Batalhar incansavelmente pela realização do grande sonho de atuar como executivo na elite do futebol brasileiro fez Alexandre Mattos ir de aposta do América há 14 anos, com a missão de contornar um clube em turbulência, ao status de melhor diretor do país na atualidade. Apesar de rechaçar o rótulo, o belo-horizontino de 42 anos sabe da força que adquiriu no mercado da bola.

Aprendiz do falecido Eduardo Maluf, a quem dedica toda inspiração para chegar ao topo da função no país do futebol, Mattos traz no currículo quatro títulos do Brasileirão, sendo dois pelo Cruzeiro (2013-14) e dois pelo Palmeiras (2015-18) e a Copa do Brasil também pelo alviverde paulista.
Nesta entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, “Mittos”, como ficou conhecido entre os cruzeirenses, relembra o início do América e a passagem brilhante pelo Cruzeiro, comenta a força do Palmeiras no mercado, graças aos resultados que a equipe tem tido dentro das quatro linhas, e fala da boa ligação que tem com o Atlético, rival nos tempos em que trabalhou em Minas Gerais, e um dos grandes parceiros de momento.

Você chegou ao América em 2005 e lá ficou até 2011. Qual a importância desta experiência para ser o Alexandre Mattos de hoje?

O começo de tudo. Sem dúvida alguma o América foi o início da minha carreira profissional e foi o clube onde conheci grandes amigos que respeito muito e até hoje tenho contato com muitos deles. Foi o pilar de tudo. O time vivia um momento de extrema dificuldade. Trabalhei em vários setores intensamente, pegando uma experiência global no futebol. A palavra é gratidão. É um clube pelo qual nutro grande carinho.

Alexandre Mattos e Rodriguinho América

A sua chegada ao Cruzeiro, em 2012, para substituir Dimas Fonseca. Qual o tamanho daquele desafio para você naquele momento? Chegou a temer insucesso no clube?

Eu tinha muita confiança e muita fé no meu trabalho. Por isso fui. Mas existiam algumas pessoas no futebol, que prefiro não citar nomes, que me indicaram não ir. O Cruzeiro vinha do encerramento de uma Era, que Zezé e o Alvimar tinham saído. Depois de muitos anos, o clube tinha grandes dificuldades financeiras. Teve um atraso salarial nos primeiros meses de mandato do Gilvan, coisa que não acontecia há 20 anos, além de dificulda des técnicas. Era um desafio grande, do tamanho do Cruzeiro, que é um clube gigante. Eu vi ali uma]oportunidade, mesmo sabendo que seria bastante difícil e que precisaria de muita alma e de muito coração naquele projeto. Mas as coisas caminharam bem e dei sorte de ter pessoas que fizeram uma equipe de trabalho maravilhosa.

Em 2013 e 2014 você, de fato, começou a ser visto no país com o bicampeonato no Brasileirão e o vice na Copa do Brasil. Qual a principal lembrança que você tem daquele momento? Qual o seu principal trunfo na montagem daquele time?
Acho que a equipe de trabalho foi o maior trunfo. No Brasil, temos a mania de apontar o dedo, ou para quem é culpado, ou para quem é a grande estrela da companhia. Mas o futebol na verdade é feito por um conjunto que precisa trabalhar em prol de um único objetivo, que é a vitória e, consequentemente, os títulos. Ter uma equipe que foi junto comigo, sem nenhum tipo de vaidade ou ego, foi o grande trunfo. Elenco e comissão técnica também participaram, criando uma unidade muito forte lá dentro, e isso é o que foi preponderante para que o Cruzeiro conseguisse aqueles títulos.

A partir daquele momento, você começou a ser apontado como o melhor diretor de futebol do país. Como estava a sua cabeça ali com estes elogios?

Exatamente da mesma maneira de agora. Não sou melhor que ninguém, não me acho melhor que ninguém. Apenas faço o meu trabalho da minha forma. Tenho as minhas características, sou um cara intenso, que veste a camisa absolutamente por completo, seja onde eu estiver. E, acima de tudo, faço tudo com muito amor. Isso me ajuda muito. Era um sonho e eu trabalhei muito para realizá-lo. O grande segredo é saber que você tem muito o que aprender ainda, sempre com muita humildade.

Apesar de ter trabalhado por duas temporadas no Cruzeiro, a sua relação com o Atlético tem sido muito boa, com trocas de jogadores. Como começou esta ligação?

Sou de Belo Horizonte e já conhecia as pessoas que estão em América, Atlético e Cruzeiro fora do futebol. Eu sempre defendi e defendo o clube onde estou. Exijo respeito e, se for preciso, brigo por isso. Porém, para termos respeito, é preciso respeitar. Nunca fui desrespeitoso com ninguém e sempre tratei com o máximo de nível profissional. Na minha época de Cruzeiro, o diretor do Atlético era o Eduardo Maluf, e foi em quem eu me espelhei para ser diretor de futebol. Ele sempre foi o meu espelho. Sempre me dei bem com o Alexandre Kalil também. No América já tinha pegado alguns jogador<CW19>es emprestados do Atlético, como o Marcos Rocha. Atualmente, o presidente (Sette Câmara) é um amigo que tenho fora da bola. Conheço o Sérgio há muitos anos e não tenho nenhum tipo de restrição a nada. Tenho muito respeito ao Atlético, que é um clube grandioso na história nacional e internacional, então não tenho motivos para ter algum tipo de guerrilha, digamos assim. Todos sabem a identificação que tenho com o Cruzeiro, por tudo que vencemos juntos, mas tenho um respeito muito grande por todos os rivais.

Alexandre Mattos Cruzeiro


Há um tempo, foi dito que você foi procurado para assumir o lugar de Eduardo Maluf no alvinegro. É verdade? 

Não, em nenhum momento.

O Sérgio Sette Câmara, que você disse ser seu amigo, disse em entrevista que é praticamente impossível competir no mercado com o Palmeiras, porque o Alexandre Mattos sempre está um passo a frente. Como você encara este cenário das transações? Leva mesmo vantagem pelo orçamento recheado do Palmeiras?

Não, porque isso não tem relação com o dinheiro. Isso aí só é uma característica de trabalho mesmo, desde os tempos do América. Lembro que a gente disputou um jogador com o Botafogo, estando na Série C e eles na Série A. Conseguimos porque, anteriormente, já tínhamos um pré-acordo com o atleta. No Cruzeiro, mesmo sem recursos financeiros valiosos, conseguimos muita coisa também. Buscava sempre antes os jogadores. Me lembro quando o Marlone apareceu bem no mercado, fomos lá e contratamos; assim como o Lucca, no Criciúma. Estávamos sempre antecipando ao mercado. No Palmeiras é a mesma coisa. Sobre o orçamento alto, o Palmeiras tem grandes problemas, assim como os outros clubes. Não temos um poço de petróleo que fazemos o que quiser, muito pelo contrário. O que o Palmeiras faz na verdade é vender a sua estrutura, as suas ambições e seus projetos. As pessoas têm que confiar nisso e entender que o que queremos é sempre ter o protagonismo. Vencer, vence um, mas você ser protagonista é bastante importante, assim como fazíamos na época do Cruzeiro. 

O Atlético está apostando numa joia do Palmeiras como opção para a reserva de Ricardo Oliveira. O que você tem a dizer do Papagaio? Por que não foi aproveitado pelo Felipão?

Não tenho a menor dúvida. É um jogador que tem um futuro em evolução e que tem a capacidade de ser um grande jogador. No Palmeiras, até pelas opções de momento do elenco, ele teria uma dificuldade. O interesse era o empréstimo. Apareceu a oportunidade do Atlético, que a gente vislumbrou por tudo o que o clube representa em estrutura e camisa. O Atlético tem a oportunidade de ser sócio do Palmeiras; se ele for bem e o Atlético quiser comprar a metade dos direitos, ele vai o fazer, então todo mundo vai ganhar neste negócio.

Alexandre Mattos e Felipão