O desejo do atacante João Paulo, do Democrata de Governador Valadares, é ganhar fama pelos gols e boas atuações. Mas o jogador foi destaque nos noticiários dos últimos dois dias por uma situação curiosa e inusitada: ter sido mordido por um pastor alemão da Polícia Militar durante o jogo contra o Tupi, que terminou com a vitória do time de Juiz de Fora por 1 a 0.
 
E nem mesmo a mordida tornou o jogador protagonista do jogo. É que na última segunda-feira (23) o policial Ken, que completa oito anos em maio e tem currículo de dar inveja aos “companheiros” de canil, passou o dia posando para fotos e filmagens, tudo na presença do atacante, que compareceu ao local para conhecer melhor o cão que o atacou. 
 
Ken é um animal conhecido pela experiência profissional e considerado um cachorro completo, pois, além de bem adestrado, tem temperamento controlado e dócil. Na bagagem do pastor alemão estão participações em jogos no Mineirão e atuações em ações contra a criminalidade, além de rebeliões e ocupações. 
 
Localizar artefatos explosivos e drogas é outra especialidade de Ken. “Ele atacou para defender o seu condutor”, garante o sargento Weberson Pereira, comandante da Rondas Ostensivas com Cães (Rocca) da PM, em Valadares.
 
Segundo ele, João Paulo tentava alcançar uma bola que ia para a linha de fundo e não conseguiu parar antes de chocar-se contra ele e a cadela Oda, de quatro anos. O jogador também atingiu Ken e o seu condutor, o cabo Nacip Lemos Junior. 
 
“Foi instinto de defesa. De outro modo só atacaria depois de um comando”, garante o sargento. “Com a trombada, fiquei desequilibrado e ele entendeu que eu tivesse sendo atacado”, reforça Nacip. Ele conta ainda que o cachorro soltou o jogador no primeiro comando e que, por isso, a ferida não teve maior gravidade. Ken chegou à Valadares em agosto de 2014, junto com outros sete cães que vieram de Belo Horizonte e do Espírito Santo. Nesta data o canil da PM, que havia sido fechado em 2010 por causa de uma epidemia de leishmaniose na cidade, foi reativado – na época todos os oito cães da PM foram sacrificados.
 
Desde então os animais, todos vacinados, vêm sendo empenhados em operações da PM e também nos jogos no estádio Mamudão para proteger jogadores e equipe técnica em possíveis invasões do campo. 
 
Com o incidente a corporação estuda uma forma de manter os cães dentro do estádio, mas um pouco mais afastados do gramado e da torcida. “O problema é que o estádio é acanhado e não oferece áreas para isso”, diz o sargento. 
 
Visita a Ken
 
Na segunda-feira (23) à tarde, João Paulo visitou Ken no canil da PM e depois de acariciar e brincar com o cachorro, definiu o caso como um acidente. “A bola estava saindo pela linha de fundo e eu corri atrás dela. Ganhei velocidade, não consegui parar e me choquei com os cães que se assustaram. Isso é natural, instinto de defesa deles. Estavam trabalhando, fazendo a segurança”, diz o jogador, que além da mordida no braço esquerdo também apresenta arranhões nas nádegas, decorrentes das unhas do cão. “Senti muita dor e o braço ficou dormente, mas os arranhões nas nádegas só descobri depois, na hora do banho”, conta. “Pior mesmo é a vacina antirrábica”, brinca o atacante, que precisará tomar um segundo reforço nesta quarta-feira (25).
 
Fatalidade
 
A diretoria do Democrata informou, em nota, que a presença de policiais com cães é uma autonomia da PM como órgão de segurança. O clube classificou de “fatalidade” o incidente. 
 
Sobre a má situação do time no Estadual, que ainda não pontuou, avisa que não fará mudanças, no grupo ou equipe técnica. “Não acreditamos em novas derrotas. E a equipe técnica tem o apoio da diretoria.”