Os verdadeiros lares e as famílias estão a 10,6 mil km de distância. Os empregos no aeroporto e na barbearia e os estudos de engenharia metalúrgica foram deixados de lado. Agora, as mãos carregam panos, baldes, vassouras e produtos de limpeza. Mas a esperança e a paz amenizam a mudança repentina na vida de três homens que encontraram no Clube Atlético Mineiro a chance de um recomeço.

Reforçando a histórica ligação com a colônia síria em Belo Horizonte, o Galo orgulha-se de ter, no quadro de quase 500 conselheiros, mais de 10% representantes com ascendência árabe. Hoje, a lista de funcionários também é composta pelo sangue sírio, o mesmo tão derramado na Guerra Civil que assola o país do Oriente Médio desde 2011.

George Azar, de 32 anos, Osama Alshaikh, de 30, e Majed Ibrahem, 22, se dizem privilegiados por poder trabalhar no Brasil, uma vez que nem todos os compatriotas tiveram a mesma sorte em Minas Gerais. Acolhidos pelo padre George Rateb Massis na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, os sírios enfrentam, além da adaptação, o problema do desemprego no país.

No Galo, o pagamento chega à casa dos R$ 1 mil, superando o salário mínimo oficial brasileiro (R$ 788). Os empregos como faxineiros dão aos refugiados condições de pagar as contas, como o aluguel de apartamentos. Mas a palavra “conforto” fica, ainda, na imaginação. Principalmente para Azar, que veio para a capital mineira com a esposa e um filho de apenas 2 anos.

“O salário no Brasil é muito baixo. Nós não somos capazes de comprar todas as coisas que necessitamos. Somente o básico. Entretanto, nos sentimos confortáveis por ter este emprego. As pessoas no clube são muito amáveis”, afirma o refugiado, que era tradutor de inglês no aeroporto da capital Damasco, e ainda não se sente muito à vontade para arriscar o idioma local.

“O português é uma língua muito complicada para se aprender. Para mim, existe essa barreira para conviver com a população local”, completa o sírio.

Azar, Alshaikh e Ibrahem estão em terras brasileiras há poucos meses e, apesar da cultura tão distinta, já têm uma certeza: o retorno à Síria está fora de cogitação. “É uma realidade muito triste”, conta Alshaikh.

AMIGOS NO BRASIL

Ao contrário de Azar, Osama e Majed já conseguem se comunicar relativamente bem em português. Eles foram contratados graças ao intermédio de Emir Cadar, presidente do conselho alvinegro e cônsul da Síria. Ambos são de Homs, terceira maior cidade do país e, provavelmente, a mais atingida pela guerra.

Os dois funcionários contam que se conheceram no clube e se tornaram amigos. “Não sabíamos quase nada sobre o Atlético. Majed e eu somos da mesma cidade, mas só fomos nos conhecer aqui. Nós todos (imigrantes sírios) somos vizinhos. E, sempre que podemos, realizamos uma confraternização nos finais de semana”, explica Alshaikh.

A diretoria do Galo prepara um ato simbólico pela paz na partida contra o Flamengo, neste domingo, às 16h, no Independência. Antes do jogo, refugiados entrarão em campo com bandeiras brancas e da Síria para agradecer a recepção dos mineiros e chamar atenção para a crise no país de origem.

BH triplicou número de refugiados em um ano
Há cerca de dois meses, o mundo voltou a olhar para o problema dos refugiados e Belo Horizonte já triplicou o número de imigrantes sírios em um período de 12 meses (setembro 2014 - setembro 2015). São 72 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, registradas oficialmente no Consulado do país na capital mineira, sendo que o total de integrantes deste grupo especial de habitantes chega a 100 pessoas

"O Brasil, no princípio da Guerra (na Síria), recebeu os refugiados muita facilidade. Mas vir como imigrante é uma coisa, como refugiado é outra. O imigrante prova que tem condições de morara qui, que tem família. Os refugiados não, eles entram de repente e o país tem que estar preparado", comenta Emir Cadar, cônsul da Síria em BH.

A maioria deles possuem diploma universitário, uma vez que o 2º grau é obrigatório na Síria. Entretanto, assim como Osama, Majed e George, abrem mão da capacitação profissional para se alocarem no mercado. Comércio e salão de beleza são os destinos mais prováveis.

"Depois, como começaram a vir muitos, o governo brasileiro começou a dificultar a entrada. De uns dois meses para cá que a guerra agravou, o Brasil novamente facilitou a entrada e há um comitê em Brasília criado especialmente para isso", completa Emir.

O futebol e os refugiados
Em um dos mais acirrados jogos do Campeonato Espanhol, Atlético de Madrid e Barcelona esqueceram a rivalidade para dar apoio aos refugiados, que não vêm só da Síria, mas de outros países em conflito na África e em outras regiões do Oriente Médio. A açãos dos espanhóis foi apenas mais uma gota na ducha de solidariedade que lavou o futebol. No Brasil, por exemplo, os jogadores do Fluminense entraram em campo, contra o Flamengo, no último 6 de setembro, de mãos dadas com crianças sírias.

Mas a principal maneira de ajudar foi por meio de doações. O técnico da Seleção Alemã campeã da Copa 2014, Joachim Low, doou 25 mil euros para ajudar os refugiados. O Bayern de Munique criou o "centro de treinamentos" para ajudar a acolhimento e o Real Madrid repassou 1 milhão de euros para o governo espanhol.

A Suíça, um país rotulado pela neutralidade em questões geopolíticas mundiais, saiu de cima do muro. A liga local doará R$ 1,9 mil para cada gol marcado. Mas a ação mais direta veio do Getafe. O sírio Osama Abdul Mohsen, que foi derrubado por uma cinegrafista húngara enquanto carregava o filho e fugia , era treinador de futebol no país natal e foi convidado a trabalhar na escolinha do clube.

*Atualizada às 13h22

 

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