Os cabelos grisalhos bem que disfarçam os apenas 36 anos de Rodrigo Marques Santana. Acionado pela diretoria do Atlético há pouco mais de 20 dias para suceder interinamente o demitido Levir Culpi, o técnico encarou o desafio como o maior dos oito anos de sua carreira. E, ao contrário do que muitos pensam, o paulista, nascido em Santos, não se assustou com a pressão por resultados.

Eleito o melhor treinador do Mineiro de 2017, quando comandava a modesta URT, de Patos de Minas, Santana seguiu o conselho do amigo Fábio Carille, técnico do Corinthians, e aceitou o convite para treinar a equipe sub-20 do Galo no ano passado. Naquele momento, ele deu um passo atrás, visando muitos outros à frente. O ônus da escolha, inclusive, surgiu antes do previsto por ele.

Mesmo com a perda do título estadual para o Cruzeiro e a precoce eliminação atleticana na Libertadores, Rodrigo segue prestigiado pela diretoria. Os 100% de aproveitamento nas duas rodadas iniciais do Brasileiro, inclusive, deram moral ao treinador.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Rodrigo Santana conta como soube que seria o comandante do Atlético após a queda de Culpi, fala qual a missão assumida, revela como foi o primeiro contato com o grupo, diz ter a certeza de um futuro brilhante, e muito mais.

Como você analisa este curto período em que está à frente do Atlético?

Bom, como eu posso te dizer... Cara, quando eu recebi o convite, a ligação para assumir nos dois jogos da final do Mineiro. Confesso que fiquei surpreso. O clima não era dos melhores. A gente sabia que tinha uma pressão muito grande, mas era a grande oportunidade da minha vida, que eu esperei por muito tempo. Sempre sonhei com isso. Fiz um trabalho no interior (URT), tive propostas para sair, mas resolvi apostar em ficar no Estado, ganhando menos para estar próximo do próprio Atlético e também da imprensa, que tinha acompanhado meu trabalho. Quando tocou o telefone, não tinha como negar, pois abri mão de muita coisa para estar aqui.

Quando o Marques te ligou para assumir a equipe principal, qual foi sua reação?

Fiquei uns três ou quatro dias conversando e tirando informações com alguns amigos treinadores, porque vi que muita gente estava tomando esse caminho. Da maioria dos treinadores da nova safra que chegaram às equipes grandes, ninguém vinha roendo osso em clubes do interior, mas sim nas equipes inferiores da casa. Acontecia que, nessas trocas, muitos ganhavam oportunidade. Eu estava há nove anos treinando, então vim para o Atlético para apresentar meu trabalho mais de perto. 

A pressão é grande?

Por tudo que já passei como treinador em clubes com pouca estrutura e muita carência dentro do elenco, vi que a dificuldade aqui é muito menor. Me sinto muito tranquilo. Por mais que machuque um (jogador) ou saia outro, eu consigo tirar de letra.

Como foi o primeiro contato do “treinador do sub-20” com os medalhões da equipe principal?

Olha, eu joguei e sei como é. Quando chega um treinador do sub-20, ainda mais eu que vinha de um time do interior, sabia que, não que os jogadores não iam dar atenção, mas que eu tinha que falar muito pouco e trazer apenas conteúdo e benefícios para eles. Ali tem campeão mundial, campeão da Libertadores e caras com sucesso na vida inteira. Quem sou eu para querer apontar dedo na cara ou cobrar? Vim para agregar, passar confiança num momento difícil, porque, por mais experiente que seja o cara, ele está um pouco abatido. Vim com essa ideia de fazer com que eles acreditassem. Nos últimos dois últimos anos, fui eliminado por eles; mostrei que joguei contra eles motivados e também desmotivados. Quando estão motivados, não tem pra ninguém. Então o segredo era retomar aquela alegria de jogar, pois respeito a história de cada um. Vim só para fazer leitura tática, trabalhar em cima do adversário, e eles foram entendendo a minha ideia. Mesmo com pouco tempo de trabalho até agora, já está sendo criada uma confiança, e estou muito satisfeito.

O título de interino tira a moral do treinador no vestiário? Isso te incomoda?

Externamente, esse título de interino repercute de forma de insegurança ou de um cara sem autonomia. A diretoria me deu total autonomia, por mais que seja o interino. Até brinco que todo treinador no Brasil é interino. O interino fica três quatro jogos; o treinador que é efetivado toma três pancadas e é mandado embora, da mesma forma. Levo de uma forma tranquila, sou funcionário do clube, estou executando da melhor forma possível. Se chegar um treinador hoje ou amanhã, vou procurar entregar (o cargo) de uma forma clara, para que ele desenvolva o melhor. O sucesso do Galo é o meu sucesso; esta bronca eu estou comprando e já comprei. Só quero tirar o time da pressão.

“Tenho uma certeza grande que eu vou chegar um dia... Tenho 36 anos apenas. Estou como treinador profissional há oito anos. No bom sentido, sofrendo. Já passei por algumas coisas que muito técnico ainda não viveu, com o mínimo do mínimo”



O Atlético deve apresentar reforços apenas com o novo treinador. Como é para o Rodrigo apenas roer o osso?

Olha, isso me ajuda a trabalhar mais ainda com o que eu tenho. O que sempre tive na minha vida foi improviso. Em todo campeonato que fiz, tive que criar. Sempre arranquei o melhor das minhas equipes com o que eu tenho. Claro que o treinador que chegar terá reforços e o período da Copa América para treinar; porém, quem for o escolhido terá roído muito osso para chegar com esse status ao clube. Estou pronto para o que der e vier. É a maior oportunidade da minha vida.

O Atlético tentou contratar o Tiago Nunes, treinador do Athletico-PR, que também foi promovido do sub-20 à equipe principal. Quando coloca a cabeça no travesseiro, espera o mesmo caminho?

Eu tenho uma certeza tão grande que vou chegar um dia. Eu tenho 36 anos apenas. Estou como treinador profissional há oito anos. No bom sentido, sofrendo. Eu já passei por algumas coisas que muito técnico ainda não viveu, com o mínimo do mínimo. Até para você entrar em casa e olhar para sua família e falar “caramba!”. Estou abrindo mão de muita coisa para alcançar meu sonho. Não sei se será agora, mas tenho certeza que meu momento vai chegar como treinador. Estou tranquilo. 

O que você extrai desse grupo do Atlético?

O que eu quero é arrancar esses caras da cama com motivação para treinar. No interior, é pegar um jogador, pai de família, que ganhava dois mil reais por mês, para receber o salário atrasado um dia, e fazer com que no final da competição ele fosse ganhar 10, 15, 20 mil. Não era só ser campeão. Eu queria ver o crescimento pessoal e me sentia realizado. Hoje, com jogadores mais experientes, minha ideia não é fazer com que ganhem mais; já são realizados, graças a Deus. Quero que tenham prazer em estender as carreiras. Quero mostrar que ainda existe treinador bom, que ainda existe coisas a aprender e que ainda existe portas na Seleção Brasileira. 

Existe alguma ambição para o jogo contra o Zamora, mesmo com a eliminação na Libertadores? A Sul-americana é um objetivo?

O grupo é grande e bom. Mas é o que eu sempre falo com a diretoria: "Não tem como termos três focos". Evidente que sempre vamos colocar o melhor. Mas a gente optou por levar o que tiver de melhor para enfrentar o Zamora. A viagem para a Venezuela será pesada, pelo tempo e por tudo que está acontecendo lá, e depois pegaremos Palmeiras, Flamengo e Grêmio. O que a gente estudou, dá para ir com jogador 100% para cada jogo. Tem atleta no banco querendo dar a vida lá. 


Você participa do planejamento com o Rui Costa?

Olha, o Rui chegou ao Atlético botando a cara, é uma pessoa muito competente e inteligente. Ele enxerga a longo prazo. Conversamos bastante, mas nada de extracampo, como contratações. Ele participa muito do nosso dia a dia e nos deixa muito à vontade.

Você é fã do Tite e amigo particular do Carille. O que você absorveu desses dois treinadores? Mano também é referência, né?

Quem me abriu as portas para conhecer o trabalho do Tite foi o Carille. Eu o considero um irmão e devo muito a ele por muita coisa que me orientou, mesmo ele sendo auxiliar da casa. Eu tinha a certeza de que quando ele assumisse, por ter trabalho por muitos anos com o Mano (Menezes), daria certo. Todos eles sofreram, vieram de times pequenos e conquistaram tudo. O Carille, desta “nova” geração, é um cara muito abençoado. Ele foi um dos responsáveis por eu decidir aceitar a proposta do Atlético, mesmo sendo para o sub-20. Depois que assumi o time principal, conversei com ele; sempre me passando confiança. Os times dele sempre tomam pouquíssimos gols, e está sempre ganhando títulos. Me inspiro bastante nele.

Quando sua esposa soube que você seria o treinador interino. Qual a reação dela?

Ela fica muito mais nervosa do que eu. Eu estava montando o treino do Sub-20 e falei com ela que estava correndo na sede para me reunir com o presidente e o Marques. Quando saí, ela estava chorando, nervosa, toda preocupada (risos). Para mim é uma emoção enorme estar no profissional do Galo, diante de uma torcida maravilhosa.
 

E o "tal" do VAR?
Que sacanagem esse VAR, cara. A gente não sabe se é o árbitro ou o VAR que decide aqui. Se tem que ser usado, se chamou, tudo bem. Assiste. Mas, como aconteceu com o Igor Rabello, no primeiro jogo (da final do Mineiro), por que não viu? Está tendo erro. Enfim, quem vai mandar, o árbitro ou o VAR?
 

Muda a dinâmica do jogo? Até a forma em que o zagueiro vai marcar?
Claro que sim. Eu marco a zona; tem treinadores que marcam no mano. Com o VAR, como faz? Se tem choque e jogadores se segurando o tempo inteiro. Qualquer coisa poderá ser pênalti. Já fomos muito prejudicados; eu substituí um jogador pelo VAR; tirei o Elias e coloquei o Vina, mas o gol não valeu. Existem muitos conflitos que podem acontecer. 


Luan disse que você tem potencial para ser um dos melhores técnicos do país. Como você encara esse elogio de um dos jogadores mais antigos do atual elenco?

Cara, isso é muito legal, ainda mais vindo de uma pessoa como o Luan. Ele tem sete anos de casa; imagina quantos treinadores já passaram por aqui. Fico lisonjeado. Se ele está falando isso, significa que estou conseguindo ajudar em alguma coisa. É um cara que rouba muita bola e que tem a parte ofensiva muito apurada. (Com colaboração de Hugo Lobão) 

rodrigo santana