"O coração vale mais". Foi com este espírito que o Democrata, de Sete Lagoas,  viu o seu treinador Paulinho Guará se transformar em principal personagem da permanência no Módulo II do Campeonato Mineiro. Trocando a prancheta pela chuteira, o comandante, de 39 anos, entrou em campo, deu o passe para o gol da vitória sobre o Ipatinga e garantiu a equipe na Divisão de Acesso à elite do Estadual.

Filho de Guará, campeão brasileiro de 1971 pelo Atlético, o técnico do Jacaré de Sete Lagoas entrou aos 25 minutos do segundo tempo e deu assistência para Rafinha Rodrigues estufar a rede. Na lanterna da competição, com 8 pontos, o time da Região Metropolitana superou o Tigre do Vale do Aço e, como vencerá a última rodada por W.O, já que o Tricordiano abandonou a disputa, deve repassar o descenço justamente ao campeão da Primeira Divisão em 2005.

"Esta história do Democrata comigo tem uma raiz de muito tempo, até mesmo pela história do meu pai pelo clube. No ano passado, conseguimos livrar o time do rebaixamento, mas não chegamos a um acordo para renovar. No início deste ano, a diretoria me convidou para jogar, até pela circunstância precária que atravessa. Eu já tinha aposentado há dois anos e resolvi ajudar, me inscrevendo como atleta. Fiz um jogo na terceira rodada. O time não vinha bem e o Milagres assumiu o comando. Ele teve uns problemas pessoais e foi embora. Os jogadores me pediram para assumir a vaga", conta Paulinho ao Hoje em Dia.

"Temos só 16 jogadores e o grupo é bem reduzido. Contra o Ipatinga, a torcida começou a gritar meu nome, aos 20 minutos do segundo tempo. Como eu já estava preparado, fui para o jogo. Em dois lances, dei duas cabeçadas, duas na trave. No lance do gol, escorei a bola para o meu meio-de-campo que fez marcou. É uma situação inusitada, que eu não planejava jogar, mas, pela necessidade e por não ter mais opções de banco, fui feliz e pude ajudar a equipe dentro de campo", acrescenta o heroi do Jacaré.

Nascido na própria Sete Lagoas, Paulinho Guará foi revelado pela base do Atlético e rodou por vários clubes do interior de Minas. Após pendurar as chuteiras, foi se aventurar nos campos de várzea, onde acabou conquistando a famosa Copa Itatiaia em 2019. No mesmo dia, foi campeão do torneio internacional de master pelo Galo; neste, inclusive, findou como artilheiro.

Sempre em atividade, ele parece ter pressentido que seria importante do duelo contra o Ipatinga. No último coletivo da semana, entrou em campo durante 15 minutos e fez parte da atividade entre os jogadores.

"Nossa folha salarial não chega a 40 mil reais. Estamos com salários atrasados, temos dificuldades com alimentação, transporte e até para treinar. Só podemos usar a Arena do Jacaré duas vezes na semana; nos outros dias, temos que usar um campo society na cidade", desabafa o apaixonado pelo Democrata.

"Alem de treinador e jogador, também sou supervisor, psicólogo... As coisas estão cada dia mais difíceis por aqui. Não sabe se tem dinheiro para viajar. Na viagem para Muriaé, por exemplo, até um dia antes não sabíamos se teria dinheiro para jogar. O mesmo acontece em relação às taxas para a Federação. Espero que voltem a nos apoiar e que a torcida se mobilize cada dia mais para nos salvar", finaliza.