“Os que foram ontem ao Estádio Independência de modo algum poderiam supor que viriam um espetáculo de quilate do que apresentaram ingleses e norte-americanos. Também jamais poderiam supor que num único jogo duas grandes surpresas fossem oferecidas. Fomos ver os reis do futebol e os aprendizes do difícil esporte. Entretanto, não têm os ingleses a majestade de reis e muito menos são os norte-americanos principiantes”. Num mundo em que a globalização não era ainda nem um sonho, a matéria do “Diário de Minas” de 30 de junho de 1950 pode ser considerada a primeira percepção pública de que a seleção da Inglaterra não tinha a qualidade que se imaginava.

No “Diário da Tarde”, fica evidente a soberba inglesa. O jornal destaca que o resultado da partida não foi justo, pois os ingleses mereciam melhor sorte, por terem acertado duas vezes a trave e criado várias chances.

“Convém ressaltar, a derrota foi um castigo, um tremendo castigo, para os ingleses, que tiveram oportunidade de mudar a sorte da peleja, mas não o quiseram”, revela a matéria do jornal.

O texto destaca também a postura em campo do time inglês: “Vimos em várias oportunidades o ponteiro Finney levar de roldão a defensiva contrária, chegar até o poste do arco de Borghi e voltar a bola para os seus companheiros, quando poderia perfeitamente tentar o chute ao gol”.

Ciência

O jornal “Folha de Minas” teve toda a crônica do jogo destacando o coração norte-americano e a ciência britânica.

É destacada a qualidade do time inglês, mas de toda forma não deixa de ser criticado o fato de quererem exagerar na arte e na ciência diante de um adversário que só se defendia.

Não foi mero capricho da sorte a vitória dos americanos

Após a vitória sobre a Inglaterra, onde contaram com a torcida mineira, os jogadores dos Estados Unidos foram para o vestiário do Independência carregados pelo público, que invadiu o gramado entusiasmado com o resultado inesperado.

Na noite anterior ao jogo, alguns torcedores tiveram a chance de ter um contato direto com os jogadores norte-americanos. E de forma inusitada.

Em 6 de julho de 1950, quando Belo Horizonte não recebia mais jogos pela Copa do Mundo, o “Diário de Minas” fez uma grande reportagem sobre a passagem da Copa do Mundo pela capital mineira.

E revelou um aspecto curioso em relação à delegação dos Estados Unidos. Na noite anterior ao jogo contra a Inglaterra, o técnico Bill Jefrey foi abordado por um repórter do “Diário de Minas” na porta do Brasil Palace Hotel, onde a delegação estava hospedada, às 23h.

Questionado se os jogadores já estavam dormindo, disse que ficaria satisfeito se eles chegassem ao hotel até às 24h.

Quase todo o time dos Estados Unidos estava no Bar Brasil, bebendo chopes duplos, acompanhados por generosas doses de uísque e cachaça.

Se beberam antes da partida contra a Inglaterra, imagina depois. E o jornal “Estado de Minas” de 30 de junho de 1950 registrou a festa norte-americana, que entrou pela madrugada e teve novamente muito chope, uísque e cachaça mineira.

Carne sangrando

Um detalhe que chamou a atenção dos funcionários do hotel era o gosto dos norte-americanos por carnes mal passadas.

Segundo os testemunhos, em todas as refeições era obrigatório ter filé mignon, mas a carne precisava estar sangrando para agradar ao paladar dos norte-americanos.
 
A queda do reinado britânico

Tratados até então como reis do futebol, os ingleses acusaram o golpe sofrido no Horto. Três dias após o vexame diante dos Estado Unidos, a Inglaterra tinha a obrigação de vencer a Espanha, no Maracanã, para alcançar a fase final da Copa do Mundo. Para isso, contava com o retorno de Stanley Matthews, que foi poupado do confronto diante dos norte-americanos. Porém, nem mesmo o craque foi capaz de evitar a derrota pelo placar mínimo. Vossa majestade perdia ali sua coroa.

A Copa do Mundo de 1950 representou a queda da aura mítica que cercava a seleção inglesa. Criadores do futebol como conhecemos hoje, os súditos da Rainha mantinham, até então, um pensamento imperialista de que não havia a necessidade de medir forças com outras nações, já que dominavam por completo a prática do futebol. Porém, o vexame em terras tupiniquins fez com que um pouco da soberba fosse deixada de lado.

Após o fatídico Mundial, a Inglaterra tentou reconstruir seu reinado. Para tal, tinha como trunfo a superioridade contra os demais componentes do Reino Unido e a invencibilidade em Wembley. Porém, em 1953, mais um tabu caiu por terra. No dia 11 de novembro, restou aos mais de 100 mil ingleses aplaudirem de pé a goleada de 6 a 3 aplicada pela Hungria sobre os Three Lions. Mais que o placar favorável, ficou na memória a aula de futebol apresentada por Puskas e companhia. Para se ter uma ideia, foram 35 chutes disparados pela equipe comandada por Gusztav Sebes, contra cinco dos britânicos.

Revanche

No ano seguinte, durante a preparação para o Mundial de 1954, que seria disputado na Suíça, a Inglaterra tentou a revanche contra os húngaros. Dessa vez, o lendário time húngaro foi ainda mais implacável: 7 a 1.

Na Copa do Mundo, por sinal, os súditos voltaram a decepcionar sua rainha, ao deixarem o torneio nas quartas, após derrota de 4 a 2 para o Uruguai.

Dali em diante, ficou ainda mais evidente que o pensamento altivo não cabia mais ao esporte. A única vez em que os Three Lions estiveram no topo de um torneio foi na Copa do Mundo de 1966, quando os súditos conquistaram o caneco diante de “Vossa Majestade”, em um torneio marcado por polêmicas e organizado por eles.

Depois daquela conquista, a melhor colocação que a Inglaterra conseguiu foi uma semifinal na Copa do Mundo de 1990, sendo que em três oportunidades (1974, 1978 e 1998) sequer avançaram ao Mundial.

Nem mesmo em seu continente, os britânicos conseguiram recuperar seu reinado, pois têm pouca história na Eurocopa.

Criadores do esporte, os ingleses viram o futebol ultrapassar o Canal da Mancha e se tornar um fenômeno global, onde eles se transformaram em coadjuvantes, numa história que começou há 65 anos, no Estádio Independência.