A situação financeira do Cruzeiro, como já é de conhecimento público, estima cuidados. Os muitos milhões de dívidas urgentes do clube fizeram com que membros da atual diretoria pensassem na seguinte solução: unificar as dívidas atuais que a Raposa tem no mercado, e que se aproximam dos R$ 300 milhões, apenas em um único credor.

A ideia de Wagner Pires de Sá e seus comandados é trocar essas pendências que hoje estão divididas entre diversos credores, dentre eles outros clubes que acionaram à FIFA por negociações passadas não pagas, o Governo Federal e instituições bancárias.

Para fazer tal operação financeira a atual diretoria resolveu acionar o Conselho Deliberativo do Cruzeiro para se resguardar e conseguir a maioria de votos para operacionalizar um novo empréstimo com juros menores em relação às taxas que atualmente são pagas pelo clube.

“Teremos de 80% a 90% de aprovação. Os gatos pingados que ficam na rede social por que perderam a eleição, e como diz na minha terra, ‘não beberam o defunto’. Estamos tranquilos, e o dinheiro é para pagar uma dívida que existe e toda ela feita pela gestão passada, quase R$ 300 milhões. A toda hora chega uma penhora nas contas do Cruzeiro, fica difícil trabalhar assim. Então, a saída que a gente tem é trocar um juro de 28% ao ano para um de 8,5% ao ano. Quem falar que não quer isso com carência de um ano e meio é anti-Cruzeiro”, disse o vice-presidente de futebol celeste Itair Machado em entrevista à Rádio Super.

Entendimento técnico

O Hoje em Dia buscou entendimento técnico em relação a essa operação financeira que a atual diretoria do Cruzeiro busca fazer. Logicamente, levando-se em conta os dados que se tornaram públicos, como a taxa de juros e o valor estimado pelo próprio vice de futebol Itair Machado.

O especialista em gestão Júlio Reis, responsável pela empresa Smart Valor e professor convidado da Fundação Dom Cabral, explicou em detalhes o que é preciso entender nessa tentativa de empréstimo que o Cruzeiro tenta efetivar nesta reunião do Conselho Deliberativo nesta segunda-feira.

Sobre o empréstimo

“Se a intenção é pegar R$ 300 milhões emprestado, é por que a dívida que pretende-se quitar possa ter ultrapassado os R$ 350 milhões, já que espera-se uma redução significativa do montante a ser pago com as negociações para pagamento imediato. É preciso entender primeiramente se realmente todo este montante é de dívida urgente (que considero ser aquelas que possam trazer alguma sanção ao clube ou aquelas com juros exorbitantes), porque o valor é muito alto e o prazo de pagamento não é tão longo assim. Se parte do perfil da dívida for composto daquelas que estão em apreciação em instâncias iniciais de julgamento ou com taxas mais interessantes, vale a pena avaliar se elas não poderiam ficar para serem tratadas em um segundo momento. Agora se o valor necessário for este mesmo, é realmente uma operação delicada e será preciso um trabalho de gestão muito bom para permitir que o clube gere caixa suficiente para amortização de mais de R$ 115 milhões por ano, após o período de carência”, disse o especialista, que é torcedor do Cruzeiro.

Júlio Reis entende que trocar os juros anuais de quase 30%, que a diretoria diz pagar atualmente, por uma taxa de apenas 9% ou 8,5% como foi dito recentemente, é interessante sim. Mas faz com que o clube fique “amarrado”.

“Melhora o perfil da dívida, mas o clube fica amarrado, já que estas dívidas serão garantidas pelos recebíveis. Portanto essa nova dívida precisa ser paga, sob pena de inviabilizar as operações no futuro, e para pagar esse valor, só se fizer uma reestruturação de gastos muito pesada aliada a um crescimento de receitas acima da média”, explica. 

Fazendo contas

Nas contas de Júlio Reis, levando-se em conta os valores que se tornaram públicos e caso o sistema de pagamento seja o modelo que prevê parcelas iguais, o Cruzeiro pagaria juros acumulados na ordem de R$ 105 milhões. As parcelas semestrais, após a carência, (fala-se no pagamento de sete parcelas) estariam na casa dos R$ 57,74 milhões, totalizando um pagamento de R$ 404,2 milhões.

“No meu entendimento seria mais saudável para o clube conseguir um parcelamento maior, quem sabe de 14 parcelas, para dar mais tempo de organizar as finanças. Mas insisto que caso não haja um choque de gestão nas despesas e nas receitas, o problema virá muito maior a partir do final de 2020. Lembrando que o cálculo feito por mim já leva em conta as parcelas futuras. Considerando que nos últimos anos as Receitas dos clubes brasileiros vêm crescendo significativamente e caso o Cruzeiro consiga crescer suas Receitas acima desta média, o valor relativo das parcelas será menor, ou seja, o impacto das mesmas nas contas do clube será menor”, comentou.