Filho do ex-ponta Lela e irmão do volante e lateral-esquerdo Richarlyson, o atacante Alecsandro encara mais um desafio na vitoriosa carreira. Campeão por onde passou, “Alecgol” agora tem a missão de colocar o nome do modesto São Bento em evidência na elite do futebol paulista.

Aos 37 anos, o pai de Yan, de 13, e Nicolas, de 5, vê os filhos darem os primeiros passos como atletas. Contudo, mesmo percebendo o dom nos herdeiros, ele não quer forçá-los a ingressar no mundo da bola e escrever nova história da família dentro de campo.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Alecsandro relembra as passagens pelo Cruzeiro, fala da história vitoriosa pelo Atlético, revela que esteve perto de voltar ao clube e diz que não se sente injustiçado pela falta de chances na Seleção.

Qual o principal fator para aceitar este novo desafio no São Bento?

É um clube de uma cidade grande, próxima a São Paulo, vai disputar o melhor Estadual no Brasil; classifico o Paulistão como o quarto melhor campeonato do país. Fica atrás da Libertadores, do Brasileiro e da Copa do Brasil. O desafio é justamente de jogar num clube de pouca visibilidade, eu, graças a Deus, tendo o nome firmado no futebol brasileiro. Quero alavancar o nome do São Bento e fazer um grande campeonato. Estamos montando um time forte. Eu trouxe alguns jogadores da minha confiança, como o Éder Luis, que foi um companheiro vitorioso no Vasco da Gama, e também o Renan, goleiro, e o João Paulo, volante.

Como é para uma criança que sonha em ser jogador crescer em Bauru, cidade onde Pelé descobriu o futebol?

Sou de Bauru e passo as minhas férias por lá. É a cidade da minha família. Como você falou, a cidade tem um laço muito forte com o Pelé, pois ele jogou pelo BAC (Bauru Atlético Clube). Sair de lá para ganhar o mundo foi muito difícil para mim. É uma cidade distante da capital e sem avião, na época, era mais complicado. Sair de lá e poder jogar em grandes clubes do país foi motivo de muito orgulho.

Pelo Inter e pelo Atlético, você foi campeão da Libertadores. Mas nos dois, não conseguiu atingir a final do Mundial. O que vc guardou de lição dessas duas passagens?

Assim, cara. Primeiro, para mim foi muito feliz ser campeão da Libertadores nos dois, tanto em 2010 quanto em 2013. Pude jogar todos os jogos em ambas as equipes; no Atlético, mesmo não sendo titular, participei de todas as partidas, assim como no Inter. Foi um aprendizado muito grande disputar o Mundial de Clubes e dividir espaço com tantos craques. Jogamos o Campeonato Brasileiro, que é um dos mais difíceis do mundo, mas quando se joga uma Liga dos Campeões é diferente. Eu digo sempre em palestras para crianças, que quando entrei pelo Sporting, de Lisboa, para disputar uma partida da Champions, eu chorei porque via isso na televisão e era um sonho. A derrota no Mundial de clubes para mim fez pouca diferença; só de ter chegado até lá, me deixa muito orgulhoso e feliz. Posso contar isso aos meus filhos.

alecsandro

No Atlético, você pôde jogar com seu irmão. Como foi a chegada ao Galo, em 2013, com essa motivação extra?

Eu estava no Vasco, meu irmão me ligou perguntando se eu queria jogar no Atlético. Ele disse que já havia falado com o Cuca e com o Eduardo Maluf. Falei que seria uma honra. Meu irmão disse que estava montando um grupo legal para ganhar a Libertadores. Joguei uma semifinal de Libertadores contra o meu irmão, entre Inter x São Paulo e no qual eu pude fazer dois gols, e depois joguei uma final ao lado dele. Foi o momento mais feliz da nossa carreira.

Porque aquele elenco do Atlético deu tão certo?

Ali, temos que dar crédito em três momentos. O primeiro, o Cuca, que soube escolher a dedo os jogadores; em segundo, o finado Eduardo Maluf, um cara espetacular, que soube montar e gerir todos aqueles atletas. Ele sabia executar bem a liderança. O terceiro é que éramos muito amigos. Eu já era casado. Tínhamos as nossas festas, mas cada um respeitava o limite do outro. Fui algumas vezes nas festas na casa do Ronaldinho. Ele me respeitava como casado e eu o respeitava como solteiro. Isso fora de campo faz a diferença dentro. O lado de amigo e de família fez total diferença.

Hoje o Réver voltou ao Galo e é o primeiro campeão da Libertadores a retornar. Você teve chance de voltar?

Tive a chance de voltar no fim de 2017. Não cabe a mim falar, mas pessoas dentro do clube dificultaram a minha volta. Fiquei muito feliz com o convite e a possibilidade de voltar. Era o Oswaldo de Oliveira o treinador. O Lásaro, hoje vice-presidente, foi uma das pessoas a favor. Mas você sabe como é o clube. Na época existia um diretor executivo e outras pessoas que acabaram dificultando a minha ida e não deu certo. Lamentei não ir, pois era uma vontade minha voltar, até pelo projeto de buscar vencer novamente a Libertadores, mas passou. Por todo respeito e carinho que tenho e recebo do torcedor – vejo nas redes sociais quase todos os dias de atleticanos me agradecendo e pedindo para voltar.

O que você lembra da passagem pelo Cruzeiro e o quão importante foi o clube na sua carreira?

O Cruzeiro foi muito importante para mim porque foi o começo da minha carreira. Foi o primeiro clube que apostou em mim depois do Vitória. O Cruzeiro me comprou. Eu não sou tão lembrado no Cruzeiro, porque foi um início de carreira. Tive duas passagens. Fui emprestado pelo Sporting e depois voltei, e fizemos aquela campanha espetacular que levou o time à Libertadores, e depois fui vendido aos Emirados Árabes. Tenho números muito bons pelo Cruzeiro e muitos amigos até hoje. Quando ganhei o título pelo Atlético, o torcedor ficou muito chateado, o que é natural, mas é um clube muito importante na minha vida.

E as cobranças de pênalti? Você raramente desperdiça. Qual o segredo?

Pênalti é um momento do futebol como jogar futebol, vamos dizer assim. É um dom. Não tem como você amanhecer e decidir cobrar pênaltis. Não tem jeito. É como uma falta. Não é qualquer um que pode bater. Acredito muito que Deus me deu este dom; no dia a dia você tem que treinar e aprimorar as partes física e mental. Depois que eu percebi, que além de ser o camisa 9, que eu tinha o dom, procurei treinar e me concentrar. Até hoje eu bato, pelo menos, três pênaltis por dia; já cheguei a bater 20, 30 por dia. Quando entro em competição de mata-mata, eu faço até um pouco mais, para não falhar na hora “H”.

Assim como seu pai, você e o Richarlyson marcaram o nome na história do futebol brasileiro. Já tem um herdeiro deste trono na família?

A gente até brinca. Lá em Bauru, onde temos uma chácara, pedi um amigo meu para grafitar os nossos títulos na parede. Acabou não cabendo, graças a Deus. Tenho dois filhos: o Yan, de 13 anos, que jogou na base do Flamengo, e o Nicolas, de 5, que acabou de ser convocado para a Seleção Paranaense de futsal. Os dois gostam muito de futebol. Não tenho pressão para que eles sejam jogadores. Acredito muito no dom. Eles vão seguir o caminho se quiserem. Quero que eles façam esportes, independente de qual seja. 


Faltou a Seleção Brasileira para coroar a sua carreira?

Assim, eu digo que eu nasci no momento errado. Eu tive muita concorrência e não me sinto injustiçado. Na minha época os caras eram melhores do que eu. Lógico que em alguns momentos, como em 2010, que fui titular absoluto no Inter, e em 2011, no Vasco, quando fui artilheiro da Copa do Brasil, poderia ter sido lembrado, mas tinha muita gente de qualidade na posição, como Adriano Imperador, Grafite, Robinho, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Fred... 

Domingo teremos o clássico entre Atlético e Cruzeiro. O coração pende para algum dos lados? Tem acompanhado as duas equipes?

Eu ainda tenho amigos dos dois lados, como Dedé, Egídio, Fábio, Réver, Victor, Léo... Foram dois clubes muito importantes na minha carreira. Eu sou muito sincero. Não vou torcer para nenhum dos dois; como estou de fora, vou usar aquela velha e boa máxima: estarei feliz de qualquer maneira. Minas merece os clubes que tem.