Se afirmar como clube mais democrático do país é a missão que o Bahia assumiu nos últimos cinco anos e que tem dados notórios resultados, seja nas redes sociais, com suas ações afirmativas, ou na Fonte Nova, palco dos duelos e também da mistura de classes e gêneros. Coordenador do Núcleo que planeja as iniciativas de cunho social no Tricolor, Tiago César afirma que um clube pautar a sociedade e os conflitos sociais não é nada mais nada menos do que um ato de coerência ao DNA popular do mesmo e de reciprocidade com seus torcedores.

“Cuido da estratégia como um todo. Só não passa pela minha atuação o futebol. Esse núcleo de ações afirmativas foi implementado por mim e por Nelson Barros, que também é colaborador do clube. Este setor é composto por voluntários e tem a presença de Pis Santos, que é um diretor de cinema, que, sozinho, dá conta de toda produção audiovisual”, conta ao Hoje em Dia.

“Temos um número indeterminado de colaboradores e pessoas que estão ligadas a movimentos sociais, a universidades ou a grupos que precisam de um espaço de debate”, acrescenta.
Atualmente, o Bahia se destaca por ser o clube que mais debates promove, principalmente tendo as redes sociais como ferramenta mais utilizada. 

Como um assunto se torna uma peça para as redes sociais e como isso é discutido?

Existe uma linha de curadoria que prioriza abordar temas sociais, relevantes numericamente, mas pouco representados politicamente. Se a gente pensar na cidade de Salvador, por exemplo, há uma maioria negra na população e uma minoria negra no parlamento. Esta curadoria atua de forma permanente e com temas ordinários, por isso é impossível a gente passar por novembro sem falar do combate ao racismo, passarmos por abril sem abordar a luta indígena e por aí vai. Contudo, como o que aconteceu agora no desastre ambiental, acontecem coisas que incluimos na pauta, de maneira muito orgânica e no improviso. Como isso é uma busca íntima do clube e de quem trabalha para isso, naturalmente não é necessária uma rotina.

Vocês se preocupam ou temem que determinada campanha passe uma mensagem oposta a que o clube quis transmitir?

Costumo dizer que é como um jogo de pega varetas. Trabalhar com ação social e com disputas de narrativas de grupos sociais, hoje no Brasil, é algo muito delicado. Bandeiras humanitárias viraram políticas. Por conta disso, há uma inacreditável rejeição. É muito complicado sim de se fazer. Não nos furtamos ao abordar, mas, se a gente escorrega um pouquinho, somos criticados. Porém, creio que conseguimos passar bem por isso até o momento. 

Quando o Bahia passou a enxergar que as campanhas estavam ganhando o país? E quando viram que isso poderia ser um marketing positivo para o clube?

No Novembro Negro do ano passado. Foi um divisor de águas para todos nós, embora, antes disso, a gente já tenha feito umas outras intervenções. Fizemos uma entrada em campo com índios, uma pesquisa sobre assédio no futebol, mas quando percebemos o canhão de comunicação e o poder de transformação que o clube poderia oferecer foi no Novembro Negro.

Você acha que os torcedores já demonstram mudança de postura também nas arquibancadas da Fonte Nova?

Não tenho dúvida alguma de que mudou. Recebemos narrativas de mulheres que encontram em outras o apoio para ir ao estádio. Encontram em alguns homens o apoio quando acontece um sinal de qualquer opressão à presença delas. Há uma rede de proteção e apoio na Fonte Nova. A partir do momento que popularizamos nosso plano de sócios, também damos uma nova cor à Arena. Há três anos, era uma Fonte Nova branca; hoje, tem as cores da Bahia. Temos também a criação de uma torcida organizada LGBT; estão em constituição num grande grupo de WhatsApp e, aos poucos, vão ocupando o espaço durante os jogos.

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E a causa do óleo nas praias nordestinas? Qual o papel do Bahia nesta situação? O clube em algum momento foi acusado de ter interesses partidários nela?

Recebemos ligações de pessoas ligadas à Câmara dos Deputados, à Marinha, ao Mirante e de outras que estão envolvidas no problema ambiental do Nordeste, que acionaram o Bahia para, de alguma maneira, ajudar e interagir. Passamos a ser atores deste processo. Hoje, o Brasil está polarizado e num acirramento que sai da razoabilidade. O Bahia nunca se colocou diante de causas partidárias. A torcida é composta por eleitores de todas as correntes possíveis. Estamos falando de causas humanitárias. Tudo é um pacote de enfrentamentos de uma sociedade desenvolvida. 

O Bahia tem ganhando o carinho e o respeito de outras torcidas pelas aparições tão marcantes nas redes. Como vocês enxergam este alcance?

O nordestino sofre por dois motivos. O primeiro deles, pela estrutura econômica dos nossos clubes em relação aos do eixo. Desportivamente, sempre estamos colocados de um lado da tabela que não disputa as grandes conquistas. Para além disso, somos a maior extensão territorial na Série A; temos uma distância muito grande do baiano que mora no oeste, por exemplo. Isso tudo gera uma necessidade de um levante e de nos reafirmar como povo e a convidar outros nordestinos para torcer por seus times e participar da vida deles.

Qual o diferencial do Bahia em relação aos outros clubes do país?

A democracia no Bahia se estabeleceu há cinco anos, e não pode existir um clube democrático e popular que não esteja direcionado às causas de sua torcida. O clube, em regra, tem o discurso de convidar as pessoas a lhe apoiarem; mas por que o clube também não apoia as pessoas? O fato de sermos um clube que pauta a sociedade e os conflitos sociais não é nada mais nada menos do que um ato de coerência ao DNA popular do clube e de reciprocidade com a torcida.

O que difere o marketing de uma ação de cunho social? É preciso tomar cuidado para não soar como ‘autopromoção’?

O marketing é uma ação que conversa com toda a empresa. Ele não fica apenas no campo da comunicação. Então, tudo é marketing. Se a gente vai a um asilo, por exemplo, isso está sim direcionado ao campo do marketing. Isso não significa que não é uma busca orgânica e verdadeira. A possibilidade de entender as ações do Bahia como utilitaristas existe naturalmente; todavia, entendemos que esta interpretação não possa nos estabelecer limites, se não paramos e não se faz nada. Preferimos enfrentar todas as narrativas e problemas sociais que existem no país. Fizemos, em três dias, 91 exames de DNA na nossa loja oficial. Conseguimos colaborar de forma efetiva com os problemas.

Outros clubes do país têm te procurado para desvendar as estratégias do Bahia?
Muitos. Os executivos dos clubes têm muita dificuldade de emplacar estas ações porque as diretorias não entendem o futebol como algo que permeia o campo do debate na sociedade. Isso, de certa maneira, interfere na viabilidade destas ações em alguns. É uma mudança continua.