Homenagem ao coadjuvante

Luciano Luppi / 17/07/2015 - 08h04

É bastante comum, durante as cerimônias de entrega de prêmios para teatro, ouvirmos o apresentador ou apresentadora dizer: “– E o prêmio para o melhor ator coadjuvante vai para...”. Em seguida, a comemoração. Coadjuvante é a pessoa que ajuda, auxilia ou concorre para um fim comum. No teatro é aquele que dá suporte, contracena com os atores responsáveis por desenvolver a trama principal da obra. Muitas vezes é difícil identificar quem é coadjuvante, pois tudo se baseia em conceitos subjetivos. De qualquer forma, normalmente, os coadjuvantes são relegados a um patamar insignificante.

E isso acontece não apenas no teatro como em quase todas as atividades humanas, nas sociedades marcadas pela excessiva competição e a busca pelo sucesso a qualquer preço. Parece que estas comunidades adotaram a crença de que o que importa é ser o primeiro, o vencedor, o principal. Conheci pais que puniram o filho por ele ter ficado em segundo lugar, e não em primeiro. É raro algum torcedor de futebol vibrar com o time conquistando o segundo lugar no campeonato. Vivemos uma verdadeira epidemia de seres humanos correndo em busca de se tornarem vencedores e campeões.

Basta tirar o pé do acelerador, mesmo que um pouquinho, e logo veremos que o mais importante é vencer os próprios desafios, independentemente da sua posição no pódio. Ser um coadjuvante pode ser encarado como uma honra, uma vitória de quem se superou. No teatro, antigamente, usava-se a expressão “ator escada” para designar aquele que faz uma pergunta ou provoca uma reação no colega para que este conclua a cena e leve a plateia ao riso ou ao aplauso. E convenhamos, sem escada ninguém avança um degrau.

Sem coadjuvantes o mundo ficaria sem graça. O que seria de Cleópatra sem os seus dois maridos? O que seria de Zorro sem o seu cavalo? Rei Arthur sem os seus cavaleiros? Sherlock Holmes sem o caro Watson? Não teríamos Sancho Pança, o fiel escudeiro de Dom Quixote que vivia as mesmas aventuras sem as mesmas responsabilidades.

Em quase todas as histórias, ficcionais ou verídicas, sempre existe alguém que dá o apoio necessário para que o outro se destaque. Afinal, as histórias são como na vida real, vivemos em função do outro, sob o olhar do outro, trocando experiências com o outro. Como dizia Moreno: “ – Um encontro entre dois: olho no olho, face a face. E quando estiveres perto arrancarei os teus olhos e os colocarei no lugar dos meus, e tu arrancarás os meus olhos e os colocará no lugar dos teus. Então, te olharei com os teus olhos e tu me olharás com os meus”. Apesar de alguns receberam mais foco do que outros, sempre terá um outro olhar, secundário, coadjuvante, espreitando o mundo e as histórias que dele são contadas.

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