem de você. Havia um doido. Eu me lembro, havia o ‘doido Ferraro’. Depois, eles passam para a fase de rejeição. E, por fim, a aceitação. A aceitação é a terceira fase: “Como é que eu não pensei nisso?”. Mas quando a pessoa percebe que vai do ridículo para a percepção da realidade, ela se revolta, né? E depois aceita: “como é que não fui eu que pensei nisso antes?” Quem fala é Schopenhauer (filósofo alemão Arthur Schopenhauer), não sou eu. São as três fases do invento.
Qual a diferença do primeiro protótipo que o senhor criou para o Anel de Ferrara atual?
A concepção básica não mudou. O que mudou foi o desenho, a forma, o tamanho, a indicação e as combinações possíveis. Antigamente, implantava-se um anel só. Hoje você pode implantar diversos tipos de segmento no mesmo olho. Isso torna a cirurgia mais previsível, que era uma das críticas dos antagonistas da técnica. Antes, a técnica era feita com espátula para abrir espaço na córnea, depois passou a ser feita com bisturi de ceratomo, e depois com a técnica de tunelização (técnica cirúrgica minimamente invasiva), que, por acaso, foi a que inventei. Em seguida, surgiu o Femto II, o laser que democratizou a utilização dos anéis, pois aumentou a facilidade da execução, possibilitando que cirurgiões com menos destreza realizassem a técnica.
Como o senhor avalia a atual fila de espera para o transplante de córnea?
Veja bem, o ceratocone era responsável por 30% de todas as doações que eram feitas. Hoje, talvez 10%. O tratamento reduziu significativamente o tamanho da fila. O que é mais importante no Anel não é o procedimento em si, mas a rapidez da recuperação. O paciente volta às atividades em um mês. O transplante leva seis meses a um ano. E há a preocupação com a rejeição, incluindo o uso de colírios depois de operar. Do ponto de vista financeiro e econômico, um paciente de transplante demanda retornos de 15 dias, um mês, dois meses e assim por diante. Isso ocupa o espaço de outros pacientes. O anel funciona da seguinte forma: faz a cirurgia e o paciente volta com um mês, depois com três, e então a cada seis meses. O paciente que volta para o controle está sujeito a novas intervenções focadas. Por exemplo, tratou o ceratocone, mas está com miopia. Vamos tratar a miopia. Há várias maneiras de tratar essa miopia residual.
Como você avalia a atual formação médica do Brasil e o que um jovem médico que quer seguir carreira na oftalmologia precisa ter em mente?
Primeiro, é escolher a escola onde ele vai entrar. Agora o governo tomou certas providências no sentido de instituir um board, que é uma prova ao término, como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Você tem que passar pelo exame para saber se está capacitado. Isso é muito bom, porque já exclui um montão de maus profissionais ou de profissionais mal formados. Na verdade, reduz o número de escolas de medicina também, que se valem disso para ganhar uma fortuna. Para montar uma estrutura dessa, é preciso muito, muito dinheiro. Agora, qualquer um abre a portinha ali, põe as cadeirinhas e vira uma escola de medicina. Escola de medicina é isso aqui (Hospital Hilton Rocha). Você tem alunos, uma infraestrutura de instrumentos, estrutura física e de pessoal... Você tem que formar profissionais bem capacitados.
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