O triunfo da integração racial”. “O retrato de uma nova França”. Não faltaram análises do bicampeonato mundial dos < enaltecendo a mistura de origens e raças que levou o grupo de Didier Deschamps ao título na Rússia.  Não deixa de ser verdade, considerando que 15 dos 23 campeões têm nas veias sangue estrangeiro e três deles, inclusive – o goleiro Mandanda (República Democrática do Congo), o meia Lemar (Guadalupe, no Caribe) e o zagueiro Samuel Umtiti (Camarões) nasceram em ex-colônias ou territórios “Dom-tom” (além-mar).

Imaginar que se trata de um fenômeno inédito, no entanto, é ignorar uma história que se reflete no próprio cenário político-social de uma das sete maiores economias do planeta.

Não só os filhos dos países africanos dominados pelos franceses até o começo do Século XX lutam por espaço e igualdade, como oriundos de outras regiões acabaram se integrando ao cenário e se refugiando no país em momentos de crise, como a II Guerra Mundial.

Pois se os franceses tiveram a honra de sediar a terceira Copa do Mundo, em 1938, foi apenas 20 anos depois que começaram a mostrar seu talento. 

No Mundial da Suécia, apenas o talento de Pelé, Didi e Garrincha foi capaz de impedir que os Bleus chegassem mais longe, sob a batuta de Just Fontaine, atacante nascido no Marrocos que se tornaria artilheiro daquela edição; e do filho de poloneses Raymond Kopa. Mais do que agora, para os jogadores de origem africana, o futebol francês era um prosseguimento natural de carreira, e defender os trazia maiores perspectivas de sucesso.

No primeiro título internacional de expressão – o da Eurocopa de 1984 –, lá estava novamente a contribuição marcante dos “estrangeiros”. O zagueiro Jean Tigana, nascido no Mali, era o capitão do time, e o volante Luis Fernandez, espanhol que preferiu atuar do outro lado da fronteira, também deu sua contribuição, compondo o chamado “quadrado mágico” ainda com Giresse e Michel Platini. 

Dois anos antes, o zagueiro Marius Trésor, mais um vindo de Guadalupe, ajudou a França a ser quarta na Copa da Espanha.

Era Zidane
O fim do século passado marcou a entrada definitiva do futebol francês entre os grandes, comandado por um filho de argelinos que se tornou um dos maiores ídolos da história do país. Zinedine Zidane traz inclusive no nome a origem e, recentemente, se engajou contra a líder direitista Marine Le-Pen, conhecida por defender restrições aos imigrantes.

Na seleção campeã mundial pela primeira vez em casa, batendo o Brasil na decisão, ele era um dos 11 imigrantes ou filhos de. O lateral Liliam Thuram (Guadalupe), autor dos dois gols na sofrida semifinal com a Croácia (mesma adversária de domingo), se tornou inclusive um engajado escritor e defensor dos direitos dos negros e minorias. 
 

Desde o Mundial de 1958, futebol dos Bleus conta com ajuda decisiva de atletas originários das ex-colônias 
e territórios de além-mar ainda ligados ao país


E não há como esquecer do ganês Marcel Desailly, do senegalês Patrick Vieira; dos descendentes de armênios Djorkaeff e Boghossian, de Christian Karembeu, natural da Nova Caledônia; de Trezeguet, filho de argentino, e Thierry Henry, com pais vindos da Martinica. Com essa base, os Bleus conquistaram ainda a Euro de 2000 e a Copa das Confederações de 2001.

NOVA HISTÓRIA
Agora, a geração de Mbappé, Pogba, Fekir, Sidibé, Varane, Mendy, Nzonzi, Rami, Kanté, Kimpembé, Matuidi e Tolisso escreve seu nome na história, na expectativa de que o caminho para quem vem depois seja menos sofrido e o sangue estrangeiro esteja cada vez mais integrado ao que é a França, também fora de campo. Na esperança de que o esporte ajude cada vez mais a afastar qualquer tipo de discriminação.