O menino de Coronel Fabriciano, cidade do Vale do Aço, que sonhava em ser goleiro profissional desde a infância, tornou-se referência no Brasil, mesmo sem a camisa 1. Das noites em que se deitava às 19h e ficava até às 22h sonhando com as entrevistas à imprensa e com todo o glamour do mundo da bola ao árduo trabalho como um dos principais treinadores do país, Roberto Barbosa dos Santos, o Robertinho, encarou vários desafios.

Responsável por cuidar dos goleiros da Raposa desde 2010, o treinador de 45 anos recebeu de braços abertos o vice-presidente Itair Machado e fez o papel de revelar suas qualidades para quem não o conhecia quando chegou ao clube. Tudo por gratidão.

Nesta entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, Robertinho conta como iniciou a vida no futebol, relembra das ligações à cobrar para Itair, quando, pelo telefone público, pedia emprego no Ipatinga, fala da experiência com Bruno no Flamengo, diz como é a convivência e os desafios com Fábio, Rafael e demais goleiros do Cruzeiro, e muito mais.

Como começou a sua relação com o futebol?

Eu desde sempre gostei de futebol e sempre como goleiro. Nas peladas eu era sempre o primeiro a ser escolhido; era o melhor e o único que queria ir no gol era eu. Com 12 anos, já jogava bola no meio do adulto. Menino do interior, muito pobre, família bem humilde. Eu tinha um vizinho e, com 13 anos, ele marcou um teste aqui no Cruzeiro. Estava indo até bem, estava treinando e quebrei o dedo. Chegou um goleiro de Ubá, de 1,92m, e eu tinha um metro e meio. Acabei dispensado por causa do tamanho. Fui para o Santa Tereza, onde joguei o campeonato de infantil. No ano seguinte fui para o América, onde joguei o campeonato de juvenil. Fizemos um jogo no Rio de Janeiro e uma pessoa do Bangú me convidou. Peguei minha mala, sem avisar ninguém, e fui pra lá. Joguei por um tempo no Rio, até no profissional. O Palmieri, que foi goleiro lá, me levou para o Botafogo de Ribeirão Preto. Depois recebi um convite para jogar no nordeste e acabei aceitando; para mim, um grande erro da minha carreira, porque deixei um grande centro que é São Paulo e ir para o interior de Alagoas. Fiquei por lá, casei, tive filhos e, como atleta, as condições eram ruins. Com salários atrasados, resolvi não seguir mais a carreira, por causa da responsabilidade com a família. Passou um tempo, eu estava na minha fabriquinha de camisas e escutei na rádio que a comissão do Asa, de Arapiraca, tinha toda ido embora. Resolvi pedir emprego, mesmo contra a vontade da minha mulher, e fui. Bati na porta, sem ninguém me conhecer, aí o Chiquinho, o técnico, me deu uma oportunidade. Foi na época que o Asa tirou o Palmeiras da Copa do Brasil. Eu ganhava 400 reais por mês e nunca recebi um salário integral. Assim foi o início da minha carreira, com muito sofrimento, mas eu acreditava na força do trabalho e no potencial que eu tinha, embora muito jovem. Sabia que com o tempo as coisas iam melhorar pra mim.

Como você chegou ao Ipatinga?

Eu estava na Catuense-BA, e o Ipatinga estava numa fase muito boa, disputando a Série C do Brasileiro e o Estadual. Descobri o telefone do Itair Machado e ligava para ele à cobrar, lá da Bahia, porque não tinha celular e nem nada. Usava o orelhão. E não é que ele me atendia? Lembro disso com muito carinho. Lá no passado, mesmo sem me conhecer, ele não virou as costas pra mim. Ele dizia para eu ir ligando que, assim que surgisse uma oportunidade, ele me dava uma chance. Cansei de lá, peguei minhas coisas e fui para Ipatinga. Chegando, vi o time parado. Acabou que o Itair e o Amarildo me contrataram e fui treinar os goleiros. No ano seguinte (2005) ganhamos o Campeonato Mineiro, que foi um privilégio. 

“O treinamento para o Fábio é diferenciado. Ele tem todo um tratamento especial, principalmente do Roberto. Ele vai esticar a carreira por muito tempo, principalmente se mantiver esta performance; o Fábio atravessa o talvez o melhor momento da carreira”
 

 

E a ida para o Flamengo, como foi?

Eu estava na casa da minha mãe cozinhando um macarrão, porque sou metido a cozinheiro, todo mundo esperando, e o telefone tocou. Naquela época eu já tinha celular (risos). Era o Ney Franco me falando para arrumar as malas que na manhã seguinte a gente ia para o Rio de Janeiro. Naquele dia, nem meus cachorrinhos comeram o macarrão. Ficou muito ruim! (risos) Fiquei muito ansioso, errei a mão, o tempero, e ninguém comeu. Não tinha condição de comer. Foi uma alegria muito grande e eu queria saber se era verdade mesmo. Fui numa Lan House e vi no Globoesporte.com que de fato o Ney tinha acertado com o Flamengo. Fiquei muito feliz porque era um grande sonho. Encarei com muita personalidade, mesmo com 32 anos. Ali vi que aquele era realmente era o meu caminho.

No Flamengo os goleiros já te olhavam com respeito, ou havia certa desconfiança?

Sofremos muito com isso. Toda comissão técnica. Éramos olhados com certo receio, uma certa desconfiança; o Ney menos por ser o chefe. A gente da comissão técnica às vezes era questionado por coisas absurdas. Mas foi muito pouco.

E a ida do Bruno, como se deu?

O Ney me falou que a gente precisava contratar um goleiro e me perguntou o que eu achava do Bruno. Eu falei que era pra contratar logo pois era um excelente goleiro. Ele estava encostado no Corinthians e estava sendo negociado com o São Caetano. Ele chegou, assumiu a camisa 1. Subi o Paulo Victor e o Marcelo Lomba também, que eram meninos da base.

fábio

O Bruno chegou pronto ou precisou ser lapidado?

O Bruno sempre foi bom, mas como todos sabem, não é nada fácil treiná-lo e lidar com ele, apesar de ter sido sempre muito respeito comigo e muito dedicado. Ele precisava de um comandante porque, se não pegasse no pé e cobrasse, ele não treinava. Fomos trabalhando, ganhamos campeonatos, ele se destacando, principalmente nas cobranças de pênaltis, e em 2009 ele foi uma peça fundamental no time que foi campeão brasileiro. 

No prêmio de melhor do Brasileirão de 2009, Bruno acabou perdendo a disputa para o Victor, hoje no Atlético. A reação foi de perplexidade. Você viu aquela cena de perto?

Fomos juntos naquele dia para receber aquele prêmio. A gente esperava que ele ganhasse, por tudo que fez. Não foi escolhido, ficou decepcionado e foi embora. Falei para ele que era normal, que era uma escolha e que, para nós flamenguistas, ele era o melhor.

Você que o incentivou a bater faltas e pênaltis?

Sim. O Bruno queria e tinha o dom. Eu o ajudei no que podia. Primeiro eu treinava para ele agarrar, como sempre fez, e depois, sempre que a gente podia, treinávamos as cobranças de falta. Eu queria inventar alguma coisa para auxiliá-lo nas cobranças. Eu mesmo fui lá, comprei dois pneus de moto, encapei os pneus com couro e pendurei os dois, um em cada ângulo da trave. Igual o “Gol Show” do Sílvio Santos (risos). O pessoal falava que eu era meio maluco.

Foi no Flamengo que você começou a inventar os seus métodos e instrumentos de trabalho?

Lá eu tinha uma condição inferior a que o Cruzeiro me dá hoje. Tive que adaptar muita coisa e fiz. Não tinha vergonha e sempre com o apoio do Ney. Inventei muita coisa. Prova disso é que, quando saí do Flamengo, tive que encostar um caminhãozinho e ele saiu cheio de equipamentos. Tudo que você imaginar.

Como foi a chegada ao Cruzeiro, há oito anos?

Vim contratado pelo Cruzeiro e não pela comissão técnica do Cuca, em 2010. 

E o primeiro contato com o Fábio?

Eu o achava um excelente goleiro e sempre falei isso com ele. Mas eu achava que se eu o treinasse ele seria melhor. Falei para ele que eu estava realizando um sonho de trabalhar no Cruzeiro e de principalmente de treiná-lo. Acreditava que ele podia se destacar mais no Brasil e não só isso; que poderia ser o melhor goleiro do mundo. Não queria que fosse apenas o melhor goleiro do Campeonato Mineiro.

Apesar de ter vindo do Flamengo, foi complicado convencer Fábio e os outros goleiros da sua metodologia?

Treinar um goleiro da bagagem do Fábio não era fácil. Principalmente ele. É um cara que não é só inteligente para defender. Ele é uma pessoa inteligente em todos os aspectos. É acima da média. No início, eu tinha que fazer o treinamento e dar uma explicação e dizer para que servia. Sempre tive muito apoio dele, desde sempre.

E o Rafael? Foi uma joia bruta que você lapidou?

Tive a sorte de conhecê-lo. Sempre gostei e sempre o admirei. Desde as categorias de base, eu sempre via no Rafael um goleiro de verdade. Um goleiro técnico, arrojado, com a cara do Cruzeiro mesmo. Ele é um goleiro elegante, de boa estatura e que enche o gol. É um cara tranquilo e ponderado. Sempre tenta resolver as coisas na base do diálogo e do treinamento; nada de força, de passar do ponto. Foi muito bem criado.

rafael

Pelo menos no Cruzeiro, aquela história de que goleiro tem que ser meio doido cai por terra, né?

Nunca concordei com isso. Acho que o goleiro tem que ser corajoso e ter uma tomada de decisão correta. Goleiro doido demais faz bobagem demais o tempo todo e fazer o que não deve. Uma hora se dá mal. Prefiro orientar meus goleiros a terem uma posição mais conservadora. 

Goleiro hoje é obrigado a sair jogando com os pés?

No passado não. Tanto é que era proibido atrasar a bola para o goleiro. Era para o zagueiro dar o chutão. Hoje, o goleiro é o 12º jogador e é melhor treinado. Não só defende, como consegue colocar o time para jogar, tendo uma boa leitura de jogo. Contudo, ainda estamos longe do ideal.

Neuer é o pioneiro disso no mundo? É o melhor da posição para você?

Não. Acho o Neuer um goleiro muito espalhafatoso, que aos meus olhos não é o melhor do mundo. Não sou maluco de dizer que não é um excelente goleiro, mas eu vejo outros melhores que ele. Para mim, o número 1 é o Oblak, do Atlético de Madrid. Cito também Buffon, Van Der Sa e Peter Cech como exemplos de ótimos goleiros. No Brasil, como não posso puxar sardinha para o lado do Fábio, vejo como o melhor de todos os tempos o Rogério Ceni, o mais completo. Dida também está entre os meus preferidos.

Fábio vai chegar ao milésimo jogo pelo Cruzeiro?


Eu gostaria, mas acho que ele precisa de três temporadas para isso. Chegar a dois, três anos eu não sei. Temos que avaliar. Não dá para fazer uma previsão assim, por mais que eu, o Fábio e o clube respeitemos esta questão da idade. Se ele joga até hoje em alto nível, é justamente por respeitar a idade. O treinamento para ele é diferenciado. Ele tem todo um tratamento especial, principalmente do Roberto. Ele vai esticar a carreira por muito tempo, principalmente se mantiver esta performance; o Fábio atravessa o talvez o melhor momento da carreira. 

E o que falar dos outros?

Temos o Rafael pronto para substituir o Fábio, o Lucas França que está emprestado para um time de Portugal e que não abriremos mão de forma alguma, além do Gabriel Brazão e do Vitor Eudes. Fatalmente estes serão os futuros goleiros do Cruzeiro. 

“Já recebemos muitas propostas pelo Rafael e eu fui a primeira pessoa a vetar. Ele é o nosso goleiro e não podemos abrir mão disso. Nós não fazemos goleiros para os outros, mas sim para nós. Não fazemos goleiro para vender ou emprestar”


O Cruzeiro já pensou em emprestar o Rafael em algum momento?
Já recebemos muitas propostas pelo Rafael e eu fui a primeira pessoa a vetar. Ele é o nosso goleiro e não podemos abrir mão disso. Nós não fazemos goleiros para os outros. Fazemos pra nós. Não fazemos goleiro para vender ou para negociar ou emprestar. Não adianta cobrir um santo e descobrir o outro, como diz o ditado. Hoje a gente fecha os olhos se o Fábio tiver um imprevisto. Ele já tem mais de 100 jogos pelo Cruzeiro e está pronto.

Por que o Fábio não figura nas listas da Seleção Brasileira? 
Eu acho que ele realmente merecia ter ido em alguns momentos, mas não foi escolhido. Acho que hoje também poderia ser convocado, mesmo com uma idade difícil para disputar uma Copa do Mundo. 

Você se considera o melhor do país atualmente? 

Acho que nós temos muitos bons profissionais por aí. Mas hoje eu sinto que todos os clubes que o Cruzeiro enfrenta, sem exceção, todos os treinadores de goleiros vêm falar comigo, comentando que acompanham meus treinamentos. Pedem meus materiais, pedem as medidas... Eu, sinceramente, não me vejo como o melhor, mas estou me tornando uma referência. Eu elevei o nível do treinamento de goleiros. Tirei da mesmice. Não me acomodo nunca. Preciso que o Fábio conserte algumas coisas que eu vejo que ele precisa melhorar, mesmo encerrando a carreira. O Rafael também. Um pouquinho que você descuida, você perde a condição física, a qualidade técnica, e o resultado vem no jogo. 

Seleção é um sonho? 

Gostaria um dia de trabalhar na seleção, mas entendo que meu trabalho mesmo é desenvolvido no clube. Acho que o treinador da seleção não treina muito e só consegue dar orientações. Se o Fábio fosse convocado, o responsável pela performance seria ele. Ele vai para lá preparado. Seria uma coisa marcante, mas nunca sofri porque não fui.