Sensibilidade

Luciano Luppi / 07/08/2015 - 07h34

Primeira cena: Abrigo São Paulo. BH. Refeitório. Um local estreito, com mesas de pedra e um pequeno espaço no fundo para colocar o equipamento de som e os três artistas que iriam se apresentar para os abrigados, moradores de rua. A plateia se ajeita nos bancos de alvenaria, entre ressabiada e curiosa, pois não sabia bem ao que iria assistir: a um show poético e musical, onde a poesia de autores como Carlos Drummond, Fernando Pessoa, Cecília Meirelles e outros grandes nomes da literatura seria mesclada às músicas de Gonzaguinha, Milton Nascimento, Gilberto Gil e do próprio grupo Voz e Poesia.

No grupo, havia uma certa apreensão, pois não tínhamos ideia de qual seria a reação a poemas e canções de conteúdos tão profundos e tocantes. Já estávamos preparados para mudar o repertório e tocar músicas mais agitadas e dançantes, caso a reação fosse de decepção. Não foi necessário. Percebemos o nosso preconceito, pois essa plateia formada por moradores de rua foi uma das melhores que já tivemos. O que demonstraram neste dia podemos resumir numa só palavra: sensibilidade.

Segunda cena: Monte Dourado. Pará. Uma outra apresentação de poesia e música, porém com foco na relação pais e filhos. Mais de mil alunos da rede municipal de ensino. Jovens de 10 a 16 anos. Local: quadra de esportes. Imaginamos que seria difícil, pelo perfil da plateia, formada por garotos e garotas da região amazônica com os hormônios à flor da pele, além do espaço com excesso de reverberação e convidativo ao extravasamento das energias. Foi fácil. Uma plateia silenciosa e com profundo respeito e educação pelo que estava sendo apresentado. Chegamos a ter dúvidas se estavam sob pressão de algum sistema autoritário. Qual nada! Depois da apresentação, foi uma fila enorme para tirar fotos e mais fotos, risos, brincadeiras e alegria pura e contagiante.

Terceira cena: grandes mineradoras da região próxima a Belo Horizonte. Intervenções poéticas em forma de consultas para os funcionários, na hora do almoço, no refeitório. O ator se apresentava, através de um microfone, e oferecia os seus préstimos: um leque de cartas para quem quisesse fazer uma consulta poética, uma pergunta mental e uma resposta que viria através de uma poesia e uma música cantada “à capela” por uma cantora.

Almoço, poeira, agito, conversas, risadas, ingredientes pouco indicados para acompanhar as poesias que seriam servidas ao pé do ouvido. Mas o prato foi saboreado com prazer pelos peões. Um deles, enquanto eu declamava um poema de Fernando Pessoa, começou a conversar comigo, levantando questões filosóficas sobre o que estava ouvindo, como se eu fosse o próprio autor daqueles versos. Naturalmente o engano não foi desfeito, pois o que mais importava era a atitude daqueles homens, que viviam de retirar do solo a matéria bruta e a alma lapidada com a mais pura sensibilidade.

“A alma lapidada com a mais pura sensibilidade”

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