Palmeiras e Cruzeiro poderiam ter vivido, há exatamente 50 anos, quando tinham verdadeiros esquadrões, a reta final da Copa Libertadores de 1970,  que foi disputada de fevereiro a maio daquele ano. Mas os dois clubes, campeão e vice da Taça de Prata de 1969, foram impedidos de participar do torneio pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD). No primeiro semestre, a prioridade foi a preparação da Seleção para o Mundial do México.

Dirceu Lopes Piazza Tostã Cruzeiro Seleção Brasileira

Dirceu Lopes, Piazza e Tostão participaram da preparação da Seleção para a Copa de 1970, mas apenas os dois últimos foram tricampeões no México

A Libertadores de 1970 foi a última sem clubes brasileiros, o que já tinha acontecido em 1966 e 1969. Mas o Cruzeiro brigou contra este cenário.
“O Cruzeiro queria jogar a Libertadores de 1970, mas a CBD, que era quem indicava os participantes do país, não permitiu por causa da preparação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo do México. Só o campeão brasileiro tinha a vaga garantida, mas a entidade sempre indicava o vice também, ao contrário de outras federações, que faziam um torneio para definir o segundo clube. O Felício Brandi fez o pedido, mas não aconteceu a autorização. Naquele ano, não foram disputadas competições oficiais no primeiro semestre”, revela Henrique Ribeiro, autor do Almanaque do Cruzeiro e um dos maiores conhecedores da história do clube.

Quando a Libertadores começou, em 11 de fevereiro, João Saldanha ainda era o treinador da Seleção e no dia 3 tinha convocado os cruzeirenses Piazza, Dirceu Lopes e Tostão. Duas semanas depois, com os cortes de Scala (zagueiro) e Toninho Guerreiro (atacante), foram chamados por ele Fontana e Zé Carlos, totalizando cinco os jogadores da Raposa na equipe Canarinho.

Dinheiro

Henrique Ribeiro revela que naquela época a Libertadores não tinha os atrativos financeiros atuais. Os clubes pagavam todas as suas despesas e não tinham cotas de televisão. Assim, disputar amistosos, principalmente para quem contava com muitos craques no time, era muito mais rentável.

E esta foi a opção palmeirense, num momento em que o clube estava ainda traumatizado com a decisão da Copa Libertadores de 1968, quando foi derrotado pelo Estudiantes, da Argentina.

“O Palmeiras tinha jogado a final em 1968 a um custo esportivo muito grande, e isso por causa do calendário, pois o torneio foi no meio do Campeonato Paulista, onde jogou com um time misto e ficou nas últimas colocações. Além disso, a decisão levantou uma discussão grande no clube em relação à remuneração. Houve muita agitação por causa de dinheiro mesmo, inclusive da transmissão da final, pois os direitos eram de uma TV argentina. Cada um ganhou em casa e haveria o terceiro jogo. O Palmeiras tinha o direito de escolher o mando de campo, mas houve uma interferência da empresa de transmissão para o confronto ser em Montevidéu. Não houve acerto de valores e isso fez as ações do clube em relação a competição, principalmente nos anos seguintes, serem de não dar tanta importância. Foram muitas circunstâncias”, explica Fernando Galuppo, historiador do Palmeiras.

Inclusive, durante o mês de maio, quando a Libertadores estava sendo decidida, o Palmeiras, sem Leão e Baldochi, que faziam parte da lista de Zagallo, que já tinha assumido a Seleção, fez uma  excursão à Europa.

“O Palmeiras fez uma grande excursão pela Europa em maio de 1970 e ela trouxe muito mais retorno financeiro ao clube. Jogou na Grécia, Itália, antiga Iugoslávia e uma parte da antiga União Soviética. Realmente a CBD barrou a participação dos clubes por causa de calendário, mas também havia descontentamento com a violência, principalmente de argentinos e uruguaios. Mas no caso palmeirense, havia um agravante, que era o trauma de 1968”, afirma Galuppo.