“Obrigado, Coelho. Sou feliz em envergar essa camisa”. Foi assim que Marco Antônio Gonçalves Milagres, o goleiro Milagres, desabafou após classificar o América para a final da Copa Sul-Minas de 2000 e sair ovacionado do Independência, depois de brilhar na decisão por pênaltis contra o Athletico-PR.

Aquele momento foi precedido pela conquista de um dos principais títulos da história do Alviverde, graças a duas vitórias em cima do Cruzeiro na decisão. Para o arqueiro, um dos capítulos mais emblemáticos dos quase dez anos e 385 jogos em que trajou o uniforme do América 

No dia em que o Coelho pode retornar à Série A do Brasileiro, o mineiro de Juiz de Fora, de 53 anos, bateu um papo com o Hoje em Dia e relembrou os feitos que o tornaram não apenas o jogador que mais vezes vestiu a camisa do Alviverde como também um grande ídolo de um dos mais tradicionais clubes do futebol nacional.

Milagres

Como você de fora, como ídolo da torcida, está vendo este momento do América, que está a uma vitória de um acesso que parecia impossível?
É um momento muito bom, em que conseguiu uma recuperação notável dentro da competição, através dos resultados que vem colhendo. O momento é importante também pela afirmação de jovens valores. Além da oportunidade que o Airton teve, o Zé Ricardo está se afirmando cada vez mais, e o Juninho, se tornando um jogador de total importância dentro do esquema do treinador. Então, a expectativa é muito boa para confirmar essa classificação com uma vitória. E aí é só comemorar. 

Você foi um dos protagonistas da conquista da Sul-Minas, em 2000, em que o América passou por Internacional, Athletico-PR e Cruzeiro para chegar à taça. Qual foi o peso daquele título para você e o clube? 
Aquele título foi a confirmação de uma década de trabalho, joguei quase dez anos no América. Fizemos jogos decisivos contra times de muito renome nacional, e isso valorizou muito nossa conquista. Lembro bem que na final, o Cruzeiro jogava por dois resultados iguais. Mesmo assim tivemos uma supremacia dentro de campo em relação ao poderio que tinha o adversário. É importante lembrar que naquele momento, os elencos eram mais equilibrados. Apesar de o Cruzeiro ter atletas renomados também, como Valdo, Müller, Oséas, e nós tínhamos atletas do mesmo calibre, como Pintado, Palhinha e Zé Afonso. 

Milagres

E aquele jogo na semifinal, contra o Athletico-PR, quando você defendeu um pênalti e classificou o time para a decisão?

Essa partida também teve um grau de emoção muito grande, porque viemos de resultado adverso, levando a partida para os pênaltis, em que conseguimos a classificação para a decisão. Foram partidas que ficaram marcadas pela emoção e pelo peso dos resultados que tivemos em cima de adversários de muita expressão no futebol nacional.

Você foi formado no Flamengo. O que acha dessa fase áurea do time?
Eu tive base no Flamengo. Hoje a gente liga nos veículos de comunicação e só escuta palavras sobre o Rubro-Negro, e acho que tem que ser assim mesmo. Foi algo muito grande dentro desses últimos cinco meses, um resgate de um futebol muito bem jogado, vistoso e que chancelou com os títulos da Libertadores e do Brasileiro.

O que o América representa para você?
O América representou minha confirmação como atleta profissional. Entre base e profissional, foram quase 11 anos de Flamengo. Lembro como se fosse hoje: eu era um atleta que vinha buscando espaço para jogar. Vim para o América por empréstimo de ano. Naquela época, a lei do passe era completamente diferente da de hoje; nós (atletas) éramos praticamente escravos. Quando acabava o contrato com um clube que detinha seu passe, você não tinha livre arbítrio para ir a outro time, a não ser que outra agremiação fosse à CBF e depositasse o valor do seu passe. Então, com três meses de empréstimo, o saudoso Magnus Lívio (ex-presidente do Coelho) foi ao Rio e comprou meu passe, até sem eu saber (risos). O América acabou tornando minha casa. Os elencos que tivemos, durante o período em que defendi o América, foram, em sua grande maioria, como família. Uma época muito marcante para mim. Por isso, o América representa tudo na minha confirmação como jogador e nesses valores extracampo que conseguimos reunir com a família de todos do elenco.

Milagres

Você viveu um momento bem diferente do futebol, principalmente nos anos 90. Como avalia esse novo perfil do principal esporte do país?

Aquela coisa mais doméstica, do povão, que também havia no Independência, no Mineirão, no Maracanã, no setor da geral, se perdeu um pouco. No próprio Independência, em que as pessoas ficavam na ferradura, nas carrocinhas de feijão tropeiro, assistindo ao jogo até em pé... Hoje, o futebol e os estádios se tornaram muito mais 'business'. Nos jogos de hoje, o torcedor de menor condição financeira, muitas vezes, não tem a oportunidade de comprar o ingresso, porque está tudo muito caro, muito elitizado.

Quais foram os três momentos mais marcantes na sua trajetória no Coelho, que teve glórias e episódios difíceis?
De positivo, cito a quebra do jejum (Campeonato Mineiro de 1993) em que o América vinha de 21 anos sem conquistar títulos. Depois, vem o momento da punição pela CBF (o clube ficou dois anos sem disputar competições nacionais). Também cito dois momentos importantes que foram as conquistas da Série B de 1997 e da Copa Sul-Minas. 

Realmente foram momentos bem diferentes com a camisa alviverde...
Nesse tempo eu passei por todas a situações que um clube pode passar, glórias, dissabores, até a suspensão que havia dito, ao ser impedido de jogar por força maior. Foram experiências em todos os setores. Sem dúvidas, fui do inferno ao céu com o clube. Peguei o clube na Segunda Divisão, não tínhamos um título há mais de duas décadas, e logo no primeiro ano conseguimos o acesso à Primeira Divisão. No ano seguinte, fomos campeões mineiros. Aí aconteceu essa coisa natural, que todo clube passe, desse gráfico de ascensões e momentos difíceis que fazem parte da vida dos clubes. 

Nos conte um pouco como foi aquele jogo contra o Náutico, na Série B de 1997, em que o time passou por maus bocados no Recife e conseguiu uma vitória épica.
Contra o Náutico, não sei o que eles colocaram no vestiário... Nem foi tinta, foi algo bem mais agressivo, bem mais tóxico, um cheiro horrível. Até para jogar nos Aflitos era aquela coisa do futebol raiz. O acesso para chegar ao estádio era muito difícil, a torcida chegava a balançar os ônibus em alguns pontos. Nesse jogo, conseguimos vencer por 2 a 0, ficamos perto do acesso e fechamos contra o Vila Nova-GO, sendo campeões. Esse jogo em Recife ainda foi interrompido pela invasão de torcedores que queriam bater nos jogadores do time deles, e a polícia teve que intervir. Enfim, foram experiência de todos os tipos que tivemos que passar (risos).

Milagres

É verdade que você começou a carreira como meio-campista antes de virar goleiro? Como foi essa história?

Quando comecei no futebol, jogava na linha. Fiz teste no Flamengo jogando na linha, mas tive a chance de ir para o gol, pois o goleiro machucou no treinamento, e eu assumi a meta. Fui muito bem. O seu Dida, ídolo do Flamengo, que foi um dos meus avaliadores, em 1981, me chamou no canto e me falou que eu teria mais chances no gol, porque no Flamengo havia muitos meias-atacantes de qualidade. Acabei aceitando a ideia e fui para o gol, onbde também gostava muito de atuar e acabei abraçando essa carreira de goleiro.

Em Minas, você também atuou pelo Atlético, entre 2001 e 2002. Como você avalia sua passagem pelo Galo?
Eu peguei o time em um momento bom, no Brasileiro de 2001, e nosso técnico era o Levir Culpi. A gente tinha um elenco muito bom, um ataque poderoso com Marques e Guilherme, que faziam muitos gols. Nesse ano não conseguimos o título em função daquele jogo emblemático contra o São Caetano, na semifinal. O gramado era uma piscina, não tinha como ter futebol, e acabamos perdendo a oportunidade de ir para a final daquele ano. Tomamos um gol de cabeça do Magrão, na única jogada possível naquela situação, que era a bola aérea. Não tinha como a bola rolar. Foi inadmissível o juiz (Simon) permitir condição de jogo em um gramado com aquelas condições. Foi uma derrota muito doída.

Você teve grandes resultados na base do América e agora tenta a sorte entre os profissionais. Quais serão seus próximos passos dentro do futebol?
Estou nesta luta como treinador, buscando meu espaço. Ano passado dirigi o Montes Claros na Segunda Divisão do Mineiro; este ano fui técnico do Boston City (também na Segundona) e já estou acertado para dirigir o Serranense, de Nova Serrana, no Módulo II de 2020. 

Durante sua carreira, você teve uma lesão séria no olho, o que aconteceu?
No início da temporada de 1994, o América fez uma excursão à China, e ai fizemos seis jogos, sendo três contra a seleção olímpica chinesa. Eram jogos muito pegados fisicamente, e a seleção chinesa era muito forte fisicamente, jogava de forma muito violenta, e a arbitragem deixava o jogo correr. No último duelo, eles (chineses) deram uma entrada muito forte no Ronaldo Souza, que era nosso lateral-esquerdo; o atleta deles deu um carrinho no meio dos dois joelhos do Ronaldo e quase quebrou a perna dele. Ai o Flávio Lopes, que era o nosso camisa 10, entrou chutando o cara que cometeu a falta, e o tempo fechou. Eu era o capitão da equipe, sai lá do gol para tentar apartar, e no meio da confusão, tomei um soco por trás, no olho. 

E o que aconteceu depois?
Com esse trauma, minha retina rasgou. Tive descolamento da retina, ainda tivemos mais um jogo para cumprir. Quando voltamos ao Brasil, sempre acordava com os olhos com bastante secreção e fui ao médico. Lembro que isso foi na segunda-feira, e no domingo tínhamos um clássico contra o Cruzeiro, e o Ronaldo Fenômeno estava naquele auge, em 1994. Fui à primeira consulta, e o médico só me receitou um colírio. Ele disse que a retina estava inflamada, mas era só aplicar os colírios que haveria a melhora. Eu já estava sentindo a vista embaçada. Fui para o jogo normalmente. Lembro que na metade do segundo tempo, eu perdi a visão periférica. Foi uma situação muito assustadora. Acabou o jogo, chamei o doutor Cimar Eustáquio e disse a ele que eu havia perdido a visão periférica do olho direito. Ele achou estranho, fez os exames formais que constaram essa deficiência, e imediatamente ligou para um colega dele oftalmologista e já marcou a consulta. Nessa consulta foi diagnosticado que minha retina estava rasgada devido ao trauma que eu havia sofrido. Fiquei um prazo de seis meses para poder voltar, após a cirurgia. Mas graças a Deus, à minha fé e à competência do médico, fiquei bom após seis meses. Minha mãe chegou até a fazer promessa.

Naquele jogo contra o Cruzeiro, Ronaldo não marcou. Então, você parou o Fenômeno sem enxergar direito?
Sim, parei o Ronaldo Fenômeno com um olho e meio (risos).Teve medo de não voltar a jogar em função dessa lesão no olho? Na época eu fiquei muito temeroso. Assim que tive o diagnóstico na clínica, logo lembrei do Tostão, que levou uma bolada no olho e teve que encerrar precocemente a carreira. Graças a Deus consegui ir até 2004, quando encerrei minha carreira.