Na mitologia grega, Athos era um dos gigantes, filho de Gaia, a Terra, e Urano, o Céu. Na história do Atlético, o nome reforça o poder da mulher e dá vida à luta por espaço de isonomia no futebol, esporte mais praticado no país, porém, ainda extremamente voltado aos homens, principalmente em estrutura, reconhecimento e, consequentemente, remuneração.

Filho de educador e apaixonado por costura e desenho desde os 13 anos, Athos Henrique, hoje com 25 e radicado em Ribeirão das Neves, foi o escolhido pelo clube para desenhar o "Manto Delas" (uniformes do time feminino do alvinegro). Um projeto desafiador, mas que não foi motivo de dor de cabeça para quem, no nome, carrega os pés no chão e os sonhos sempre com muito afinco.

Negro e homossexual, Athos foi questionado pela reportagem sobre a importância de ser o responsável por um projeto criado para mulheres do mundo da bola. Totalmente avesso ao vitimismo e/ou ao sensacionalismo, ele é bem direto.

"Só o fato de existir essa pergunta já é um sinal que ainda temos uma longa caminhada até de fato melhorar um pouco a situação. Se pararmos pra pensar que eu um homem gay, estou respondendo a pergunta de um homem hétero, sobre a importância de fazer algo para mulheres em relação ao machismo, nós já estamos sendo machistas ao ocupar este espaço e excluir mais uma vez dessa conversa as mulheres", diz o estilista belo-horizontino ao Hoje em Dia.

Sobre o resultado do trabalho, que encantou muitas pessoas e deixou gostinho de "também quero" no público masculino, ele se mostra extremamente feliz com a repercussão.

"Foi ótimo! Só com o retorno da torcida pude entender a importância desse trabalho, estou acostumado com a efemeridade do mercado da moda pra pensar coleções curtas e rápidas, entender o que a camisa significa para o time foi bem interessante", explica.

Confira a mini-entrevista com o estilista Athos Henrique:

Fale um pouco de você.. das suas origens, um pouco da sua história de vida até chegar ao mundo da moda. 

Minha trajetória é tão longa, mas minha relação com a moda começou bem cedo! Sou filho de educador e meus estudos sempre foram uma pauta séria em casa, tanto que meu primeiro curso de costura fiz aos 13 anos, pra iniciar um projeto carreira. Desde criança sempre desenhei e na maioria das vezes figuras femininas! Pouco mais tarde no colégio, um professor de artes me direcionou para a moda e fui me inclinando logo alí. Fiz vários cursos profissionalizantes, aprendizagem no Senai Modatec e comecei a trabalhar com mercado de luxo logo em seguida. Passei por 8 marcas em BH e tive a oportunidade de morar em SP trabalhando como assistente do stylist Rodrigo Pollack. Retornei a Bh em 2017 já com planos de iniciar minha marca, que primeiro surgiu como Projeto Nove e depois se tornou a marca Nove. O projeto é um reality show onde registramos em vídeo todo o processo de construção de uma peça que será entregue a um convidade especial, como o projeto era um grande sob medida e não havia venda direta, a marca surgiu em 2019 com uma pronta entrega especial sempre em coleções cápsulas.


 Como surgiu o convite do Atlético? 

Uma amiga que mora em SP soube que o clube estava em busca de alguém pra desenvolver o uniforme feminino e me indicou. Após a indicação conversei um pouco com a equipe do Atlético, enviei alguns trabalhos e fechamos.

Como foi o processo de criação das camisas (inspirações, etc)? 

Foi um desafio pensar uma proposta de uniforme para um clube tão tradicional e querido por uma grande massa, ter a oportunidade de desenvolver o primeiro uniforme exclusivo do time feminino é uma responsabilidade gigante. Tentei misturar algumas das minhas referências esportivas de moda, com a demanda me solicitada, uma das certezas iniciais era que queria descontruir as listras e trabalhar de forma que valorizasse o corpo atlético que seria suporte para a peça.

 Quanto tempo demorou da criação à finalização? 

Foi rápido! Em uma semana fiz a pesquisa, desenhos e entreguei a equipe do time. A parte demorada foi a aprovação, mas não participei do processo. Entreguei os desenhos no inicio de Fevereiro e recebi a confirmação final em Outubro.

atlético feminino

 

 Por que optou pelas listas na diagonal? 

Qual seria a novidade em usar listras verticais? Cresci sabendo que listras verticais remetem a camisa do clube, então em uma momento que precisamos valorizar o time feminino com o primeiro uniforme exclusivo, não seria interessante manter um padrão. Tentei trabalhar as listras para valorizarem o corpo das meninas em uma construção de silhueta.

 Como negro e homossexual, qual a importância de se fazer uma camisa para o time feminino, levando em conta o machismo embutido culturalmente no futebol? 

Só o fato de existir essa pergunta já é um sinal que ainda temos uma longa caminhada até de fato melhorar um pouco a situação. Se pararmos pra pensar que eu um homem gay, estou respondendo a pergunta de um homem hétero, sobre a importância de fazer algo para mulheres em relação ao machismo, nós já estamos sendo machistas ao ocupar este espaço e excluir mais uma vez dessa conversa as mulheres. 
 
Desenvolver a camisa pro time feminino foi importante pra mim por ser algo fora da minha zona de conforto, agora sobre o preconceito no futebol penso o seguinte. Vivemos em uma sociedade estruturalmente preconceituosa e que vive em negação do preconceito, ocupar espaços como homem negro e como homem gay não deveriam ser exceções e sim regras. A homofobia, o machismo e afins no futebol são apenas algumas das manifestações dos problemas gerais dessa sociedade, é no mínimo estranho pensar que acabei de entregar um trabalho pra um time cujo a torcida há pouco, gritava em coro que o atual presidente… ia matar "viado" e não falo isso positivamente. 

Confira também a matéria especial da TV Galo com o estilista: