A crise cruzeirense tem como componente principal a enorme dívida que o clube vem acumulando nos últimos anos. E a ação dos integrantes do atual Conselho Fiscal, que renunciaram por não concordar com atos da atual gestão, poderia ter evitado a bola de neve.

Depois de Geraldo Luiz Brinat, Ubirajara Pires Glória e Celso Luiz Chimbida, que eram os membros efetivos e deixaram a condição em 8 de maio, seus suplentes, Valter Batista e Daniel Faria, ontem, também renunciaram ao Conselho Fiscal do Cruzeiro, que agora não tem mais nenhum integrante.

Uma eleição em 4 de junho deve formar uma nova composição, com os três efetivos e dois suplentes sendo escolhidos. A diretoria cruzeirense trabalha para montar uma chapa. A oposição não deve participar do pleito.

ENDIVIDAMENTO

Uma marca cruzeirense nos últimos anos tem sido o crescimento da sua dívida. Num levantamento feito por Amir Somoggi, especialista em marketing e gestão esportiva e um dos sócios da Sports Value, em 15 anos ela passou de R$ 29,5 milhões para quase R$ 450 milhões.

Segundo Amir, pelo balanço de 2018, a dívida líquida do Cruzeiro é de R$ 445 milhões, e não de R$ 520 milhões como vem sendo divulgado.

De toda forma, ela é seis vezes maior do que seriam hoje os R$ 29,5 milhões de 2004 corrigidos pela inflação. “Corrigida pela inflação, que no período foi de cerca de 160%, a dívida cruzeirense hoje estaria na casa dos R$ 75 milhões”, revela Somoggi.
E impedir essa bola de neve era também uma obrigação do Conselho Fiscal.

“Na verdade, o papel de controlar a dívida é da administração. O Conselho Fiscal é o órgão fiscalizador. Toda a culpabilidade vai primeiro para a administração, mas ela cabe também ao Conselho Fiscal”, afirma Amir, que destaca a precária situação que o clube enfrentava quando a atual diretoria assumiu.

A mesma opinião tem Nilo Patussi, advogado especialista em gestão empresarial e compliance e sócio do escritório Gelson Ferrareze Socieda de Advogados, que revela outro ponto importante: “A independência é importante também porque o fiscal membro do conselho pode ser responsabilizado individual ou em conjunto por irregularidades praticadas ou por omissão”.

Apesar de ser apontado pelo presidente Wagner Pires de Sá como uma prática da sua administração, Nilo Patussi não vê o programa de compliance aplicado efetivamente na Raposa: “Com um programa de compliance efetivo esses escândalos não teriam ocorrido e, com isso, a imagem do clube não seria prejudicada”.

RESTRIÇÕES

Em busca de membros para formar um novo Conselho Fiscal, a diretoria precisa reconstituir o órgão, pois o clube corre o risco de ter graves punições e aumentar ainda mais seus problemas financeiros.

“Um clube sem Conselho Fiscal pode perder os benefícios do Profut. Um conselho fiscal autônomo é um requisito que a lei exige. E havendo a perda dos benefícios do Profut, o parcelamento da dívida seria cancelado e o valor total, devidamente atualizado, seria cobrado do clube. Além disso, ficaria por até dois anos sem receber qualquer incentivo fiscal ou recursos públicos”, explica Nilo Patussi.

Parece evidente que colocar a casa em ordem passa por uma nova realidade financeira dentro do clube.