Há exatamente um ano, o Cruzeiro dava mais um passo rumo ao rebaixamento à Série B do Campeonato Brasileiro.

No dia 26 de setembro de 2019, apenas 46 dias após ter sido contratado como técnico da Raposa, Rogério Ceni perdeu a queda de braço com medalhões do elenco celeste e foi demitido do cargo.

Após bater de frente com peças que exerciam grande liderança no grupo, como Thiago Neves, Edílson e Dedé, o treinador sofreu um processo de "fritura" por parte dos jogadores, e não teve o respaldo da diretoria, que preferiu ficar do lado desses atletas, e o desligou do comando da equipe.

A cúpula celeste na ocasião era liderada pelo ex-presidente Wagner Pires de Sá - que renunciou ao mandato em dezembro - , e Itair Machado, então vice-presidente de futebol, que era quem efetivamente tomava as decisões relacionadas ao elenco e à comissão técnica.

As três trocas de treinadores no ano foram mais um capítulo da péssima gestão de Wagner e Itair, que segue alvo de investigações das autoridades pela suspeita do cometimento de uma série de crimes e irregularidades, que levaram o Cruzeiro a maior crise institucional, econômica e política dos seus quase 100 anos de história.

"Fritura"

Em meio ao rendimento ruim da equipe, especialmente de jogadores experientes, Ceni adotou um discurso forte, defendendo mudanças drásticas no elenco, incluindo a saída do time de jogadores experientes, que pouco rendiam em campo.

Uma das principais figuras do trágico 2019 da Raposa, Thiago Neves, inclusive, chegou a criticar publicamente decisões do treinador. Entre elas, a não escalação de Edilson na eliminação na semifinal da Copa do Brasil, decretada com a derrota por 3 a 0 para Internacional.

Em resposta às declarações do meia, Rogério argumentou que o camisa 10 teria ficado insatisfeito por ter visto um amigo no banco de reservas.

O estopim foi o ocorrido com o zagueiro Dedé após o empate em 0 a 0 com o Ceará, no Castelão, na 21ª rodada do Campeonato Brasileiro.

Após o duelo, em reunião no vestiário, o zagueiro pediu a palavra e defendeu a valorização de atletas experientes, citando Thiago Neves, que havia ficado no banco de reservas durante a partida.

Irritado, Ceni deixou o local antes mesmo de o defensor acabar de falar e foi em direção ao ônibus, evidenciando ainda mais o clima pesado entre as partes.

Na volta a Belo Horizonte, Rogério Ceni se reuniu com membros da diretoria e foi informado que estava desligado do cargo.

Nem mesmo as manifestações favoráveis de grande parte da torcida, que apoiou a postura incisiva do técnico, foi suficiente para mantê-lo no comando da Raposa.

Ceni deixou o Cruzeiro na 17ª posição, com 19 pontos, a mesma pontuação do Fluminense, primeira equipe fora do Z-4 na época.

Atendendo ao desejo de boa parte dos líderes do elenco, o Cruzeiro contratou Abel Braga, que contava com o apreço de vários medalhões do grupo.

Sem promover as mudanças defendidas pro Ceni, Abel deu o respaldo a esses atletas, os manteve no time, e teve como fim uma melancólica demissão a três rodadas do fim, com o rebaixamento da equipe celeste muito próximo de ser concretizado.

Adilson Batista, com três derrotas em três jogos, não conseguiu evitar a inédita queda da Raposa à Série B do Brasileiro.

Tentativa de retorno

Após a saída do Cruzeiro, Rogério Ceni voltou ao Fortaleza - então adversário do time estrelado contra o rebaixamento - e conseguiu livrar o Tricolor de Aço com tranquilidade do risco de Z-4, conseguindo, inclusive, a classificação inédita do Leão para a Copa Sul-Americana.

Em diversas entrevistas desde que deixou a Toca da Raposa II, o treinador citou o carinho pelo clube estrelado e afirmou que teria salvado o time estrelado do descenso, caso tivesse recebido o respaldo da diretoria para fazer as mudanças que julgava necessário.

O sentimento de que a história de Ceni poderia ter sido diferente no Cruzeiro também é comungado pela atual gestão da Raposa.

Após a recente demissão de Enderson Moreira, a diretoria da Raposa entrou em contato com Ceni para tentar o possível retorno do técnico para o clube estrelado.

Além de negar o convite, o comandante afirmou em entrevista à ESPN Brasil, que não recebeu nenhum centavo no período em que trabalhou no Cruzeiro, se mostrando chateado por nunca ter sido procurado por ninguém do clube para tratar do assunto.

Logo em seguida à revelação de Ceni, o presidente Sérgio Santos Rodrigues afirmou que entrou em contato com o técnico para negociar o pagamento do débito.