Até onde o amor de mãe pode nos levar? No caso do nadador Gabriel Araújo, até o lugar mais alto do pódio nos Jogos Paralímpicos de Tóquio. Com duas medalhas de ouro e uma de prata no peito, Gabriel deixa o Japão como uma das estrelas da delegação brasileira e um dos principais nomes desse esporte no planeta.

Entretanto, quem viu o desempenho do mineiro, nascido em Santa Luzia e criado em Corinto, nas piscinas, talvez não saiba que cada movimento do nadador teve o toque de uma pessoa que dedica sua vida a apoiá-lo, não apenas para ser um atleta de ponta, como também superar todos os obstáculos que uma deficiência física impõe. 

Professora aposentada, dona Eneida Magna dos Santos Araújo devota sua vida a acompanhar Gabriel, que tem focomelia, doença congênita que impede a formação de braços e pernas.

Depois que soube da condição do filho ainda durante a gravidez, a educadora mudou sua vida antes mesmo do nascimento do futuro campeão paralímpico. 

“Hoje, o Gabriel é conhecido do mundo inteiro, mas ele já é um orgulho para todos, desde quando estava na minha barriga, e eu já sabia, desde o quinto mês (de gestação), que ele nasceria com essa deficiência. Então, me preparei muito, estudei muito sobre a deficiência para saber o que podia fazer para ajudá-lo quando ele nascesse”. 

A origem

Gabrielzinho, atualmente com 19 anos, gosta de água desde cedo. Entretanto, a aptidão para o esporte surpreendeu a família. 

“A natação na vida dele foi um dom de Deus. Ele não foi treinado para isso. A gente mora no interior e sempre saia com ele para passear. Ele pedia para pular na piscina, e fomos incentivando, pedindo para ele pular sempre um pouquinho a mais. E foi assim, de brincadeira, que virou um nadador”, disse Eneida. 

Apesar de um eventual temor que as atividades do filho na água poderiam causar, a professora nunca deixou que qualquer pensamento negativo ganhasse espaço na cabeça da família. 

“Medo eu não tinha, porque toda vez que o via nadando, fazendo alguma coisa, ficava mais feliz em saber que ele se superava e conseguia fazer muito mais. Sempre o criei para não ter limites e ciente de que ele podia mudar o impossível”, contou. 

Dificuldades

Além do suporte do apoio emocional, Eneida também teve que se superar, adotando medidas extremas. 

“Ver esse reconhecimento com ele agora é muito gratificante para mim. Todas as vezes eu dizia que desistir não estava no nosso vocabulário. Teve uma época em que não tivemos apoio da Prefeitura de Corinto para ele continuar treinando, foi a época mais difícil. Mas nós não desistimos, fiz campanha (para levantar recursos), catei latinha na rua, enfrentei várias dificuldades. Então, cada obstáculo que apareceu para gente não era motivo para desanimar, só nos dava força para continuar”, afirmou ela. 

Dona Neidinha, como é carinhosamente chamada por familiares e amigos, se mudou para Juiz de Fora junto com Gabriel no ano passado, para acompanhar a rotina de treinamentos da cria do Clube Bom Pastor.

Diante da transformação na vida de Gabrielzinho, hoje uma celebridade do esporte brasileiro, a professora traz consigo gratidão, não apenas pelas conquistas nas piscinas, mas, principalmente, pelo ser humano que o filho se tornou. 

“Meu sentimento hoje é de dever cumprido. Uma pessoa com a deficiência que ele tem, ter superado e passado por muitas coisas que ele passou…. Não foi fácil, mas eu sempre ensinei para ele: ‘tudo que você fizer, faça de cabeça erguida. Nós temos dois ouvidos. Um você usa para o que te acrescentar, para o que for bom. O outro você usa para o que te magoar, para você jogar fora’”.

Nadador paralímpico Gabriel Araújo e sua mãe, dona Eneida Magna