Gigantesco e acolhedor como coração de mãe não há, mesmo que a distância seja um pequeno entrave na relação com os filhos. Ganhando cada vez mais espaço no mundo da bola, algumas atletas de América, Atlético e Cruzeiro dividem a paixão pelo futebol com o exercício diário da maternidade. Polivalentes, mostram talento dentro e fora das quatro linhas.

 

Pelo lado do Galo, a meia Kassandra Melissa, de 19 anos, vê o filho Davi, de apenas dois, seguir os seus passos e ter a bola como objeto mais adorado. Moradora do Morro das Pedras, aglomerado localizado na Zona Oeste de Belo Horizonte, a jogadora do alvinegro encara o esporte como a grande oportunidade de ser exemplo para o pequenino. Na casa onde mora, ela divide espaço com a irmã, dois irmãos, o marido e a mãe.

 

"Desde pequena eu gostava de jogar bola e sempre brincava com os meninos. Fui vendo o que é o futebol, e isso gerou um sonho dentro de mim", conta a atleta ao Hoje em Dia. "Ser mãe e jogadora não é fácil. Tenho que conciliar o filho com o futebol. Sempre procuro ter um tempo para ele", acrescenta.

 

Mãos à obra

 

Na Raposa, quem divide os papéis é a goleira Michelle, conhecida no meio como Mikaa Felix. Aos 21 anos, ela precisa conciliar os treinos com a devida atenção às baixinhas Thábata Emanuelly, de três anos, e Dafne Marcelly, de cinco.

 

Mãe-coruja, não deixou de ter o apoio da dupla nem quando precisou morar em Franca, no interior de São Paulo. Revelada no América, Mikaa defendeu o clube de Franca por quatro meses. "Os treinos lá eram em dois períodos. Quando treinava, estava tranquila. Quando chegava em casa, ia logo fazer chamada de vídeo ou ligação para elas", relembra a arqueira. "Eu consigo conciliar as funções. Elas (filhas) são minha base. Se hoje estou aqui, é por causa delas. É um sentimento inexplicável", conclui.

 

Foi em Betim, onde mora, que Michelle viu despertar a paixão pelo futebol. O marido, que não conseguiu ser atleta profissional, foi o maior incentivador.

 

"Meu esposo trabalhava no projeto 'Menino Bom de Bola', criado pelo nosso amigo Maurivar Morais, voltado para treinar crianças. Montamos um elenco feminino, há um tempo, e começamos a jogar. Fui fazendo amizades com times amadores, jogando um pouquinho em cada lugar, até ficar sabendo do teste no América", finaliza.

 

Saudade

 

O Coelho, a atacante Marques, de 27 anos, chega a marejar quando o assunto é seu filho, Thales, de dez anos, com quem conversa todos os dias, só que à distância. "Ele está lá no Sul (Porto Alegre, terra-natal de Marques) com minha família. A saudade é muito grande. Estar longe dele é um sacrifício enorme. Mas estou lutando por mim e por ele, para dar um futuro melhor ao meu filho", afirma Marques, que alimenta esperanças de, um dia, Thales seguir os passos da mãe.

 

"Um futuro jogador. Ele sempre diz que quer ser como eu quando crescer. Sou muito feliz por ser mãe. Mudou todos os meus planos para melhor. Meu filho é uma benção", completa.

 

Outra mãezona dentro do plantel americana, a lateral-esquerda Dani Peré, de 32 anos e natural de BH, diz que o filho Davi, de quatro anos, é presença garantida nos jogos. "Ser mãe é algo inexplicável, uma dádiva.  Tenho dois filhos que amo: ele e América (risos)", comenta a lateral do time alviverde.

 

Quem também convive com a saudade em meio ao amor pelo esporte e a profissão é a treinadora americana, Kethleen Azevedo, de 29 anos. Comandante do Coelho há quatro meses, a técnica passará o Dia das Mães em Ipatinga, onde moram os dois filhos, Luiz Felipe, de 13 anos, e Giovana, de quatro anos.

 

"Vou rever meus meninos e minha mãe, vou abraçá-los muito", afirma, com um largo sorriso estampado no rosto. "Meu menino é a pessoa que mais me incentiva e se diz muito orgulhoso de mim. Eles torcem e gritam muito por mim", ressalta.

 

A médica do time feminino do Coelho, Flávia Magalhães, relembra de casos curiosos envolvendo ela e sua prole, nos tempos em que fazia parte da comissão técnica da Seleção Brasileira Feminina.

 

"Em 2014, nasceu o Carlos Eduardo, e no ano seguinte fui convocada pela primeira vez. Meu filho estava com seis meses, e eu amamentava. Então, na Seleção, eu tirava o leite e doava. Já quando estava grávida do meu segundo filho, o Luis Felipe, fui para o Sul-Americano, em 2016. Fiquei 52 dias com barrigão (risos)", relembra.

 

* Colaborou Hugo Lobão