O chefe do Departamento Estadual de Investigação de Fraudes da Polícia Civil de Minas Gerais (DEF), delegado Agnelo de Abreu Baeta, revelou, em depoimento à Corregedoria-Geral do órgão, que se reuniu com o presidente do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, em mais de uma oportunidade. Inclusive, em datas anteriores à deflagração da “Operação Segundo Tempo”. Mas em momento algum, Agnelo confirmou que o teor dessas conversas foram para tratar sobre a operação.

Organizada pelo DEF, a operação foi um desdobramento de uma investigação que apura possíveis irregularidades praticadas pela antiga gestão do clube estrelado.

O depoimento de Agnelo, o qual o Hoje em Dia teve acesso, faz parte de uma averiguação da Corregedoria sobre supostas interferências externas no inquérito envolvendo a Raposa.

Uma carta apócrifa, escrita por um servidor ainda não identificado da própria Polícia Civil, que acusa Santos Rodrigues de interferir na ação da Polícia, inclusive oferecendo uma quantia para desarquivar um inquérito, foi vazada em abril, o que fez com que a Corregedoria entrasse em ação para identificar o autor e investigar o conteúdo do texto. 

No escrito, o emissário afirma ainda que a realização da “Segundo Tempo” foi um pedido de Sérgio, para desviar o foco de sua administração à frente do Cruzeiro, que o autor classifica como “incompetente”.

Depoimento

Na oitiva, em 19 de abril, o delegado nega que recebeu qualquer pagamento de Sérgio Santos Rodrigues, mas confirma que já participou de uma reunião com o mandatário na sede do Cruzeiro e que Sérgio já esteve no Departamento “umas três vezes”.

Sobre outra denúncia presente na carta, que acusa Sérgio e o Departamento de “requentarem um prato já exaurido”, se referindo ao desarquivamento de um inquérito anteriormente arquivado, para causar a impressão de novidade, Agnelo disse, no mesmo testemunho, que o caso foi reaberto após denúncia anônima, que afirmou que as supostas irregularidades apontadas incialmente, persistiam no Cruzeiro.

Onze dias após o depoimento, que revelou o contato de Agnelo com Santos Rodrigues, foi deflagrada a “Operação Segundo Tempo”, em que foram cumpridos cerca de 20 mandados de busca e apreensão em cidades de Minas, Bahia, São Paulo e Paraná.

Sobre esses mandados, Baeta preferiu manter sigilo, alegando que tais atos estão vinculados à inquéritos policiais e tratam de interesse da investigação.

Na primeira fase da apuração, concluída em agosto de 2020, a Polícia Civil indiciou o ex-presidente Wagner Pires de Sá, o ex-vice-presidente de futebol, Itair Machado, e o ex-diretor-geral, Sérgio Nonato, além de quatro empresários.

Em outubro, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) denunciou o trio e mais seis suspeitos de lesar o Cruzeiro.

No mês seguinte, a Justiça acatou a denúncia do MPMG e os nove viraram réus em ação penal. Os crimes em questão tratam de lavagem de dinheiro, apropriação indébita, falsidade ideológica e formação de organização criminosa.

O que dizem as partes

Procurada pelo Hoje em Dia, a Polícia Civil de Minas Gerais, através de sua assessoria de comunicação, se posicionou através da seguinte nota:

“A Polícia Civil de Minas Gerais informa que sobre os fatos citados em texto apócrifo com relato de denúncias sobre possíveis vazamentos de informações ligadas a investigações em tramitação no Departamento Especializado de Combate à Corrupção e a Fraudes, tais fatos já estão sendo apurados por inquéritos policiais instaurados na Corregedoria-Geral de Polícia Civil’.

O Cruzeiro também foi procurado pela reportagem e enviou uma nota a respeito do assunto. Confira abaixo:

POSICIONAMENTO - CRUZEIRO ESPORTE CLUBE

"O Cruzeiro reforça que tem acompanhado, dentro da legalidade e com naturalidade, as investigações dos órgãos competentes contra aqueles que protagonizaram uma das maiores e mais absurdas gestões temerárias em um clube de futebol no Brasil, com alguns de seus ex-integrantes já denunciados pelo Ministério Público por crimes. 

Além de deixar o Clube à disposição da Polícia Civil e do Ministério Público de Minas Gerais, a atual gestão do Cruzeiro tornou pública, há exatamente um ano, a nomeação do conceituado escritório Ariosvaldo Campos Pires Advogados para acompanhar todas as demandas criminais referentes à instituição. O advogado Frederico Pires é quem, em nome do Cruzeiro, tem acompanhado de perto e de forma mais constante todos os trabalhos.

Paralelamente, a diretoria executiva do Cruzeiro também acompanhou, em ocasiões diversas, o andamento das investigações, através do próprio presidente, Sérgio Santos Rodrigues, e do ex-Superintendente de Relações Institucionais do Clube, Deputado Léo Portela, com o intuito de colaborar em eventuais esclarecimentos e contribuir de forma geral com as investigações. Tanto que visitas à Delegacia da Polícia Civil foram inclusive informadas publicamente em redes sociais, pois é natural que a vítima (neste caso, o Cruzeiro Esporte Clube), maior interessada na resolução do caso, colabore e acompanhe de perto os desdobramentos.

O Cruzeiro, mais uma vez, ressalta que é a principal vítima em todo o imbróglio e não tem se furtado em auxiliar nas investigações dos órgãos públicos na busca implacável por justiça. O Clube espera que os potenciais culpados sejam devidamente punidos e, publicamente, mais uma vez, se coloca à disposição para quaisquer esclarecimentos que sejam solicitados pelo Ministério Público de Minas Gerais e pela Polícia Civil.

Por fim, o Clube aproveita para manifestar sua surpresa em relação àqueles que colocam em dúvida ou tratam o acompanhamento e as eventuais cobranças da atual gestão por uma resolução do caso como “algo negativo”. Única e principal vítima das ações temerárias praticadas pelos investigados/denunciados, o Cruzeiro confia nos órgãos competentes, mas também se sente no dever de colaborar e no direito de acompanhar de perto o desenrolar das investigações, respeitando o que pregam as leis."