Quase cem anos de fundação e uma missão do tamanho de sua história: gigante. Reconstruir o Cruzeiro não será tarefa fácil e demandará alguns anos para que o clube volte a respirar sem aparelhos. O trabalho dos gestores a partir do Núcleo Dirigente Transitório, que iniciou o processo de reconfiguração institucional e financeira da instituição após a renúncia de Wagner Pires de Sá, e agora passou o bastão para Sérgio Santos Rodrigues, pode durar uma década. Isso, levando-se em conta o cenário atual da economia e mudanças na estrutura organizacional até do próprio futebol brasileiro.

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Sérgio Santos Rodrigues aposta na interação digital e no apoio da torcida

Para tentar encurtar essa distância entre um clube pré-falido com mais de R$ 800 milhões de dívidas para um com cenário de administração profissional ao menos básica, a proposta não poderia ser outra: modernizar a gestão e ampliar as receitas do clube, algo que influenciará fora e também dentro de campo.

Desde que assumiu o cargo de presidente do Cruzeiro Sérgio Santos Rodrigues tratou de recuperar a imagem do clube, arranhada por má gestão, calotes em clubes e fornecedores, e investigações policiais. Uma das principais ações foi dar uma "cara" ao clube. E o rosto do Cruzeiro acabou se tornando o do próprio presidente. gregador, Sérgio Santos Rodrigues passou a se comunicar com a torcida em lives semanais que atingiram milhares de pessoas causando grande impacto nas redes sociais do clube. As "Lives do Presidente", nome dado à atração, foram assistidas por 700 mil pessoas. Isso sem contar o alcance total dos vídeos.

O Cruzeiro voltou a mobilizar positivamente suas redes sociais e fechou junho como o quinto clube com o maior ganho de seguidores no TikTok, onde foram registrados mais de 90% de novos seguidores, segundo levantamento recente do Ibope Repucom, que apresenta dados digitais dos clubes brasileiros. Só nessa plataforma foram 58 mil novos seguidores em junho (Veja arte). O clube também lançou uma campanha para aumentar inscrições no seu canal oficial do Youtube e em decorrência das transmissões ao vivo do presidente, foi possível ultrapassar a marca de 300 mil seguidores pela primeira vez.

"Todo mundo sabe da paixão que tenho pelos esportes norte-americanos, uso a NBA como referência, também o Barcelona, a nossa equipe de inovação teve uma ideia legal, teremos o rachão cinco estrelas no dia 18 de julho transmitido pelo Youtube pela primeira vez".
E é justamente essa criatividade que analistas de mercado apontam como uma das alternativas para o futebol brasileiro, que pouco diversifica suas receitas. "Hoje a única forma que os clubes têm para monetizar os torcedores são os sócios-torcedores. A questão digital dos clubes nacionais está muito atrás das cinco ligas principais americanas e dos cinco principais campeonatos do mundo. Eles estão anos luz à frente do Brasil em relação à internacionalização e digitalização, como produção de conteúdo, gameficação", afirma Gustavo Hazan, gerente de esportes da consuloria EY no Brasil.

Desafio

Uma das plataformas adotadas pela nova gestão celeste é tentar acabar com o "paitrocínio", com a dependência exclusiva de conselheiros abonados que chegam como salvadores da pátria por meio de trocas: dinheiro vem e porcentagens de direitos econômicos de joias da base vão.
"A gente quer construir parcerias, produtos novos que vão gerar renda para o Cruzeiro de uma forma diferente (...) Criatividade para arrumar dinheiro.

Para isso que temos nossa equipe de inovação, para discutirmos novos produtos, novas formas de se fazer dinheiro em curto, médio e longo prazo. O que pode ser receita recorrente, o que será produto específico para colocar no mercado de uma vez e conseguir dinheiro em curto prazo. Já está saindo muita coisa boa", explicou Sérgio Santos Rodrigues, em entrevista ao Hoje em Dia em junho.

Por isso o clube não pensou duas vezes em pedir também ajuda do torcedor. Em uma semana o Cruzeiro recebeu meio milhão em doação por meio de uma plataforma tecnológica parceira do clube, a Meep. Esse dinheiro vai ajudar no pagamento de dívidas na Fifa. "Eu sempre falo que o Cruzeiro só sairá do buraco se os nove milhões de torcedores abraçarem o time e contribuírem para sua ressurreição", afirma o presidente.

No campo

O recomeço na montagem do time também é impactante, já que o Cruzeiro saiu de uma folha salarial superior a R$ 15 milhões entre 2018 e 2019, para uma modesta linha de pagamento de pouco mais de R$ 3 milhões atualmente. Medalhões, nas duas últimas temporadas figurinhas carimbadas, agora dão lugar a jovens talentos.
Tal alteração passou a trazer ao clube joias a serem lapidadas. Como o atacante Gui Mendes e o meia-atacante Claudinho, ambos de 19 anos, e contratados de clubes de menor expressão como Ituano e Ferroviária-SP. Essa peças se juntam a outros jovens das categorias de base, como os volantes Jadsom, Pedro Bicalho e Adriano; os meias Maurício e Marco Antônio; e os atacantes Thiago, Riquelmo, Stênio e Weliton.
"O clube tem três frentes, a primeira de contratações de jogadores que estão mais prontos no mercado, mas não qualquer um; de perfil adequado para o clube e que agreguem valor em termos técnicos. A segunda são os nossos jogadores de base, que estamos promovendo e dando oportunidades, e tenho convicção, pois são ativos do clube que temos que valorizar. E uma terceira frente são jogadores como o próprio Guilherme (Mendes, contratado do Ituano), Claudinho, destaques em clubes menores, e aí temos a oportunidade de trazê-los, e podem dar retorno mais rápido ao clube. Temos sido felizes nestas escolhas", explicou o técnico Enderson Moreira.