De volta ao boxe profissional após três anos, o pugilista brasileiro Acelino Popó Freitas, de 39 anos, nocauteou o inexpressivo argentino Mateo “El Chino” Veron em apenas três rounds, pela categoria supermeio-médio (até 69,8Kg), há duas semanas. Com um cartel de 42 lutas, sendo 40 vitórias e apenas duas derrotas, o baiano, em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, por telefone, disse que pretende fazer pelo menos mais uma luta até o fim deste ano, e que não descarta lutar pelo quinto título mundial, em 2016, contra o filipino Manny Pacquiao.

Por que você decidiu voltar a lutar?

Decidi sozinho. Não havia aposentado por lesão, apenas queria um tempo longe do ringue para descansar meu corpo e minha mente. Foram mais de 25 anos me dedicando ao boxe e precisava dar uma parada. Quando me senti descansado, me preparei, treinei todos os dias durante cinco meses e o resultado foi esse, uma boa vitória em meu retorno.

O que mudou do Popó campeão mundial para o Popó que está de volta?

Se eu falar que não senti nenhuma mudança estaria mentindo. Mas foram poucas coisas. Sempre fui esportista, além disso, sou um cara que não bebe, não fuma, e me cuido muito, por isso não senti tanto. Além disso, os grandes campeões do boxe atual são pugilistas com a minha idade, como o Floyd Mayweather e o Manny Pacquiao. Por isso, nunca olhei para a idade como um empecilho.

Como seus familiares e amigos encararam sua decisão de voltar a lutar?

Com naturalidade. As pessoas que convivem comigo sabem que se eu quis voltar seria porque eu me sentia em condições plenas de fazer isso. Inclusive, meu irmão, Luis Cláudio, que me acompanha desde o início, sempre falou que eu nem deveria ter parado. Por isso, todos me apoiaram.

Pelo que vimos em seu retorno, a ‘mão de pedra’ continua firme. Mas até que ponto essa vitória serve de parâmetro em nível Mundial?

Não sou tão otimista a ponto de já pensar que eu estou no mesmo nível que os melhores. Mas sei que só ganhei porque eu treinei muito, e qualquer luta que eu fizer tenho que me dedicar ao máximo, pois se eu não estiver bem treinado, o resultado não será o mesmo. Quando me preparo focado em um adversário, seja ele em nível nacional ou internacional, é difícil me superar. Eu só subo no ringue em minhas melhores condições, nunca para brincar. Minha integridade física está em primeiro lugar.

O boxe vive um momento de baixa, principalmente no Brasil. Porque isso aconteceu?

No Brasil é simples explicar porque o boxe está em baixa: falta um campeão daqui para levantar a bandeira. Assim como falta o Senna na Fórmula 1, falta o Guga no tênis, também falta o Popó no boxe.

Faltam lutadores como você, com poder de nocaute, para o boxe voltar a ser popular?

As pessoas gostam de assistir à espetáculo, e, atualmente isso não tem acontecido. O Mayweather nunca foi nocauteador. Os irmãos Klitschko que há muito tempo dominam os peso pesados não são iguais ao Mike Tyson, que nocauteava seus adversários rapidamente. As pessoas gostam de assistir boas lutas, sejam elas por pontos ou por nocaute, mas que sejam bem desenvolvidas pelos dois pugilistas. Na verdade, hoje as principais categorias de peso são dos mais leves e, com isso, o nocaute é mais raro mesmo. No meu caso é diferente, mas é algo que nem eu sei explicar. Nunca treinei para ser um grande nocauteador, apenas sei que tenho uma mão pesada e isso faz a diferença. Brinco que quando um nocaute acontece é como se fosse um gol no futebol, e é isso que as pessoas gostam.

Você já foi detentor de quatro títulos mundiais diferentes. Qual considera o mais importante?

Com certeza o da Organização Mundial de Boxe. Além de ser a principal, foi meu primeiro título mundial, que conquistei contra o cazaque Anatoly Alexandrov, em 1999, e defendi por dez vezes.

Tem alguma mágoa com alguém no boxe? Você teve problemas com empresários ou cartolas do boxe?

Nunca tive nenhum problema com ninguém em minha carreira de lutador. Apesar dos empresários terem levado 75% do que eu ganhava, isso nunca foi um problema.

Você montou uma equipe de MMA. Tem planos de algum dia lutar?

Acho que só se pagasse tão bem quanto o boxe (risos). Nunca tive esse pensamento. Para eu lutar MMA eu teria que me dedicar um ano apenas no Muay Thai, uma ano apenas no jiu-jitsu, um ano no wrestling, para aí sim me tornar um lutador de MMA. Eu não tenho a mistura de artes marciais, eu só tenho o boxe.

Porque você montou uma equipe de MMA?

Na verdade, eu não montei uma equipe, montei uma academia em Brasília, e o pessoal que lutava MMA começou a treinar lá. Depois de um tempo, eles iam lutar e falavam que eram da minha academia, e isso começou a aparecer na mídia, foi aí que eu fiquei sabendo. Aí fui acompanhar um pouco mais de perto e vi que tinham alguns “lutadores” que nem treinavam direito e iam para as lutas, e usavam o nome da minha academia. Foi ai que acabei com aquilo.

O que você pensa do MMA como esporte?

Eu respeito todos os esportes. Ainda mais no Brasil, que antes de mais nada o esporte é uma forma de inclusão social muito eficiente, e temos exemplo disso no MMA. O Cigano, José Aldo e Anderson Silva hoje são reconhecidos pelo sucesso que alcançaram no UFC. Além disso, quando eu era deputado federal, fui autor de um projeto de lei que regulamenta o MMA como esporte.

Você foi deputado federal e vivia demonstrando mágoa com a política, e mesmo assim tentou, sem sucesso, a reeleição em 2014. Ainda pensa em trabalhar com política?

A única mágoa que eu tinha era que meu trabalho não vinha sendo reconhecido. Eu não tinha gratidão de ninguém enquanto eu estava lá lutando para aprovar leis que beneficiaria muita gente. Além disso, assim que você se torna político, todo mundo desconfia que você é corrupto. Acho que é uma coisa cultural. Por isso, hoje não penso em voltar a trabalhar com política, só quero me dedicar integralmente ao boxe.

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Em 2011, Popó (PRB-BA) toma posse como deputado no plenário da Câmara. Foto: Dida Sampaio/ Estadão Conteúdo

O que você gostaria de ter realizado como político e não fez?

Acho que não deixei de fazer nada. Apresentei 72 projetos e gostaria que todos tivessem sido aprovados, seja os culturais ou esportivos. Mas, infelizmente, no nosso país só se vota o que os grandes partidos querem.

Tem alguém que você gostaria de nocautear na política?

Não tenho nenhum desafeto. Quando você está lá, envolvido nos projetos que você acredita, é claro que enfrentará pessoas com ideais diferentes dos seus; sabendo disso é muito mais fácil de tolerá-las.

Com seu passado no boxe, acredita que precisa fazer quantas lutas antes de disputar um cinturão?

Esse ano farei pelo menos mais uma luta. Mas hoje não tem mais um número certo de vitórias para eu chegar a disputar um cinturão. Isso vai muito mais dos detentores dos títulos aceitarem me enfrentar, já que a maioria deles, como Mayweather e Pacquiao, são promotores da própria carreira e lutam com quem eles querem. Mas claro que antes tenho que subir no ranking para que seja interessante para eles aceitarem lutar comigo.

A grande polêmica no Boxe em 2015 foi na luta entre Mayweather e Pacquiao. Você concorda com aquele resultado?

Fui comentarista da luta pelo canal combate e discordei, como ainda discordo do resultado. Pra mim o Pacquiao ganhou, pois ele procurou mais a luta, bateu mais. Está certo que o Mayweather deu mais golpes efetivos (limpos), mas no conjunto da obra o Pacquiao foi melhor.

Enfrentar o Pacquiao não é uma meta muito ousada para você?

Não é que seja uma meta ousada, meu papel é pedir essa luta, pois é o que eu quero. Mas meu desejo em lutar contra ele é porque minhas melhores lutas foram contra canhotos, e ele é. Pela inteligência, não pelo defeito do canhoto. Você tem que fazer outro tipo de esquiva. Contra o canhoto você tem que jogar do lado contrário. É difícil lutar com eles, mas eu sempre tive facilidade e me sinto bem. Ganhei minha primeira unificação de títulos contra o cubano Joel Casamayor, que era canhoto.

Como você vê o momento atual e o futuro do boxe Brasileiro? Acredita que os Irmãos Falcão podem chegar a conquistar um título mundial?

Acredito em ambos. Tanto o Esquiva, quanto o Yamaguchi tem qualidades para evoluir muito e chegar a ser campeões mundiais. Eles não tem tanta potência para nocautear, como falamos anteriormente, mas tem muitas outras qualidades. São dedicados, tem força de vontade, mostraram esse potencial na Olimpíada de Londres, em 2012, conquistando a prata e o bronze respectivamente. Acho que em dois anos, com a experiência que estão adquirindo no boxe profissional, eles vão chegar às disputas pelos títulos mundiais.