Um dilema toma conta dos cronistas esportivos: revelar ou não o seu clube de coração? E isso sempre foi assim. Não com Roberto Drummond. Dono de uma capacidade impressionante para escrever sobre Belo Horizonte e seus personagens, ele não fez mistério quando foi convidado a ingressar no mundo do futebol, onde acabou se consolidando como uma das referências, por um estilo particular de explorar ao máximo a paixão do torcedor e deixar de lado detalhes táticos.
 
Seu primeiro texto na coluna “Bola na Marca”, que assumiu em 1º de junho de 1969, no jornal “Estado de Minas”, foi um documento de lealdade com o seu público. A entrada no mundo da crônica esportiva foi com: “A razão antes do coração”.
 
Roberto Drummond detalhou o nascimento da sua paixão pelo futebol, ao ouvir pelo rádio, em Guanhães, no Vale do Rio Doce, cidade onde nasceu, um clássico entre Atlético e Cruzeiro, em que viveu uma emoção diferente no momento da narração de um gol do atleticano Mário de Souza pelo locutor Paulo Nunes Vieira.
 
Aquela experiência fez o cronista passar a amar o Atlético. E isso foi destacado de cara, sem rodeios, com a mais pura honestidade.
 
Na parte final da crônica, um parágrafo que merece destaque: “Portanto, continuo a torcer pelo Atlético, e mais, a amar o Atlético. Só que, como cronista, sempre tentei pôr a razão antes do coração. Nem sempre consegui. Mais do que sempre, no entanto, vou tentar novamente”.
 
Essa foi a linha seguida por Roberto Drummond por mais de três décadas, grande parte dela vivida no Hoje em Dia, onde trabalhou entre 1988 e 2001.
Homem de hábitos simples, tinha a Savassi como seu território, quase uma fonte inspiradora, e o Mineirão como templo.
 
No final de 2001, passou a viver a ansiedade de cobrir uma Copa do Mundo do outro lado do planeta. Mas a perspectiva de passar quase um dia inteiro voando foi diminuindo o ímpeto de quem tinha medo de avião e não gostava de pensar o quão longe do chão estava, desafiando a Lei da Gravidade.
 
Acabou ficando por aqui. Foi sem dúvida o destino agindo. Em 21 de junho de 2002, durante o Mundial, o garoto que teve a paixão pelo futebol despertada ao ouvir a narração de um clássico entre Atlético e Cruzeiro pelo rádio deu o último suspiro antes de nos premiar com sua análise sobre a vitória de 2 a 1 do Brasil sobre a Inglaterra.