Há exatos dez anos, o zagueiro Léo adentrava a Toca II para ser apresentado como novo jogador do Cruzeiro. “Me lembro da primeira vez que vi os portões da Toca se abrindo. Era um sonho que consegui realizar”, diz o atleta ao Hoje em Dia, uma década depois daquele emblemático 20 de agosto de 2010, o início de uma nova era em sua vida e sua carreira.

Vieram várias conquistas (Brasileiro de 2013 e 2014, Copa do Brasil de 2017 e 2018 e Campeonato Mineiro de 2011, 2014, 2018 e 2019), 393 partidas, jogos icônicos (“Os 6 a 1 foram importantíssimos, por tudo que o duelo envolveu”, recorda), a marca de terceiro zagueiro que mais balançou as redes pelos azuis (22 gols) e também algumas tristezas, como o rebaixamento do clube à Série B e os treinos em que ficou ausente por conta da Covid-19.

Torcedor desde o berço, ele comemora uma década de Cruzeiro, com muitos objetivos em mente na temporada. Entre eles, ultrapassar os 400 duelos com a camisa estrelada, se tornar o segundo beque com mais gols pela Raposa e, obviamente, recolocar a agremiação celeste no panteão do futebol nacional. Embasado na fé e no trabalho, almeja “reconstruir esses muros da Toca”. Confira mais na entrevista ao Hoje em Dia.

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Léo, queria que você falasse sobre essa marca de dez anos no clube, seu clube do coração. Praticamente um terço de sua vida foi dentro do Cruzeiro (Léo tem 32 anos). O quanto tudo isso representa para você?
Para mim, muita alegria, uma honra poder vestir essa camisa por dez anos da minha vida. Como você mesmo disse, é praticamente um terço da minha vida dentro do clube, e o Cruzeiro praticamente é minha segunda casa, onde tive a oportunidade de erguer vários títulos e ter várias conquistas. Para mim, uma honra e uma alegria muito grandes mesmo.

Antes de iniciar sua trajetória na Toca, você já tinha passado por Grêmio e Palmeiras. Ou seja, já estava habituado a atuar em grandes equipes. Mesmo assim, vir para o Cruzeiro representou um "friozinho" diferente na barriga?
Depois que surgiu a oportunidade de vir para o Cruzeiro, não pensei duas vezes. Sempre foi um sonho muito grande vestir essa camisa. Me lembro sempre de quando cheguei à Toca II pela primeira vez e vi os portões se abrindo. Um sonho realizado de poder jogar no Cruzeiro. Eu sempre quis isso, sempre sonhei por isso. Estar na arquibancada e depois estar dentro de campo são emoções muito grandes. E uma responsabilidade muito grande também por eu e minha família sermos daqui (de BH). Tenho muito prazer de vestir essa camisa.

E você imaginava, lá em 2010, que ficaria tanto tempo assim? Aliás, como é estar próximo da marca de 400 partidas pelo Cruzeiro?
Na verdade, nem quando eu era pequeno imaginava conquistar títulos com essa camisa, conquistar marcas e chegar a esses números, de quase 400 jogos pelo Cruzeiro. Parecia algo tão distante assim e, às vezes, difícil de alcançar. E poder hoje estar vivendo tudo isso é uma realização muito grande, cada vez mais galgando e almejando marcas com essa camisa. Pude ver ídolos, jogadores e atletas renomados que passaram por aqui e conquistaram vários títulos. E poder percorrer esse mesmo caminho é uma alegria muito grande.

Pergunto isso também por conta de propostas de outros clubes. Veio alguma que foi considerada tentadora? O que foi crucial para permanecer?
Já tivemos várias propostas, de clubes de fora, muitas questões boas... E sempre optei por permanecer aqui, sabendo do objetivo e também do sonho que era conquistar títulos e colocar o nome cada vez mais na história do clube. Foi mais por opção permanecer, de pode representar e honrar essa camisa. Sempre foi uma grande escolha, e a principal escolha, sem dúvida alguma, foi me entregar ao máximo por essa camisa.

Mesmo após o rebaixamento, ofertas chegaram, e você foi o primeiro a confirmar que continuaria na Toca, o que aumentou ainda mais a admiração e o respaldo do torcedor. Nos fale sobre aquele momento. O quanto o fato de você ser torcedor do Cruzeiro desde sempre influenciou para tomar essa atitude?
Naquele período recebi propostas de dois clubes. Tive uma conversa bem rápida com a diretoria. O clube e eu pensávamos da mesma forma, de eu permanecer. Eu queria ajudar, engajado nessa reconstrução do clube. O objetivo era permanecer aqui, independentemente das outras propostas. Aquele ‘vídeo’ das portas da Toca se abrindo para mim sempre vem à minha mente. Não seria nesse momento que eu iria virar as costas para o clube, que iria deixar o clube. Estou engajado e envolvido para poder ajudar, representar e me doar ao máximo para ajudar a retomar nosso lugar, que é a Série A. Meu grande desejo sempre foi vestir a camisa do Cruzeiro.

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Qual seria seu top 3 de acontecimentos/fatos dentro do Cruzeiro ao longo desses dez anos? Títulos, algum jogo em especial, algum gol em especial...
Teve a conquista do bi do Brasileiro em 2014, que foi de ponta a ponta; a Copa do Brasil de 2017, que foi algo singular, uma decisão de pênaltis numa final é algo único; e o jogo dos 6 a 1 (sobre o Atlético), que foi importantíssimo, por tudo que envolveu e por ser único.

Você é o terceiro zagueiro que mais fez gols pelo Cruzeiro, com 22 bolas na rede. Será que dá para igualar ou até ultrapassar o Cris, segundo colocado, ainda neste ano? Ele tem 25 gols, cinco a menos que Geraldão, com 30, o primeiro da lista.
É um objetivo. São três gols, estou perto ali do Cris, o segundo colocado. Claro que o primeiro objetivo é defender. Mas, tendo a oportunidade, fazer gol é também uma grande meta. Poder chegar a essa marca de ser o segundo zagueiro artilheiro do Cruzeiro é uma meta.

Essa marca de uma década de clube veio em meio a uma pandemia, na qual você chegou a ficar fora das atividades da Toca durante um tempo, por ter testado positivo para Covid, e também o início de uma Série B. O quanto isso impactou em sua vida e sua carreira e como é tirar forças neste momento tão complicado, em vários sentidos?
Momento difícil para todo mundo, um momento crucial que a sociedade tem vivido. Esse distanciamento social, o vírus, a pandemia, a crise nacional no país, a crise mundial, na verdade, com todo esse caos... A gente procura ter fé, confiar em Deus. E cada vez mais caminhar para sempre superar as adversidades e os problemas. Não só no futebol, mas na sociedade. A gente sabe que é superando os desafios, a pandemia e a crise econômica a qual o país vive que vamos dar continuidade à vida normal. Esperamos que logo, logo se encontre a vacina para todo mundo voltar à sua vida normal.

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Como um dos líderes do elenco, de que forma você analisa o atual plantel e a qualidade dos atletas mais jovens? E nos fale também do seu papel neste momento em que o time iniciou a Série B com seis pontos a menos e já conquistou três vitórias. O quão importante serão os discursos de jogadores como você, Fábio e Moreno?
Um plantel muito bacana, muito legal, onde tem uma variação de jogadores experientes, os de meia idade e os mais novos. Muita qualidade e vivacidade também. Acaba tendo um equilíbrio legal para o plantel, isso acaba sendo bom. Claro que são coisas que não havíamos vivido ainda, de começar a competição com menos seis pontos. Mas com toda experiência e muita fé, vamos reverter essa situação, para que possamos estar no topo da tabela, estar entre os quatro e subir à Série A.

Como está sendo o clima na Toca desde a chegada do Enderson?
O clima está bacana, os trabalhos estão sendo bem feitos, há competitividade nos treinos. O clima é bem alegre, e o grupo está se comprometendo bastante no dia a dia. Com o Enderson, os treinos têm sido competitivos e também há uma leveza no trabalho. E vamos colocando isso nos jogos.

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Com relação ao período de pandemia, em que todo mundo ficou parado, existe algo vindo da música, do cinema, da literatura, da família ou do futebol que o inspirou de alguma forma para os capítulos que o Cruzeiro vai escrever daqui para frente? Algo externo que o inspirou e de certa forma tem a ver com esse momento de superação e reconstrução do clube?
Sempre tem. Independentemente do momento difícil, a gente permanece confiando em Deus, na fé. A “Bíblia” é um dos maiores livros e um dos mais vendidos e milenares para aquele que quer ser sábio buscar conselhos para a vida humana. É um livro de muita referência. Eu busco muita referência nos livros de Neemias, de reconstruir os muros de Jerusalém. Que possamos também ser uma ferramenta nas mãos de Deus para que possamos conseguir reerguer os muros aqui na Toca, os muros do Cruzeiro, e conseguir o objetivo que é voltar à Série A. A “Bíblia”, no contexto geral, é um livro que me inspira bastante. E a história de Neemias é única, me inspiro bastante nela. Deus está no controle de todas as coisas. E em certo momento o Cruzeiro precisa ser reerguido; um novo Cruzeiro. É buscar forças na fé para superar toda adversidade apresentada.

Se você pudesse definir o Léo do Cruzeiro com uma palavra qual seria?
Superação.

E o Cruzeiro para você?
Paixão.

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