Duas famílias se mostram cada vez mais ansiosas com a proximidade dos Jogos Olímpicos no Rio. Os Duque e os Sancery têm quatro jogadores cotados para estar representando o País na seleção masculina de rúgbi e o sonho de correr com a bola oval no retorno da modalidade ao programa olímpico torna-se cada vez mais vivo para os atletas.

De um lado estão Lucas "Tanque" e Moisés Duque, rapazes do interior paulista, da cidade de São José dos Campos, que abriram mão de suas profissões para ver o esporte crescer no País do futebol. Desde cedo eles sonham com esse momento e encontram no rúgbi motivos para sorrir. Do outro estão os gêmeos Daniel e Felipe Sancery, filhos de uma brasileira, que nasceram em Campinas, mas aos 4 anos foram para a Europa. Anos mais tarde, começaram a jogar em campos franceses.

Em comum, os quatro demonstram grande vontade de vencer e amor pelo rúgbi, esporte que tenta se tornar ainda mais popular no País. Juntos, terão a ingrata missão de enfrentar seleções como Nova Zelândia, Austrália, África do Sul, Argentina, França e Grã-Bretanha, entre outras. Eles sabem que o Brasil é zebra, mas prometem empenho para que a torcida fique orgulhosa da participação em casa dos Tupis. Uma coisa eles concordam: não vai faltar coração para a seleção brasileira.

Sonhos dos Duque

Os irmãos Lucas e Moisés Duque começaram a mostrar talento no rúgbi em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Tudo começou quando o irmão mais velho Mateus foi, a convite de um amigo, conhecer a modalidade. Logo se apaixonou e contaminou toda a família com a novidade.

Tanto que Lucas, o irmão do meio, que está agora com 31 anos, entrou de cabeça no esporte. "Quando comecei, a realidade era outra, tínhamos até que pagar o próprio uniforme. Mas por sorte pude pegar essa fase de transição e fico honrado de jogar com a nova geração", afirma o atleta, que é capitão da seleção de sevens, a modalidade olímpica do rúgbi.

Logo que passou a jogar, ganhou o apelido de Tanque. "Era um pouco gordinho, mas corria bem, aí o técnico passou a me chamar assim", lembra. Por muitos anos foi considerado o melhor jogador do País e soube se adaptar à nova realidade de atletas jovens, fortes e talentosos. "Estou tendo de olhar bastante para o meu físico", conta.

Anos atrás, ainda conseguia conciliar as partidas com a faculdade de medicina no Rio. Chegou até a trabalhar na área de medicina hiperbárica e do trabalho, mas adiou o sonho de se especializar em ortopedia para disputar a Olimpíada em alto nível. "É o sonho de qualquer atleta", garante.

Seu irmão Moisés, de 27 anos, também adiou o projeto de ser engenheiro florestal pelo sonho do rúgbi. "Eu projetei minha carreira e sei que até 2019 terei os melhores anos como jogador, pois estarei em plena forma física e experiente", diz o rapaz, que chegou a jogar na França, onde evoluiu bastante.

Foi a partir dali que ele conseguiu sair da sombra do irmão e mostrar todo seu potencial. "No começo, por ser mais novo, sempre fui muito próximo a ele, mas com o tempo passamos a jogar em posições diferentes. Depois, adquiri experiência na Europa. Sei que estamos em lugares diferentes do campo, mas pensamos da mesma maneira."

Moisés também está na equipe olímpica e sabe que pode ajudar o Brasil a lutar por bons resultados, apesar de que a seleção masculina é zebra na competição. "É um ano especial, uma oportunidade sublime, mas a Olimpíada não é tudo. O mais importante são os passos que estamos dando e os Jogos serão a cereja no bolo", afirma.

Habilidoso com os pés, Moisés foi o responsável por garantir ao Brasil neste ano a primeira vitória da história sobre os Estados Unidos, com um chute de longe, bem difícil, mas que entrou em cheio e garantiu o resultado expressivo para os Tupis. "O chute do rúgbi é completamente diferente do futebol, pois é preciso acertar a bola oval no ponto certo."

Ele aprendeu a chutar a bola de rúgbi aos 13 anos, quando estava no infantil, e foi tomando gosto pela coisa. "Cada um tem seu jeito de bater na bola. Chutar bem é um passo a mais para ganhar uma partida", garante.

Em casa, Moisés e Lucas sempre tiveram grande sincronia e tentam levar isso para o campo. São irmãos que vão tentar levar o rúgbi a um outro patamar no Brasil. "Temos um entrosamento em casa e no campo. Sempre praticamos esportes juntos e acho que é bem mais fácil jogar com ele por perto. Quando olho, já sei o que ele vai fazer", conclui Tanque.
 

Reforço para Seleção

Os gêmeos Daniel e Felipe Sancery chegaram há apenas quatro meses na seleção brasileira de rúgbi e estão na equipe de sevens e de XV. Aos 21 anos, ele fizeram um grande esforço para vestir a camisa dos Tupis e estão ajudando a equipe a ter um salto de qualidade. Eles não esperavam que em tão pouco tempo pudessem ocupar um espaço de destaque.

Nascidos no Brasil, com 4 anos de idade eles se mudaram com os pais para a França, onde começaram a praticar o esporte lá. "Jogávamos em uma equipe e o presidente da associação tinha o contato com o pessoal da Confederação Brasileira de Rugby (CBRu). Pedimos para enviar nosso currículo e fomos aprovados", conta Felipe.

A fim de descobrir mais atletas, a CBRu espalhou a notícia de que estava em busca de jogadores que tivessem alguma descendência brasileira e que jogassem rúgbi. Foi assim que alguns talentos foram incorporados à seleção e isso ocorreu também com Daniel Felipe. "Nós nascemos em Campinas e nossa mãe é brasileira", conta Daniel.

De tempos em tempos, os dois vinham ao Brasil para visitar a família. Geralmente era para as festas de final de ano. Com um pouco de sotaque, os dois falam português e conseguem se comunicar com tranquilidade com seus companheiros de time. "Fomos bem recebidos pelo grupo", revela Daniel, ciente de que a dupla poderia ser vista com alguém que está vindo "roubar" a vaga dos brasileiros.

Mas a chegada dos dois ao elenco foi tranquila, assim como outros atletas que estão sendo integrados ao grupo nacional. Esses reforços têm ajudado o time a ter uma evolução, pois os jogadores acostumados a atuar em países mais tradicionais no rúgbi agregam experiência à equipe e competitividade.

"Jogar na França é bem diferente, é mais fechado que no Brasil. O técnico escolhe um esquema e você tem de cumprir aquilo até o fim. Já aqui o jeito de atuar é um pouco mais livre", comenta Daniel.

Ele foi convocado pela primeira vez para a seleção para o Campeonato das Américas e fez sua estreia diante do Chile, em Santiago. Marcou pontos para o Brasil, assim como seu irmão Felipe. Depois, enfrentou ainda Uruguai, Canadá e Estados Unidos, e em todos os duelos Daniel pontuou. As boas atuações colocaram o rapaz na seleção da competição.

Se o estilo de jogo no Brasil é diferente do francês, a vida aqui também contrasta com o que eles tinham na Europa. Os dois interromperam os estudos na faculdade de Negócios para se dedicar ao rúgbi e não se arrependem. "As pessoas são mais bacanas aqui, as praias são lindas, o clima é ótimo. Vemos muitos atletas apaixonados e percebemos que o time está crescendo", explica Felipe.

Como não poderia deixar de ser, eles colocam a participação nos Jogos Olímpicos do Rio como um dos objetivos, mas ainda não sabem se o pai e a mãe vão vir da Europa para assistir à competição. No semblante da dupla não há qualquer tipo de arrependimento pela mudança de vida. "Queremos estar na Olimpíada e depois vamos ter outras competições com o Brasil", diz Daniel.