Um dos grandes personagens do Cruzeiro na década de 1990, o ex-meia Luís Fernando Flores é mais um dos ídolos celestes que torcem para que o rebaixamento no Brasileirão não seja realidade no clube de “páginas heroicas e imortais”. Aos 55 anos e atuando como auxiliar do técnico Enderson Moreira, atualmente desempregado, o gaúcho de Bagé sonha que a dupla um dia assuma o comando da Raposa.

No clube onde chegou em 1990, vindo do Internacional, Flores conquistou duas Supercopas (1991 e 92), quatro Campeonatos Mineiros (1992, 94, 96 e 97), duas Copa do Brasil (1993 e 96) e uma Copa Ouro (1995). Querido pela torcida e apelidado de “baixinho bom de bola” pela crônica esportiva, ele deixou o nome marcado na história.
Na função de auxiliar de Enderson, Luís Fernando viveu momento peculiar nesta temporada. Curiosamente, os dois trabalharam no Ceará, único rival direto da Raposa na luta para escapar do temido rebaixamento para a Segunda Divisão da principal competição do país.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, o ex-meia fala sobre os momentos de glórias com a camisa celeste, relembra o duelo com o Palmeiras em 1991, em que o time escapou do rebaixamento naquela edição da Série A, dá sua opinião sobre o momento de crise na Raposa e, por fim, deixa um recado ao torcedor estrelado.

Você foi uma das principais peças do Cruzeiro na década de 1990. Como está vendo esse momento tão turbulento e com risco imenso de queda para a Segunda Divisão?

Sou um cara que vivo muito o Cruzeiro, até porque defendi o clube por sete anos e tenho um carinho muito grande pelo clube. Um momento como esse, realmente eu não lembro de ter visto. Tivemos outras situações bem complicadas também, mas nada parecido com o que está acontecendo neste ano. Fui um cara que convivi muito na Sede Campestre, cheguei até a ser sócio e conheço um pouco do que é o Cruzeiro. É uma coisa muito triste. Têm pessoas lá dentro que conheço e gosto muito, então é bem triste tudo isso. É muito preocupante. Agora ficou muito difícil e não depende só do Cruzeiro.

Em 1991, o Cruzeiro escapou do rebaixamento, justamente contra o Palmeiras, próximo adversário no Brasileirão. O que você se lembra daquele jogo?

Rapaz, minhas memórias assim são curtas. Um amigo me falou disso ontem, e eu dei até uma pesquisada. O que posso dizer é que, com certeza, apesar de ter sido um momento difícil, tinha time mais embaixo. De maneira alguma era uma situação tão difícil como esta. Naquele momento, as cobranças não eram como as de hoje; atualmente, no futebol, cair virou um terror. Se dá muito mais valor à permanência do que antes. 

Vimos a polêmica do afastamento do Thiago Neves. Atualmente, os jogadores têm mais autonomia nos clubes do que na época em que você atuava?

Eu trabalho hoje com jogadores, passei por alguns clubes e tenho convivido bastante com isso. O jogador de hoje ficou muito forte. Até pelos contratos longos que fazem e a fortuna que ganham. A autonomia ficou muito, muito grande. Por isso, para os clubes, fica mais fácil mexer com treinadores em vez dos atletas; no próprio Cruzeiro aconteceu isso agora há pouco. Por outro lado, todo jogador tem direito de viver fases ruins; são poucos que não passam por esses momentos. Hoje o Thiago Neves não serve para mais nada... Se está mal, não coloca para jogar, pô. O que não pode é falar que não presta, como eu tenho escutado por aí.

Você foi auxiliar do Enderson Moreira no Ceará. Como vê essa fase do ‘Vozão’, adversário direto do Cruzeiro na luta contra o rebaixamento? Criou um carinho pelo clube também?

O Ceará depende só dele, e eu vou ser muito sincero com você. Hoje, vejo o Ceará muito mais próximo de uma vitória do que o Cruzeiro, levando em consideração o momento atual, em termos de jogo e futebol. Claro que o Ceará tem uma estrutura bem inferior tecnicamente e também financeiramente, mas, analisando como jogo em si, penso dessa forma. Contra o Grêmio já se viu o Cruzeiro bem melhor no quesito disposição, mas falta tranquilidade para fazer o gol. O Ceará enfrenta um dos grandes do futebol brasileiro, que é o Botafogo, mas que não vive um grande momento. Jogar por um empate complica um pouco a situação do Cruzeiro. Mas é futebol, e a gente nunca sabe o que vai acontecer.

Está sendo cogitado o retorno da Supercopa, competição que o Cruzeiro conquistou por duas vezes na década de 1990. Aquela conquista de 92 representou o que para o clube e para o Luís Fernando jogador?

Cara, acho que aquela Supercopa fez com o que o Cruzeiro, ali, começasse a ser o clube que é hoje. Foi ali que começou a se engrandecer cada vez mais. Não resta dúvida que em 1992, por todo o tempo em que estive no Cruzeiro, foi um momento muito bacana e que ficou na história. Essa competição é muito legal por só reunir os campeões da Libertadores. Acabou porque alguns clubes começaram a brigar para entrar e foi se enfraquecendo. Tem tudo para ser um sucesso novamente.

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Você teve grandes parceiros na armação de jogadas no Cruzeiro. Qual elege como o “maior” de todos?

Rapaz, fica difícil de falar. O Boiadeiro na armação era um grande jogador. Mas tínhamos tantos outros... Nonato, Roberto Gaúcho, Renato (Gaúcho), Douglas, Célio Lúcio... Era um time muito bom, e todos foram importantes.

Essa turma da década de 1990, que conquistou tantas coisas importantes, tem conversado sobre o risco de rebaixamento?

No último fim de semana, encontramos eu, Nonato, Careca e Célio Lúcio na casa do Douglas. Ele fez um evento beneficente da igreja, e fomos lá prestigiá-lo. Conversamos sim e assistimos a Ceará x Athletico, torcendo para que viesse pelo menos o empate. Torcemos, mas com aquele sentimento de que as coisas não estão acontecendo e que os jogadores do Cruzeiro estão sem forças. Não posso falar pelos outros, mas acho que está muito difícil.

E se cair?

Olha, se acontecer de cair, o Cruzeiro não acaba. O Cruzeiro tem forças para se reerguer e ser o clube de grandes conquistas. Seria um momento difícil se acontecer, mas não acaba o mundo. O Cruzeiro é muito grande. As pessoas passam, e o clube fica.

Trabalhar no Cruzeiro um dia, fazendo a dobradinha com o Enderson Moreira, é um sonho?

Tenho muita liberdade de trabalhar com o Enderson, e isso me deixa muito feliz. Com certeza, até pelo pouco tempo dele no futebol profissional (são oito anos) e pelos trabalhos realizados, já merecia uma chance no Cruzeiro. É um sonho dele. Não só no Cruzeiro, mas também no Atlético. Já tivemos a oportunidade de trabalhar no América, onde mostramos um trabalho muito bem feito e organizado. Para mim, seria a realização de um sonho sim.

Deixe um recado para a China Azul.

É acreditar e apoiar. Tem que ter paciência com os jogadores. Neste momento, muito mais. Não vai ser fácil. Se tiver que vaiar, que faça no final. E, como falei antes, se vier a cair, que continue apoiando, porque já, já retorna.

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