A campanha brasileira para fazer do Rio de Janeiro a sede da Olimpíada de 2016 era baseada no ineditismo, já que a América do Sul nunca sediou a competição, mas principalmente no momento econômico altamente positivo que o país atravessava. Era mais uma demonstração de força e poder. Isso fez com que a capital carioca superasse Tóquio, Chicago – terra de Barack Obama, com o presidente como cabo eleitoral –, e Madrid. A exatos 150 dias da abertura, a euforia deu lugar à incerteza sobre o que se passará na Cidade Maravilhosa.

Na economia, o cenário brasileiro é muito diferente do que era experimentado quando o Rio se candidatou e venceu a votação do COI.

“Quando o Brasil recebeu o direito de sediar a Olimpíada, embora tivesse uma crise em 2008 e recuperação em 2009, o país respirava um vigor econômico. As taxas eram significativas. A crise externa nos atingiu, mas recuperamos rápido. O Brasil era sim um possível local muito apropriado. A renda per capita estava aumentando e o mercado consumidor crescendo”, revela Márcio Salvato, coordenador do curso de economia do Ibmec.

Mas ele destaca que o cenário não demorou a sofrer uma alteração, que veio com a eleição de Dilma Rousseff.

“A realidade foi mudando. Logo depois de 2010, a gente percebeu que a recuperação da crise não seria tão rápida. No primeiro governo da Dilma, ela mudou a política econômica, perdemos taxas de crescimento. A partir de 2014, os erros levaram à deterioração das contas públicas, aumento da inflação. E hoje, o cenário é muito ruim. Não crescemos em 2014, o PIB caiu 3,8% em 2015 e a projeção é que este ano caia pelo menos 1,5% até junho”, analisa Salvato.

E a crise já afeta a reta final de preparação do Rio. Na semana passada foi anunciado um corte de quase R$ 1 bilhão no orçamento dos Jogos. O balanço de venda de ingressos revelou que nem a metade tinha sido vendida.

RENÚNCIA

E a tendência é que este seja o cenário em que serão disputados os Jogos, segundo o cientista político Adriano Gianturco. “Não vejo saída a curto prazo para a crise econômica e política. A única seria a renúncia. Mesmo o impeachment, o tempo é muito longo. Do ponto de vista pessoal dela, acho difícil. Dependendo da situação da Lava Jato, da pressão política, não acho impossível”, analisa Gianturco.

PROTESTOS

Uma marca principalmente da Copa das Confederações, em 2013, mas que esteve presente também no Mundial de 2014, principalmente no Rio de Janeiro, foram as manifestações.

Gianturco afirma que naquela época haviam sinais de que isso aconteceria, mas agora não, embora ele não possa afirmar que os protestos não acontecerão.

De toda forma, com o atraso nas obras e as crises política e econômica, a imagem brasileira que irá para o mundo será bem diferente daquela da Copa.

“As questões serão colocados mais patentes para o público externo. O mundo tinha uma foto do Brasil do presidente que veio do povo. Agora terão outra visão, de um país que não consegue cumprir projetos, propostas. Será uma cortina de informações ruim. Na Copa, a gente temia a repetição das manifestações de 2013, mas a economia não estava tão mal. Logo depois, a coisa piorou bastante”, garante Márcio Salvato.

Está aberta a contagem regressiva. A cerimônia de abertura de 5 de agosto é um segredo. A única certeza é que assim como aconteceu com Lula, no Pan de 2007, e com Dilma, nas Copas de 2013 e 2014, o Maracanã deve ser mais uma vez palco de vaias presidenciais.

OLHO: “Economia, política e zika formam um cenário ruim, mas o impacto dos Jogos é bem menor que o da Copa, pois praticamente envolve uma cidade” (Adriano Gianturco - cientista político)