O cenário do início do século XX era bem distinto dos dias atuais quando o assunto é futebol. O esporte, que hoje é encarado como um fenômeno de massas, naquele período era praticado pela aristocracia. Em Belo Horizonte, que começava a ganhar suas formas definitiva, a história não era diferente.

Engenheiros, médios e advogados eram os principais entusiastas daquela modalidade e chutavam as bolas de capotão pelos campos improvisados na cidade. E eles começaram a fundar agremiações, que traduziam o poder de seus membros.

Alguns garotos dessa elite, quase todos estudantes do “Gymnasium Anglo-Mineiro”, se reuniram e formaram um time por volta de 1911, mas não batizaram essa agremiação, já que os estudos intensos eram grandes obstáculos. Porém, mantiveram a ideia acesa e em 30 de abril de 1912, eles se reuniram novamente e decidiram por recriar novamente aquela equipe.

Arlequim, Timbiras, Riachuelo e Guarany eram algumas das opções do sorteio que daria o futuro nome do grupo, que contava também com a sugestão de “América Foot-ball Clube” (assim, no anglicismo mesmo). Esse último veio por influência das histórias contadas por seus professores sobre os Estados Unidos da América, e foi o nome escolhido. As cores verde e branca também vieram por sorteio. Tinha início um dos clubes que mudaria a história do esporte bretão em Minas Gerais.

O novo clube era composto basicamente por adolescentes e disputava suas partidas com garotos da mesma faixa etária. Posteriormente, outro quadro foi acoplado, transformando o grupo em uma equipe de adultos. Alguns desses membros eram célebres, como Afonso Silviano Brandão, sobrinho do presidente de Minas Gerais (título dado à época para o que hoje conhecemos como o governador do Estado), Bueno Brandão. A eles, somou-se posteriormente meio quadro do Atlético Mineiro, após uma briga interna na equipe alvinegra, que também teve a debandada de todos seus presidentes e três de seus fundadores.

Outra desistência que fortaleceu o quadro americano ocorreu em setembro 1913, quando o Minas Gerais foi extinto. Como o presidente de honra era comum aos dois clubes, o América recebeu o patrimônio da finada equipe. Isso deixou o time ainda mais forte. O resultado veio posteriormente, com a primeira grande vitória, ao superar o Atlético por 1 a 0, no ano seguinte. E não parou por aí.

Em 1916, o clube da aristocracia da capital conquistou seu primeiro Campeonato Mineiro. Seria o início de uma sequência de outras nove conquistas, série que culminou em um decacampeonato inédito no futebol mundial, feito que só foi igualado posteriormente pelo ABC, de Natal.

Em meio a esse período, o América foi expandindo seu patrimônio. Em 1919, o clube inaugurou o primeiro campo gramado de Belo Horizonte. Quatro anos depois, veio seu novo estádio, onde hoje se localiza o Mercado Municipal. Em 1929, veio o famoso “Campo da Alameda”, o estádio Otacílio Negrão de Lima, onde hoje se localizada um supermercado, na Avenida Francisco Sales, no bairro de Santa Efigênia.

Fim do amadorismo

A década posterior, a de 1930, começou a mudar os rumos daquela equipe. Em 1933, foi adotado o regime profissional para o futebol. O América não aceitou a nova medida, uma vez que seus dirigentes consideravam que o esporte era parte do aprimoramento do ser humano e não algo comercial. Como protesto, mudou seu pavilhão para vermelho por uma década.

Aquela medida afetou o clube, que perdeu sua força no futebol mineiro. O América chegou a atuar com torcedores, que entravam em campo por amor ao clube, enquanto os adversários contavam em seus quadros com atletas profissionais, com melhor preparação e futebol aprimorado.  Somente em 1943 que o profissionalismo foi adotado e as cores alviverdes voltam ao fardamento do clube. Ainda assim, os impactos do pouco investimento eram notórios e a quipe veio a faturar novamente um Campeonato Mineiro somente em 1948.

Apesar de um quase “ostracismo”, o Coelho se destacou no período por seu pioneirismo, como aponta o historiador oficial do clube, Carlos Paiva. “O América construiu o primeiro campo de futebol gramado. Formou um time que era não só a base, mas a própria seleção mineira por quase duas décadas. Mais que o futebol, o América foi fundamental na vida esportiva mineira fundando as federações de basquete, atletismo, ciclismo e futebol de salão. Ajudou a fundar também a CBD, a atual CBF”.

Era Mineirão e reestruturação

As décadas de 50 e 60 não trouxeram muitas alegrias para o torcedor americano. O título único em 1957 não simbolizava a grandeza do clube. Nesse período, o Coelho perdeu também o status de maior rival do Atlético para o Cruzeiro, se transformando em terceira força no futebol do estado. A conquista do Estadual de 1971 e o 7º lugar no Campeonato Brasileiro de 1973 foram lampejos, já que os investimentos ainda eram escassos.

O clube só começou a se reerguer definitivamente no final da década de 80, quando retomou a aposta incisiva nas categorias de base e atletas de destaque. O América colheu os frutos ao conquistar o Campeonato Mineiro de 1993 e retornar à Série A. Naquele ano, o clube chegou em 16º lugar no Campeonato Brasileiro, mas foi rebaixado, apesar da competição ter 32 equipes. A diretoria entrou na justiça e a CBF puniu o clube com dois anos fora dos torneios por ela organizados.

Títulos e instabilidade

Em 1997, o Coelho voltaria à elite ao faturar a Série B do Campeonato Brasileiro. Retornou à segunda divisão em 1999, mas em 2000 figurou na Série A novamente. Aquele ano também foi especial pela conquista da Copa Sul-Minas.

O ano seguinte trouxe o Campeonato Mineiro, após oito anos de jejum. Quando se esperava uma boa campanha no Nacional, veio um rebaixamento. Esse foi seguido pela queda à Série C, em 2004, e ao Módulo II do Estadual, em 2007.

A fragilidade foi ultrapassada. E ao se reestruturar, o Coelho faturou a Terceira Divisão, em 2009, e obteve o acesso à Série A no ano seguinte, voltnado a se reafirmar no cenário nacional.

Paralelamente, seu estádio, o Independência, foi reformado e entregue em 2012, ano do centenário do clube. O Gigante do Horto hoje é o segundo palco mais importante de Minas Gerais e é um dos trunfos do Coelho para montar grandes esquadrões, como lhe era peculiar no passado.