Imagine chegar à Cidade do Galo e ver um carrinho de golfe modificado, equipado com câmeras de última geração capazes de captar os movimentos dos jogadores. Manuseando o aparelho está um senhor de 60 anos, óculos na ponta do nariz presos a uma cordinha, cara amarrada e com temperamento capaz de dar um berro diante da menor menção a um erro tático.

A cena poderia se concretizar em janeiro. Antes de contratar o uruguaio Diego Aguirre, o presidente do Atlético, Daniel Nepomuceno, acompanhado do diretor de futebol Eduardo Maluf, sentou para negociar com Marcelo "El Loco" Bielsa, um dos mais respeitados treinadores do futebol mundial, por conta pelos métodos inovadores de treinamento e exigência de um futebol vistoso.

O encontro foi curioso. Bielsa tentava perder peso rapidamente (10 kg em 15 dias). Então, se hospedou em um spa localizado em Gramado (RS). Na penúltima rodada do Campeonato Brasileiro, o Galo jogou contra o Grêmio em Porto Alegre. Foi naquela ocasião que ocorreu o acerto com Diego Aguirre, que se encontrava em Motevidéu (Uruguai). Horas anteriores, porém, lá estavam os dois dirigentes atleticanos preparados para 150 minutos de conversa com o argentino.

Bielsa mostrou conhecer alguns jogadores do Galo, uma desvantagem em relação a Aguirre, que conhece muito bem o elenco mineiro. Mas impressionou ao apresentar uma apostila contendo aquilo que todos os comandantes prometem ao ser contratados: um bom projeto.

Entretanto, o modo revolucionário de Bielsa bateria de frente com o clube que se orgulha em ter o melhor Centro de Treinamento do país. Isso porque o apito do argentino vai além das quatro linhas e impõe regras que limitariam até mesmo a presença do diretor de futebol no campo durante os treinos.

"El Loco" não se mostrou exatamente inflexível nas exigências propostas. Entretanto, quando o papo entrou na parte financeira, o Galo saiu do poleiro. Se a pedida de R$ 1,1 milhão apresentada por Cuca já havia sido classificada como "impossível" por Nepomuceno, o que dizer diante de uma pretensão salarial de 375 mil dólares?

Com a moeda norte-americana valendo quase quatro vezes mais do que o Real, Bielsa ganharia cerca de R$ 1.475.000,00 a cada 30 dias. Detalhe: a quantia seria livre de impostos, o que elevaria ainda mais o gasto do Atlético.

"Fomos eu e o Daniel falar com o Bielsa. Conversamos com ele por duas horas e meia. O Bielsa estava (na lista)?. Não. Mas apareceu. Conversamos de manhã, e independentemente da proposta financeira, vimos que não dava. Chamamos o Aguirre, e fomos jantar à noite. Fechamos depois da conversa que tivemos com ele", revelou Eduardo Maluf.

Bielsa continua sem clube após ter deixado o Olympique de Marselha (França). Venerado pelos torcedores do Newell's Old Boys, clube pelo qual foi tricampeão argentino, o treinador natural de Rosario segue no mercado, à espera de dirigentes que topem atender às suas demandas para, assim, levar o "Bielsamóvel" a um novo CT.