Belo Horizonte tem seu muro. Não é fixo, está longe de ter a fama do de Berlim, mas também divide. Erguido na rua Ismênia Tunes, no Horto, no último sábado (6), era a barreira que impedia o contato visual entre gente que ama o futebol, mas que fez da paixão pelo esporte um instrumento de intolerância.

Símbolo maior da Guerra Fria, o Muro de Berlim foi uma imposição do Estado. O de Belo Horizonte foi criado pela sociedade. Atleticanos de um lado, cruzeirenses do outro. No centro, uma discussão: até quando violência e preconceito vão fazer tabelinha com o futebol?

“Nos últimos 30 anos, as autoridades brasileiras, em geral, só trataram a violência no futebol na base da repressão. Não se preocuparam com prevenção, educação, um plano estratégico a longo prazo. E a agressividade cresceu, dentro do contexto de um país onde a violência cresceu. Temos o trânsito mais violento do mundo, somos o país que mata mais gays, nosso ambiente escolar é o mais violento, batemos recordes de homicídios. E somos o país que mais mata torcedores no mundo”, analisa o sociólogo Maurício Murad, professor da Universo e autor de dois livros sobre o assunto.

Torcedor comum

Apesar de as mortes estarem relacionadas às organizadas, a intolerância e a violência não são mais restritas a esses grupos. O torcedor comum também está mais agressivo.

“É um fenômeno geral. É o psicossociológico das multidões, que é dada a excessos. Freud já dizia isso. Na multidão, o indivíduo se acha protegido pelo anonimato. Pensa que está autorizado a fazer o que quer. Transgride as normas. Por isso, essas pessoas, num momento de paixão acentuada, partem para a irracionalidade”, completa Murad.

“Não se misturar a torcida é um indício grave. Qual o problema de ter um cara com a camisa do rival ao lado? O que leva alguém a ir lá e bater no outro? É um sentimento que invadiu o futebol. É o comportamento de massa. Daí a pegar um vaso sanitário e atirar na cabeça de um rival (fato acontecido em Recife), é total falta de limite. Isso tem que ser pensado”, analisa Guilherme Cerqueira Guimarães, professor da Faculdade de Letras e membro do Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (Fulia) da UFMG.

Punição

Arlei Damo, doutor em antropologia e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destaca a agressividade histórica do futebol, mas ressalta o fato de dentro do campo isso ter sido controlado.

“A agressividade e as brigas estão presentes no futebol desde sempre. Jornais antigos mostram que nas décadas de 10, 20, isso acontecia entre torcedores e jogadores. É uma atividade que provoca o enfrentamento, tem vencedores e vencidos. Mas dentro de campo, os episódios passaram a ser raros, pois as punições são severas. Bater no árbitro, que se vê na várzea, provoca uma suspensão grande. Fora de campo, as medidas punitivas não são cumpridas pelos torcedores. E nada acontece”, afirma Arlei Damo.

Relação conturbada que tem dirigentes como mau exemplo

A racionalização da relação entre atleticanos e cruzeirenses em Minas Gerais é uma causa sem ações ou personagens. Nem os clubes, muito menos a FMF, buscam campanhas que possam diminuir o conflito. Muito pelo contrário. Ultimamente, o mau exemplo tem partido é dos dirigentes.

Numa realidade idêntica à mineira, o Rio Grande do Sul tenta vencer a intolerância. A partir deste ano, os clássicos entre Internacional e Grêmio passaram a ter um setor no estádio para torcidas mistas, com um sócio do mandante tendo o direito de levar um acompanhante, que obrigatoriamente precisa torcer para o outro clube.

Maurício Murad destaca que a iniciativa gaúcha, que vai inclusive concorrer a um prêmio internacional, é interessante, mas ainda está longe de ser a solução para o problema.

“É preciso tratar a coisa de forma repressiva, preventiva e educativa. Em alguns estados, como Minas, por exemplo, parece impossível a experiência de torcida mista”, avalia Murad.

Para Arlei Damo, que mora em Porto Alegre, a iniciativa gaúcha teve uma repercussão positiva e colabora para tentar colocar o futebol no seu papel de lazer, mas também vê a medida como mais difícil de ser implantada em Minas pelas conquistas recentes de Atlético e Cruzeiro, que acirraram a rivalidade.

Outro ponto comum aos dois estudiosos do comportamento dos torcedores é que a solução tem de partir de ações do Estado.

“Falta ação das autoridades. Infelizmente isso tem acontecido e fere um dos patrimônios mais importantes da cultura social brasileira, que é o futebol”, garante Murad.

Intolerância transforma a simples cobrança de um tiro de meta em ‘culto’ ao preconceito

“Oh, oh, oh... bicha”. Esse grito, copiado do México, invadiu os estádios brasileiros. Nas cobranças de tiro de meta pelo goleiro visitante, o preconceito entra em campo como uma forma de diminuir o rival. A poucos metros dali, uma placa em preto e branco, estampa uma campanha da CBF contra o racismo: “Somos Iguais”.

Questionada sobre o fato de não fazer uma campanha mais abrangente, contra qualquer tipo de preconceito, a entidade se posicionou por nota.

“A CBF repudia qualquer manifestação de intolerância no futebol. Iniciamos a campanha BRASIL – SOMOS IGUAIS para firmar a nossa posição contra o racismo e ressaltamos que esse é o nosso pensamento em relação a qualquer luta por igualdade de tratamento no ambiente do futebol e na sociedade em geral. Acreditamos na liberdade de expressão, mas todas as pessoas que se sentirem atingidas devem procurar os meios legais de proteção à sua individualidade. A CBF está sempre analisando o cenário do futebol brasileiro para melhorar cada competição como um evento. Estamos do lado de quem defende o respeito e a convivência pacífica entre torcedores, jogadores e todos os envolvidos no futebol.”, explica a nota da assessoria de imprensa da entidade.

Exclusão

Para Maurício Murad, a homofobia no futebol carrega a marca do preconceito, que ainda é grande no Brasil: “ A exclusão é uma agressão, uma violência. É o caso da homofobia. Nesse ambiente de exclusão, as pessoas olham o diferente como adversário, o adversário como inimigo, e o inimigo como alguém que tem que ser abatido, eliminado”.

Arlei Damo destaca ainda a intenção de se diminuir o rival com a homofobia: “Os xingamentos sempre existiram. Só que não eram entendidos com esse registro. As pessoas sempre chamaram adversários com atributos que diminuiam o rival. Chamar de mulher, veado, é retirar do outro sua potência. Isso não acontece mais em relação ao racismo, pois a legislação pune”.

A regra no futebol brasileiro é clara. Macaco, não pode. Veado, pode.