No último domingo, as torcedoras gremistas Nicolli e Juliana protagonizaram uma cena inédita na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, no intervalo do Gre-Nal: o pedido de casamento entre um casal homoafetivo. A cena sublinha a presença de torcedores LGBT nos estádios brasileiros. Neste domingo, o Estado vai apresentar uma reportagem especial sobre esse tipo particular que reivindica o direito de torcer nas novas arenas sem o risco de discriminação e violência. Curiosamente, Nicolli e Juliana torcem para o time que teve a primeira torcida gay do Brasil: a Coligay. Quase 30 anos atrás, a torcida levantou uma discussão que ainda está em pauta no futebol brasileiro.

A história da Coligay começou em abril de 1977. Inconformado com a falta de visibilidade dos homossexuais na sociedade e preocupado com a falta de animação da torcida do Grêmio nos estádios de futebol nos anos 1970, o cantor e empresário Volmar Santos resolveu fundar uma torcida gay. No dia 10 de abril de 1977, nascia a Coligay, a primeira torcida homossexual do Brasil.

Vestindo túnicas, calças justas ou adereços espalhafatosos e levando faixas, instrumentos musicais e bandeiras, os seguidores da Coligay fizeram muito barulho nas arquibancadas. E ganharam destaque nacional. A revista Placar publicou a existência da Coligay pela primeira vez em 27 de maio como "o mais recente golpe no lendário machismo gaúcho". O nome foi inspirado na boate de Volmar chamada Coliseu, que se tornou o ponto de encontro para seus 60 integrantes.

"A maior contribuição para as torcidas organizadas, para combater esse preconceito contra viado, usando um linguajar bem brasileiro, foi dar a cara para bater. Nós vivíamos uma ditadura. Fomos muito homens para entrar em um estádio e começar a pular, dançar e cantar para torcer pelo Grêmio. Tivemos a hombridade de ser o que somos e torcer pelo nosso time", afirmou o cabeleireiro Sergio Cunha, um dos primeiros integrantes da torcida.

Dirigentes, jogadores e membros de outras torcidas organizadas do Grêmio rechaçaram a Coligay. Foi um escândalo. O Brasil vivia um momento de conservadorismo com a ditadura militar. A exemplo de outras cidades, Porto Alegre possuía uma Delegacia de Costumes, que monitorava as ações da Coligay por meio do setor de "meretrício e vadiagem". A onda de repressão à homossexualidade incluía batidas policiais em locais frequentados por pessoas LGBT e detinha quem "atentasse contra a moral e os costumes vigentes".

Para se proteger, Volmar ensinava aulas de caratê para que os membros da torcida se defendessem de eventuais agressões homofóbicas. Por outro lado, a torcida nunca teve um membro preso por manifestar publicamente a sua orientação sexual.

"Havia preconceito e vai haver sempre. Quando o presidente do Grêmio, Hélio Dourado, nos viu no estádio, ele ficou pasmo. Depois foi falar com a gente e nos apoiou nas excursões. Por outro lado, alguns torcedores olhavam 'atravessado' para a gente. Ficavam apavorados e não deixavam as crianças ficarem próximas. No interior, a gente descia na praça principal com uma banda. Quando a gente passava, as famílias entravam, mas ficavam olhando pelas frestas das portas e das janelas. É o direito de ir e vir de todo mundo", disse Sergio Cunha, aos 65 anos.

Com a fama de pé quente, pois foi criada no ano em que o clube encerrou um jejum de oito anos, a torcida presenciou as conquistas gremistas de dois Campeonatos Gaúchos, um Campeonato Brasileiro, uma Copa Libertadores e um Mundial Interclubes, em 1983, ano em que a torcida encerrou as suas atividades depois de seis anos. Apesar da vida curta, a Coligay inspirou outras associações entre torcedores homossexuais como a Flagay, do Flamengo, que foi criada em 1979 pelo carnavalesco Clóvis Bornay. A mais visível torcida organizada homossexual de um clube virou livro do jornalista Léo Gerchmann sob o título "Coligay Tricolor e de Todas as Cores".

As torcidas LGBT viveram um longo hiato nas arquibancadas brasileiras após o fim da Coligay, a mais expressiva. Em 2013, grupos encabeçados pela Galo Queer, do Atlético-MG, começaram a articular uma retomada das torcidas LGBT, principalmente nas redes sociais. Para a professora Luiza Aguiar dos Anjos, autora da tese de doutorado "De 'são bichas mas são nossas' à 'diversidade da alegria': uma história da torcida Coligay", defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a atuação da pioneira torcida gremista foi bem diferente do que fazem os movimentos atuais.

"A Coligay se fez notada, com uma performance que a diferenciava de outras torcidas. Décadas atrás, eles conseguiram colocar em prática algo que a gente não consegue hoje. Atualmente, nós encontramos uma resistência mais violenta", disse a especialista.

Olhando para os contextos de ontem e hoje, a professora formula uma hipótese sobre a atuação política das torcidas. "Naquele momento, era um contexto teatralizado, uma festa nas arquibancadas. Eles estavam reivindicando a presença nos estádios. Hoje, há uma politização maior. A população LGBT quer ter sua cidadania reconhecida, o que significa uma questão mais ampla. Além disso, a Coligay apareceu antes do surgimento das torcidas organizadas como existem hoje", afirmou Luiza Aguiar dos Anjos.

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