Dos milhares de jogadores que já defenderam a Seleção Brasileira em toda sua história, apenas 18 guardam em casa a medalha de ouro de uma edição dos Jogos Olímpicos; entre eles, o goleiro Uilson Pedruzzi, do Atlético. A conquista, inclusive, completará três anos na próxima terça-feira (20). Contudo, apesar de figurar neste seleto grupo, o arqueiro batalha recentemente por uma vitória bem mais importante.

Lutando para deixar o Departamento Médico do alvinegro há quase dois anos, devido a um problema no ligamento do joelho, já solucionado, Uilson tem como maior sonho voltar a atuar. Com previsão de retorno às atividades com bola para outubro, o prata da casa, nascido Nanuque, mas criado em Mucuri-BA, também torce para que tenha o contrato – este prorrogado por conta da lesão – renovado com o clube que defendeu nas categorias de base e em 13 oportunidades como profissional.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, o goleiro de 25 anos conta o drama vivido após uma lesão muscular na coxa, em 2017, fala como tem sido a recuperação, relembra a conquista na “Rio-2016” e revela os projetos futuros.

Como tem sido essa rotina longe da bola? 

Rapaz, está meio difícil. Não vejo a hora de poder voltar a jogar. Tenho um ano e alguns meses no departamento médico e devo estar 100% para voltar quando completar dois anos. Como estou na reta final, trabalho em dois períodos. De manhã, faço meus trabalhos de aeróbico ou musculação; à tarde, faço um revezamento. Os fisioterapeutas estão fortalecendo meu trabalho, e isso me faz ter confiança maior a cada dia.

Qual foi a parte mais complicada até agora? 

Então, cara, eu estava numa situação meio complicada. Eu estava jogando tranquilamente naquela época, aí sofri um estiramento na coxa direita. O doutor me pediu para fazer um exame, e ele (o exame) pega um pouco o joelho também. Na ressonância, deu uma lesão pequena, mas apontou também que eu não tinha o ligamento cruzado. Estava jogando normalmente, e isso foi um grande baque para mim.

Você vinha de um título olímpico, inédito para o Brasil e era o substituto imediato do Victor. Isso foi o que mais te machucou?

Era o melhor momento da minha carreira. Estava brigando pelo segundo lugar no Atlético, pois o Giovanni estava com o contrato encerrando no clube. Estava super esperançoso em poder ter uma sequência maior de jogos, sabe? Eu fiz a primeira cirurgia e achei que voltaria bem. Cheguei a fazer o período de transição, no final do ano passado, mas, quando fiz a outra ressonância, o ligamento que foi colocado no meu joelho não existia mais. É uma situação rara de acontecer. Fiz diversos exames e não deu nada em questão de bactéria ou outra coisa. 

E o período da segunda cirurgia? Tem medo que a ressonância final aponte o mesmo resultado da primeira?

Poxa, esse foi muito mais difícil. Descobri que teria que operar de novo. Agora faço acompanhamento de dois em dois meses. Mas agora está tudo certo, meu joelho tem evoluído bem, graças a Deus. Estou muito otimista. O ligamento está bom e firme. Estava vivendo essa expectativa, pois um jogador sem ligamentos tem chances mínimas de ser contratado por um grande clube. 

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Isso vem desde quando? Sentia dores?

Eu fiz uma cirurgia em 2012, quando ainda era da base. Acho que desde aquele ano até 2016, eu estava atuando sem o ligamento cruzado. De vez em quando o joelho inchava, mas eu fazia muito reforço na academia, então isso me ajudava muito.

Qual o papel da psicologia nesta recuperação?

Fiz um trabalho bem específico com a Michelle (Rios), que é a psicóloga do Atlético. Foi um dos principais fatores que me fizeram acreditar e não perder o foco. Graças a Deus, hoje estou muito feliz. Está dando tudo certo. Se Deus permitir, em breve, quem sabe em dois meses, eu esteja de volta.

Você chegou a ter depressão?

Não, cara. Eu sou um cara que acredito muito no propósito de Deus. Claro que fiquei muito triste, em alguns momentos foi difícil! Mas acredito que a psicologia é um ótimo instrumento para lidar com esses momentos de dúvidas, diariamente ia à psicóloga para controlar essa parte emocional. Sempre tive muita fé. Acredito que eu estava passando aquilo para um amadurecimento pessoal. Foram momentos difíceis, mas acredito que tudo tem um propósito.

Qual o jogador que mais esteve ao seu lado nesses momentos?
Poxa, o cara que mais esteve comigo e que me ajudou muito foi o Carlos César. É um cara cristão e super do bem. Ele sempre estava comigo e não me deixava cair. Ele foi essencial para mim, sabe? Ele teve lesões e também uma grande experiência de vida. Tenho que destacar também o apoio incondicional dos meus pais e da minha noiva, Daniela. Eles foram fundamentais para que eu não abaixasse a cabeça.

Qual seu maior sonho hoje?

Olha, só de pensar em estar voltando a treinar já é um grande sonho, cara. Creio que daqui uns dois meses eu volto a treinar. Estou em fase final de recuperação. Meu maior sonho hoje é voltar a jogar e, quem sabe, renovar meu contrato com o Atlético. Me sinto muito bem aqui. Quero seguir minha vida.

Aquela medalha que você conquistou no Rio, há quase três anos, te ajuda a aumentar sua auto-estima e faz lembrar do seu potencial?

Ajuda demais! Me lembro também da Copa do Brasil de 2014, em que eu estava no grupo, e dos outros títulos que eu tenho. Me recordo daqueles momentos marcantes. Sempre olho minhas medalhas e meus troféus, e isso me motiva a acreditar que tudo é um propósito de Deus e que eu vou conseguir me reerguer e fazer o que amo. E quero mais títulos.

Algum companheiro do título olímpico te procurou?

Não, não tive nenhum contato com meus companheiros de Seleção. Sou um cara mais reservado e não gosto muito de ficar falando sobre isso; e muitos deles não devem saber que tive essas lesões. Evito ao máximo falar disso.

E o Victor? Conversa muito com ele?

Ah! O Victor é fera, né! Ele sempre me pergunta como estou e me dá forças para acreditar. É um goleiro experiente e já passou por diversas situações também. O Ricardo Oliveira também sempre conversa comigo, fala das lesões que teve no joelho também e me incentiva. O Leandro Donizete, que está tratando lá no Atlético, também é muito importante. Quando um está desanimado, o outro fica no “vamos, vamos!”.

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