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O Cruzeiro tem atualmente na soma do próprio clube uma dívida fiscal e tributária na casa dos R$ 330 milhões. Isso, além do passivo trabalhista enorme discutido na Justiça do Trabalho, e dívidas na Fifa. Com um cenário tão inseguro juridicamente, tendo em vista que há diversos credores sedentos por qualquer quantia em dinheiro que se estabeleça nos cofres da Raposa, o departamento jurídico celeste traça planos estratégicos para evitar penhoras importantes e até confisco nas doações que os torcedores têm feito.

Verbas arrecadas por meio das ações "Operação Fifa", "Centavos Celestes" e até o dinheiro arrecadado por meio do Super Chat do Youtube poderiam entrar em eventuais bloqueios judiciais impostos a pedido da Justiça. E mais, a discussão em relação à venda da Campestre 2, cuja ideia do presidente Sérgio Santos Rodrigues é usar o dinheiro da alienação desse imóvel para quitar dívidas na Fifa, também poderia ser atrapalhada por confiscos futuros.

"Evidentemente, o passivo do clube é enorme, e existe passivo já em objeto de execuções. Nós temos feito negociações, buscando parcelamento do pagamento, e a gente elegeu aquilo que consideramos o passivo mais urgente, que é o relacionado às dívidas que foram objeto de cobrança no tribunal arbitral da Fifa. Esse é o passivo que pode matar o Cruzeiro", disse o superintendente jurídico da Raposa, o advogado Flávio Boson Gambogi.

Credores podem inviabilizar o clube?

O Hoje em Dia questionou Boson Gambogi sobre potenciais ações judicais para bloqueio dessas verbas por parte dos credores. Parte deste dinheiro já estão à disposição do clube após doações de torcedores.

"O Cruzeiro já perdeu seis pontos (na Série B de 2020 por dívidas na Fifa), se perder mais seis pontos, se o clube for rebaixado à Série C, nem a União, nem os ex-atletas do Cruzeiro, nem algum outro credor vão receber nenhum dinheiro do Cruzeiro. Você vai ter um clube sem capacidade de gerar receita para, de alguma forma, fazer jus a esse passivo existente. A ideia nossa é saldar esse passivo que tem essa consequência desportiva, e, na medida que formos aferindo receitas, negociar e pagar o passivo", explicou.

 

Modelo do Flamengo

Sérgio Santos Rodrigues, presidente da Raposa, quer seguir o modelo de sucesso adotado pelo Flamengo ainda na gestão Eduardo Bandeira de Mello. A partir de 2013, o Rubro-Negro carioca passou a controlar suas dívidas por meio de estudos e ações contundentes de gestão, realizados por grandes empresas de consultoria. De lá para cá, a equipe que tinha mais de R$ 700 milhões em dívidas, controlou seus débitos, aumentou receitas, equacionou suas contas, e a gestão Rodolfo Landim colhe frutos com títulos de grandiosa expressão. 

"Como o presidente Sérgio disse na live de quinta-feira (nona transmissão ao vivo, na semana passada). Ele citou o exemplo do (Eduardo) Bandeira de Mello (ex-presidente do Flamengo), que foi negociar com a Fazenda Nacional, não negou a dívida, e essa é a nossa postura. Negociar individualmente com cada pessoa, reduzindo sobremaneira os custos do Cruzeiro, porque ao mesmo tempo que fazemos negociação, o que se vê não é o Cruzeiro abusando de luxos, pagando salários milionários, contratando jogadores. Não, o Cruzeiro não está fazendo nada disso, o Cruzeiro está cortando sobremaneira sua folha e já reduziu quase quatro vezes o que era até dezembro. Com a compreensão dos credores nós vamos, de alguma forma negociando, e a medida que formos auferindo receitas, e a pandemia nos prejudica bastante, vamos buscar a solução desses débitos individualmente a partir de negociações individuais", frisou. 

Dívidas enormes

Em 2019 o défict nas contas do Cruzeiro de acordo com o balanço contábil do clube foi de R$ 394 milhões, número que assustou grandes especialistas do mercado. Há anos o clube acumula problemas no fechamento das contas anuais, tanto que apenas em 2012 apontou superávit ao fim de uma temporada. A dívida da Raposa segundo os números oficiais ultrapassa R$ 800 milhões. E é isso que gera tamanhas tentativas de bloqueios jurídicos nas contas cruzeirenses.

"Essas penhoras, o meu escritório tem os caminhos para acompanhar tudo. Nós temos softwares, aplicativos para acompanhar toda movimentação de processos. Nós vamos negociar com os credores, mas te falo como advogado tributarista, temos os caminhos para evitar que aconteçam penhoras surpresas. Estamos tendo cuidados para evitar esse tipo de situação no Cruzeiro. Garanto, é muito difícil acontecer uma penhora surpresa", garantiu o advogado João Paulo de Almeida Melo, que trabalha em causas tributárias a favor do Cruzeiro.

"Estamos buscando alternativas e todos estão vendo: Operação Fifa, todas as outras ações relacionadas à live, novos patrocinadores. Enfim, estamos buscando solucionar esse passivo mantendo o Cruzeiro ainda vivo, respirando, para que possa pagar essas dívidas", explicou Flávio Boson Gambogi.