Segundo ator de maior público dos Estados Unidos, Eddie Murphy foi indicado ao Oscar em 1987 por “Dreamgirls”, mas não levou a cobiçada estatueta. Ele reclamou que a premiação não era dada a atores negros. Não é verdade. O primeiro negro a ganhar um Oscar foi uma mulher: Hattie McDaniel, como atriz coadjuvante num filme de 1939 (E o Vento Levou...).

Dez anos depois, Sidney Poitier começou a trabalhar no cinema e só demorou 14 anos para se tornar o primeiro negro a ganhar o Oscar de melhor ator principal por sua atuação em “Uma Voz nas Sombras”. Entre 2002 e 2007, outros três conquistaram esse prêmio.

Mas foram necessários 51 anos, depois de Poitier, para que o primeiro diretor negro de cinema, o britânico Steve McQueen, recebesse, há dois dias, um Oscar de melhor filme, com “Doze anos de escravidão”, dedicando-o “a todos os que sofreram com a escravidão e que sofrem ainda hoje”. Esse filme conta a história de um escravo negro de meados do século 19 nos Estados Unidos, e propiciou a Lupita Nyong’o outro Oscar, o de atriz coadjuvante.

São importantes essas premiações de negros em Hollywood, numa festa transmitida ao vivo por televisões em todo o mundo. A emissora brasileira que detém os direitos de transmissão em canal aberto não fez, neste ano, a apresentação ao vivo, para não interferir na sua cobertura do Carnaval. Nos EUA, teve transmissão pela internet.

A divulgação dessas conquistas dos negros num setor cultural muito popular, o cinema, pode ajudar na sua antiga luta por igualdade racial com os brancos – uma questão ainda não resolvida no mercado de trabalho do Brasil e em muitos outros países. A própria história do melhor filme deste ano é um testemunho de superação das dificuldades enfrentadas pelo violonista Solomon Northup, um negro livre que vivia em Nova York com mulher e dois filhos. Em 1841, foi sequestrado e escravizado para trabalhar, durante 12 anos, em lavouras de cana-de-açúcar e algodão, num Estado sulino.

Quando finalmente reconquistou a liberdade, Solomon contou sua história a David Wilson, que a editou em 1853. O livro vendeu 30 mil cópias, um best-seller para a época. Um ano antes, havia sido publicado “A Cabana do Pai Tomás”, que continua muito vendido até hoje.

Foi contemporâneo de Solomon um escravo brasileiro, Luiz Gama, filho natural de uma africana livre e de um fidalgo branco que não hesitou a vender o filho. Aos 10 anos, Luiz foi levado como escravo a São Paulo, onde viveu até morrer em 1882, aos 52 anos. Aprendeu a ler com um amigo, estudou Direito sem nunca ter entrado numa escola e se tornou um dos maiores advogados do Brasil. Ele libertou mais de 500 escravos. Rubens Ricupero contou, na segunda-feira (3), essa história no seu artigo semanal do Hoje em Dia.

Que belo filme daria esse negro, nas mãos de Steve McQueen!