Condenado por tentativa de homicídio e tráfico de drogas, Everson Moreira, 28 anos, o Jagunço, viveu as mazelas de uma prisão brasileira. Recuperado, graças ao esporte, ele já conheceu as belezas de seis países da Europa. “E quero muito mais”, avisa, orgulhoso, o professor que rodou o Velho Mundo para dar aulas e cursos de capoeira.
 
“O esporte conseguiu me resgatar. Eu estava no fundo do poço, perto de morrer em um conflito com a polícia. Perdi muitos amigos. Só de contar eu fico arrepiado. Hoje ajudo a recuperar jovens”, relembra emocionado este paulista de alma mineira.
 
Nascido em São Paulo, Jagunço, nome de batismo na capoeira que nada tem a ver com seu passado, também morou em Januária, município do Norte de Minas, onde teve os primeiros contatos com a Capoeira Gerais, do Mestre Mão Branca.
 
Aulas de folclore
 
A paixão pela arte veio ainda mais cedo, na escola, durante as aulas de folclore. “Vi uma apresentação de um grupo da minha sala e adorei. O ritmo e o som do berimbau junto com o gingado me conquistaram”, relembra o professor.
 
Como o pai tinha preconceito e achava que capoeira era coisa de malandro, Jagunço frequentou as aulas escondido durante praticamente um ano, sem o conhecimento do mestre e da família. 
 
“O mestre só aceitava crianças com o consentimento dos pais. Mas minha vontade era tanta de aprender que eu sempre ia enrolando. Eu dizia que meu pai ia lá conversar, mas ele nem imaginava isso”, brinca o capoeirista.
 
Sonho interrompido
 
A volta para a capital paulista interrompeu o sonho daquele jovem. Sem condições para continuar jogando capoeira em São Paulo, Everson acabou se perdendo. 
 
“Eu morava na periferia e praticamente todos os meus amigos viviam no mundo do crime. A minha entrada foi inevitável. Por mais que eu tentasse evitar, eu não conseguia. Quando saí da prisão, vim para Belo Horizonte procurar o Mão Branca e pedir ajuda. A capoeira salvou minha vida. Mudei da água para o vinho”, assume o professor, que tem Mão Branca como grande responsável pela guinada na sua vida.
 
Mundo do crime
 
Totalmente recuperado, Everson não tem nenhum constrangimento em falar de suas passagens pelo muito do crime. Muito pelo contrário. 
 
“Hoje eu sou orgulho para muita gente, inclusive para o mestre. Não só a capoeira, mas todos os esportes ajudam as pessoas a se encontrarem na vida. O esporte é um instrumento essencial na vida das pessoas”, garante.
 
Atualmente, ele faz parte do grupo de professores da Capoeira Gerais, uma das escolas mais conceituadas do país, com mais de 30 anos de fundação. O grupo tem representantes em mais de 20 países e 60 cidades.
 
Seu presidente e fundador, Mestre Mão Branca, é o criador da Federação Mineira de Capoeira e um dos criadores da Confederação Nacional de Capoeira. Assim como aconteceu como Everson, muitos outros jovens da escola trocam o mundo do crime pela gingada da capoeira.