Construir um novo estádio e manter um time profissional forte. Há algumas décadas, conciliar as duas coisas no futebol brasileiro era inviável. E optar por uma casa própria (ou nova) para mandar os jogos um sinônimo de preocupação para o torcedor no curto prazo. Afinal, mesmo abaixo dos montantes necessários atualmente para erguer uma arena, era necessário bancar obras para levantar estruturas muitas vezes capazes de receber 100 mil espectadores, ou mais. E não havia a ajuda de recursos avançados de marketing capazes de amortizar um gasto elevado. O que começou a mudar com o crescimento do esporte como investimento. Para o alívio do torcedor atleticano, o sonho do estádio próprio, com a Arena MRV, não deve interferir no dia a dia do campo em termos de caixa para reforços.

Galo doido

Galo Doido 'fiscaliza' as obras da nova casa atleticana, com previsão de conclusão em outubro de 2022

Com previsão de conclusão em 2022, a nova casa alvinegra, no bairro Califórnia, tem custo estimado em R$ 560 milhões. Que, em sua maior parte, são oriundos da venda de metade do Diamond Mall (shopping construído no que era o Estádio Presidente Antônio Carlos) à Multiplan. A MRV adquiriu, por R$ 60 milhões, os naming rights do complexo por 12 anos. O terreno, orçado em R$ 50 milhões, foi doado pelo empresário Rubens Menin e a venda de camarotes e cadeiras cativas ajudará a garantir o montante. Além disso, há toda uma expectativa de arrecadação com eventos.

Outros exemplos

A tendência ganhou força no Brasil a partir da primeira década do novo século, quando vários clubes optaram por atualizar suas instalações. O Grêmio deixou o Estádio Olímpico Monumental para contar com uma nova arena. Que saiu do papel graças a uma parceria com a Construtora OAS, que financiou 55% da obra em troca de participação nos lucros e da posse de terrenos para empreendimentos na região.

Já o Palmeiras transformou o Parque Antarctica no Allianz Parque por meio de acordo com a WTorre. A construtora se tornou a administradora do espaço por três décadas - o alviverde tem direito a 100% da bilheteria dos jogos de futebol, enquanto o parceiro lucra com os demais eventos; comercialização de camarotes e estrutura de apoio (restaurantes/lanchonetes). A previsão é de que o clube assuma o controle total do espaço ao fim do contrato.

 

Por muito tempo, sonho da casa
própria foi sinônimo de jejum

Um dos melhores exemplos de adeus às conquistas nos gramados em nome do sonho da casa própria é o do São Paulo, com o Estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi). Foram necessários 18 anos para que o terreno, no que era uma área afastada do centro da capital se transformasse num dos palcos mais tradicionais do futebol brasileiro.

Obrigado a financiar as obras por meio de campanhas de vendas de cadeiras cativas; de adesão de novos sócios e da obtenção de linhas de crédito junto a bancos públicos, o Tricolor viu sua sequência de títulos se encerrar com o Campeonato Paulista de 1957, para ser retomada apenas em 1970, ano em que o estádio foi inaugurado em sua configuração atual, com todo o anel de arquibancadas e cadeiras. E no qual foi possível contratar jogadores como o meia Gérson, tricampeão mundial no México com a Seleção Brasileira; e os uruguaios Pedro Rocha e Forlán. Foram gastos cerca de 250 milhões de cruzeiros, o que, convertido em reais, com a inflação do período, daria um total de R$ 11,2 milhões.

Situação semelhante à vivida pelo Internacional, com o Beira-Rio. De 1956 - ano do início do aterramento de uma área do Rio Guaíba -, até a inauguração, no início de 1969, o Colorado conquistou apenas um título gaúcho (o de 1961), com o Grêmio levando a melhor no período - um penta e um hepta. Nos primeiros anos, o clube chegou a fazer campanha para que associados doassem material de construção para as etapas iniciais das obras. Situação inversa à vivida pelos rivais quando o tricolor gaúcho resolveu levantar o Estádio Olímpico Monumental. De 1949 a 1956, foram os gremistas a viver um jejum de conquistas estaduais.