Um ano depois de registrar uma renda recorde com a Copa no Brasil, a Fifa está no vermelho. Nesta terça-feira (1º), uma reunião dos especialistas financeiros da entidade constatou que a organização terá um déficit em 2015 diante da fuga de patrocinadores e gastos milionários com advogados. Na esperança de reverter essa situação, a entidade vai aprovar nesta semana sua maior reforma em 111 anos, criando uma "Nova Fifa".

O encontro desta semana, pela primeira vez em seis meses, volta a contar com a presença de um brasileiro, o vice-presidente da CBF, Fernando Sarney. Ele substitui Marco Polo Del Nero, impedido de sair do Brasil por conta do risco de ser preso à pedido do FBI.

Conforme a Agência Estado revelou com exclusividade em outubro, Del Nero pediu para sair da Fifa. Sarney, assim, assumirá também o Comitê do Futebol Olímpico e será membro do Comitê sobre Futebol de Praia e Futsal. Por enquanto, ele não deve fazer nenhuma proposta.

O brasileiro chega em um momento complicado. Ao final de 2014, a Fifa acumulou uma receita total de US$ 5,7 bilhões. No período entre 2011 e 2014, os lucros foram de US$ 338 milhões. Mas, em maio, tudo começaria a mudar.

As prisões afastaram os patrocinadores e o plano da Fifa em fechar contratos com empresas avaliados em US$ 200 milhões foram cancelados. Para completar, a entidade foi obrigada a contratar uma das maiores empresas de advogados do mundo, a Quinn Emanuel, além de uma empresa de comunicações, a Tereos, para lidar com a crise.

O resultado foi um desabamento nas contas. "Fomos obrigados a tirar dinheiro de nosso fundo de emergência", admitiu um dirigente da Fifa, na condição de anonimato. A última vez que a entidade havia registrado prejuízo foi em 2001, quando a empresa ISL quebrou.

Para restaurar o fluxo de dinheiro, a Fifa sabe que precisará aprovar suas reformas e pelo menos três multinacionais já indicaram que estão dispostas a assinar acordos se a "Velha Fifa" for desfeita.

Reformas

Diante da crise, dirigentes vão se reunir nesta quarta e quinta-feira para aprovar uma reforma que estabeleceria uma espécie de "Nova Fifa", com regras de transparência e exigências para os dirigentes. A meta é a de adotar medidas que estão sendo chamadas de "Anti-Havelange". Ou seja, que desmontariam a estrutura de poder montada por anos pelo brasileiro, sem limites de mandatos e nem transparência.

Os advogados ainda vão estabelecer uma nova constituição, justamente para afastar a entidade que vai permanecer no comando do futebol daquela estrutura que hoje passou a ser alvo de investigações.

A Agência Estado apurou que o pacote terá um limite de três mandatos para presidentes e executivos, o que significa que um dirigente pode ficar no máximo doze anos no poder. Mas, ao contrário do que iria ser proposto, não haverá limite de idade.

Na avaliação dos encarregados pelas reformas, ao limitar os mandatos, a Fifa estaria impedindo a formação de "clubes" dentro da entidade que controlariam decisões importantes. Outra decisão será a de publicar o salário do presidente e dos diretores. A meta é a de revelar o que de fato a Fifa paga a seus dirigentes e quanto vai ao futebol.

O Comitê Executivo ainda será transformado em Conselho da Fifa e decisões técnicas sobre contratos passarão a ser examinadas por um grupo de especialista, justamente para evitar que influências políticas determinem a escolha de parceiros comerciais.

Um grupo independente ainda vai fazer um "exame de integridade" em cada um dos novos membros do Conselho da Fifa para garantir que nenhum membro esteja sob suspeita m seus respectivos países.

O órgão ainda vai ganhar a presença de mais três mulheres, no esforço de dar mais espaço ao futebol feminino. "São reformas fundamentais, principalmente no aspecto financeiro", disse Gianni Infantino, secretário-geral da Uefa e candidato à presidência da Fifa. Depois de aprovada nesta semana, a reforma será colocada à votação para as 209 federações nacionais, em fevereiro. Mas não deverá haver mudanças.